NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013


     FOLCLORE DA ZONA DA MATA SUL  I 
                BRINCADEIRA DE RODA
(Personagens: moças  e rapazes  formando  filas, e em cantiga gesticulada).

Eu fui a Tororó beber água,
não achei,
encontrei belas meninas
eu de Tororó cheguei;
eu de tororó cheguei
com prazer e alegria,
Nossa Senhora das Dores,
Nossa Senhora da Guia.
 Vim de Tororó,
 também quero dançar,
E vou tirar você
para ser meu par.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013


                           PAÍS  EM  COMOÇÃO
As pessoas, todas jovens, buscavam diversão na sisuda cidade universitária de Santa Maria-RS. Bandas locais animavam a festa tocando uma mistura de ritmos sertanejos com a música alegre  da região. Local conhecido, boate frequentada pela garotada universitária. Ninguém esperava que o pior pudesse acontecer. Principalmente os jovens. Certas funções mentais só amadurecem aos 30 anos, e no interior daquela boate a idade média ficava entre 20/25 anos.
Hábitos perniciosos, mas aceitos como componentes da balada; uma mistura de irresponsabilidade  e cumplicidade com o ilegal. O Brasil talvez seja a única nação onde há leis “que pegam” e “leis que não pegam”. A única lei que pode pegar e gerar efeitos positivos num país assim é ter vergonha na cara. No mais, encontramos sempre vestígios daquele “jeitinho brasileiro” que acomoda tudo. A vida e a morte estão num conceito de extremos, mas tão  vizinhas que se misturam num piscar de olhos.
Vozes com sotaque fortemente local falam da experiência de terem visto a sombra da morte. E por um triz essas vozes não calaram  sufocadas pela fumaça tóxica que se espalhava feito rastilhos de pólvora dentro de um ambiente fechado, agora escuro, sem ventilação. Santa Maria, grande centro acadêmico com várias  universidades. Cidade elitizada, onde os nomes das pessoas parecem indicar que elas moram em regiões  europeias. Motor da cultura técnica e científica do sul do País. Metrópole onde nada falta.  Em termos, porque lá como em toda a nação falta aquela disposição de aplicar as leis. Vai ver que as leis específicas não pegaram por lá. O que não impede as famílias enlutadas chorarem neste momento a perda de entes queridos. E a nação em peso esteja nesta comoção.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013


           ALÔ MENINADA!
(Personagens: os palhaços  Mateus e Catarina, a macaca zica e os meninos dos engenhos e sítios próximos; a trupe “galopava” rua afora)

Ara ra ra,  ere re ré,  jacaré comprou cadeira
mas não soube se sentá;
ara ra  ra,  ere  re ré, jacaré comprou caaadeiiiiiira
masssss  nãooooo souuuuube se sennntáaaaa.
Meu pai se chama tripa, minha mãe tripamaria,
Arralá com tanta tripa que eu sou fiu da triparia.
Ara ra, ere re  ré ...
Meu pai se chama fita, minha mãe fitamaria
Arralá com tanta fita que sou fiu da fitaria.
...
Hoje tem espetáculo?
Tem sim senhor
Às dez horas da noite?
É sim senhor.
(Ensaio-chamada para  espetáculo circense em engenho da mata sul,  1938)



quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


                                EU VI, EU ESTAVA LÁ
Questionam-me sobre minhas afirmações  postadas no face e no blog ainda em “manchete”. Alguém insinuou que ando lendo “muita literatura de cordel”. Bom seria se assim fosse. Talvez por isso a rejeição ao meu livro, de onde as afirmações foram retira copiladas. O livro foi escrito a conta-gotas, em anos diversos e finalizado em 1959. É o relato de quem, ainda criança, testemunhou o tratamento desumano dispensado aos negros e seus descendentes; quilombolas, sim, expulsos de suas casas e áreas de culturas agrícolas pelos novos donos da terra, que não a compraram de ninguém, simplesmente apossaram-se de toda terra possível, desmataram a cobertura vegetal que protegia córregos e pés-de-serra, produziram deslocamento do solo, seu empobrecimento biológico e o assoreamento dos rios. As extensas áreas que passaram a constituir o canavial da riqueza dos coronéis do açúcar  em começos do século vinte estão hoje quase abandonadas ou subutilizadas. Engenhos, que engoliram os sítios, são hoje povoados fantasmas; não produzem mais nada nem têm casa grande ou vila que no passado não muito distante serviram de senzala. O quadro é tão desolador, que nem os sem-terra têm interesses naquelas áreas. Fruto de uma política agrária sem planejamento adequado, por isso mesmo destinada ao fracasso, as parcelas não produziram o mínimo para o sustento dos parceleiros e de suas famílias,  motivo pelo qual foram abandonadas. Legado do regime militar,  essa forma de interiorizar a produção e fixar o homem à terra  torrou dinheiro que se bem aplicado mudaria o perfil da área canavieira em acelerada queda, principalmente no vale do rio Uma, onde se situam os processos descritos no livro e por nós pessoalmente testemunhados. As terras pretensamente adquiridas por esses filhos do descaso pertencem agora ao agente financiador das malogradas  transações - o Banco do Brasil, e em muitos casos, sem nenhuma serventia.                                  
O destino dos parceleiros, de pouca instrução, senão analfabetos, foi idêntico ao dos quilombolas que habitavam os sítios na encosta dos morros ou nas alças livres da mata. Uns como outros, todos remanescentes sem rumo da escravidão bárbara que apreendeu os negros africanos em sua terra natal e os trouxe para trabalhar à força nos canaviais, sem salários e sob  chicotes: a beira da maré, no meio do mangue disputado com os caranguejos  ou as encostas dos morros da região metropolitana. Maré e mangue, onde encontravam siris, mariscos e peixes que passaram a ser sua dieta e sua única fonte de renda; encostas de morros - ainda  não disputadas por proprietários de terra e onde podiam erguer os casebres onde passavam a morar com suas famílias.
Que bom seria se tudo isso fosse mera  literatura de cordel! Mas é a realidade cruel ainda presente naquelas glebas. Quem me contou essas histórias? São fatos, eu os vi, eu estava lá. Minha família pertencia à elite  de então, como agente operacional  das atividades-meio  de plantio, cultivo, corte e transporte da cana-de-açúcar para as usinas locais. Se eu e meus irmãos não tivéssemos estudado e palmilhado uma ou mais profissões  teríamos com certeza o mesmo destino cruel  dos filhos residuais da escravidão.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013


    A ESCRAVIDÃO ACABOU, JÁ  OS SEUS EFEITOS...
Fins de 1939, algumas décadas depois da assinatura da Lei Áurea, sítios distantes da rota principal entre a usina serro azul e a usina 13 de maio  acolhiam pessoas desconfiadas, arredias, que temiam qualquer outra não pertencente ao seu grupo étnico. (...) Quilombolas residuais ocupavam casas de taipa perto das montanhas cobertas pela mata que restava por ali. Muitas dessas pessoas talvez nem soubessem do fim da escravidão. Cultivam roças de subsistência e se vestiam de trapos. Os homens  se arriscavam ir à feira, no pátio da usina serro azul. Compravam produtos essenciais à sobrevivência que não podiam fabricar.  Não andavam pelos caminhos do engenho onde eu morava; buscavam trilhas alternativas que saiam de dentro dos canaviais. Já as moças - pobres moças esfarrapadas, despenteadas e assustadas, eram preservadas da curiosidade dos estranhos. Escondiam-se  atrás das pedras dispersas ao longo da paisagem. Falavam uma língua que podia ser tudo, menos português. Um dialeto estranho, que parecia a nós meninos de engenho algo como pertencente a um mundo diferente. (...)  Essa gente, que havia fugido das senzalas e do tratamento desumano praticado pelos senhores de engenho durante o recém-extinto regime de escravidão, foi removida de suas habitações pelos nova elite canavieira composta de donos e arrendatários de engenhos, assim como pelos coronéis-usineiros. Não sei que destino tomou. Sei que as pessoas desses grupos de ex-escravos, na sua maioria jovens misturadas com velhos que não podiam mais cultivar a terra foram expulsas do local onde nasceram. No lugar onde moravam existia agora um extenso tapete verde constituído pelo canavial a perder de vista. (...) A escravidão terminou, mas seus efeitos perduraram, e ainda perduram, na rejeição aos negros, no preconceito velado aos filhos da miscigenação e – como negar?, nos instrumentos “ocultos” de tortura ainda visíveis  nos centros de trabalho dominados pelos usineiros e seus descendestes que mantêm esse apartaid ignominioso...
(Trechos do meu livros  Sonhos e Ruinas, Pingos de Memória de um Ente Fragmentado – 1959, que jaz desfolhado numa prateleira onde nem eu mesmo visito).