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EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

                        A CATITA E A TOUPEIRA
                                Emílio J Moura
                Há pessoa cuja cabeça é incapaz de absorver conteúdos mínimos de informação organizada. Não discutimos se essa incapacidade é genética ou é fruto da ausência de treinamento mental propiciado pela educação ou da não convivência com pessoas tidas como normais. O certo é que essas pessoas de mente opaca existem. É o caso de dona Filisbrônia. De nome tão complicado, não menos complicada é a cabeça da citada mulher. Só acredita nas asneiras que ela é capaz de fazer ou dizer quem já conviveu algum momento com ela. Cada dia é uma novidade! Uma peripécia inacreditável. Hoje, é a conta de energia da casa dela que chegou multiplicada por cinco; como se não bastasse, recebeu da operadora do sistema de energia elétrica uma comunicação de multa num montante  quase dez vezes o valor da conta-padrão. Amanhã, é a água, que não chega à torneira, mas a conta vem, e com números assustadores: mais de dez vezes o valor da cota mínima que ela costumava pagar. As cobranças de lojas e de bancos não param de chegar a casa dela, e dona Filisbrônia é mera pensionista, percebendo apenas um salário mínimo. Mas tem cartão de crédito, e ainda por cima usa o cartão de algum parente. Depois vêm aquelas queixas de dores na coluna, dor de cabeça, insônia, falta de comida em casa, pessoas doentes na família, nenhum dinheiro para atender suas demandas, etc. E aja chrurumingagem! E aja saco para suportar tão baixo astral.
       Pois não é que dona Filisbrônia teve uma idéia genial. Um pedaço de carne encontrado mordida dentro de uma panela teria sido obra de uma catita que anda provocando a capacidade de reação dos moradores de uma casa que ela freqüenta. O minúsculo rato teria roído a carne! “-Mas dona Filisbrônia, como um ratinho desses pode entrar na panela e roer a carne?”, indagaram dela. A mulher, com ares de sabichona, respondeu de pronto: “Eles abrem a tampa das panelas e entram”. Que um rato minúsculo possa forçar a tampa de uma panela e penetrar seu interior ninguém duvida. Difícil é aceitar que a catita tenha tirado a tampa da panela, comido a parte da carne que a saciou e depois recolocado a tampa sobre a panela. Catitinha inteligente essa! E dona Filisbrônia ria de sua capacidade de explicar o inexplicável. E insistia no argumento, aduzindo que já viu um ratinho entrar num caldeirão, comer o que quisesse lá dentro e sair deixando o panelão tampado.

      Dona Filisbrônia é uma dessas pessoas que para provar que existe rato num lugar é capaz de cavar a terra ali embaixo, abrir um buraco e nele enfiar a cabeça terra a dentro até encontrar o animal. Pouco lhe importando que afundasse na terra, desaparecesse da superfície e quando saísse – se saísse– estivesse amarrotada de areia da cabeça aos pés. De tantas catitas espertas e toupeiras tontas é que as cabeças das pessoas estão cheias.                                                                                           20.06.2009

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