A CATITA E A TOUPEIRA
Emílio J Moura
Há pessoa cuja cabeça é incapaz de absorver
conteúdos mínimos de informação organizada. Não discutimos se essa incapacidade
é genética ou é fruto da ausência de treinamento mental propiciado pela
educação ou da não convivência com pessoas tidas como normais. O certo é que
essas pessoas de mente opaca existem. É o caso de dona Filisbrônia. De nome tão
complicado, não menos complicada é a cabeça da citada mulher. Só acredita nas
asneiras que ela é capaz de fazer ou dizer quem já conviveu algum momento com
ela. Cada dia é uma novidade! Uma peripécia inacreditável. Hoje, é a conta de
energia da casa dela que chegou multiplicada por cinco; como se não bastasse,
recebeu da operadora do sistema de energia elétrica uma comunicação de multa
num montante quase dez vezes o valor da
conta-padrão. Amanhã, é a água, que não chega à torneira, mas a conta vem, e
com números assustadores: mais de dez vezes o valor da cota mínima que ela
costumava pagar. As cobranças de lojas e de bancos não param de chegar a casa
dela, e dona Filisbrônia é mera pensionista, percebendo apenas um salário
mínimo. Mas tem cartão de crédito, e ainda por cima usa o cartão de algum
parente. Depois vêm aquelas queixas de dores na coluna, dor de cabeça, insônia,
falta de comida em casa, pessoas doentes na família, nenhum dinheiro para
atender suas demandas, etc. E aja chrurumingagem! E aja saco para suportar tão
baixo astral.
Pois não é que dona Filisbrônia teve uma
idéia genial. Um pedaço de carne encontrado mordida dentro de uma panela teria
sido obra de uma catita que anda provocando a capacidade de reação dos
moradores de uma casa que ela freqüenta. O minúsculo rato teria roído a carne!
“-Mas dona Filisbrônia, como um ratinho desses pode entrar na panela e roer a
carne?”, indagaram dela. A mulher, com ares de sabichona, respondeu de pronto:
“Eles abrem a tampa das panelas e entram”. Que um rato minúsculo possa forçar a
tampa de uma panela e penetrar seu interior ninguém duvida. Difícil é aceitar
que a catita tenha tirado a tampa da panela, comido a parte da carne que a
saciou e depois recolocado a tampa sobre a panela. Catitinha inteligente essa!
E dona Filisbrônia ria de sua capacidade de explicar o inexplicável. E insistia
no argumento, aduzindo que já viu um ratinho entrar num caldeirão, comer o que
quisesse lá dentro e sair deixando o panelão tampado.
Dona Filisbrônia
é uma dessas pessoas que para provar que existe rato num lugar é capaz de cavar
a terra ali embaixo, abrir um buraco e nele enfiar a cabeça terra a dentro até
encontrar o animal. Pouco lhe importando que afundasse na terra, desaparecesse
da superfície e quando saísse – se saísse– estivesse amarrotada de areia da
cabeça aos pés. De tantas catitas espertas e toupeiras tontas é que as cabeças das
pessoas estão cheias.
20.06.2009
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