NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013


-Sá Rosário, um homem lá fora pede água.
-Pois dê água ao pobre, sá  Marica.
-Aonde tem água, sá Rosário?
-Na coité, sá  Marica.
-Sá Rosário, seu “pobre homem” também quer doce!
-Pois dê doce a ele, sá Marica.
Maria Grande tinha ido à usina visitar a sogra. Aproveitaria a visita para se queixar de Mila à avó. O menino estava ficando insubordinado por causa de tanto mimo que Maria do Rosário lhe fazia. Estava saindo de casa a qualquer hora do dia, não pedia pra sair nem dizia pra onde estava indo. Se pegasse um cinturão e desse umas  lapadas nele para ele se endireitar, a avó ia meter a colher e ele ia ficar ainda mais afoito. Quem já se viu um menino de seis anos andar por ai afora,  pela beira do rio, no meio das canas e até pelo sítio mais longe. Tem cobra,  guará e jaguatirica e até uma onça pode aparecer de repente. A mãe do menino ia desfiando aquele rosário de reclamações, quando a sogra a interrompeu:
-Pode parar, sá Marica. Um dia sá Marica vai morrer envenenada mordendo a própria língua. Menino a gente educa com conselhos, carinho e bons exemplos; sá Marica por acaso é carreira com um chicote na mão e o meu neto é o boi do cambão para ser chicoteado?
Maria do Rosário, magrinha, nariz em ângulo reto, estudada no colégio diocesano e viajada pela Europa, falava mansinho, media cada palavra que ia dizer, mas não tinha receio de falar com ninguém. Era ela quem - de régua em punho nas sabatinas, dava aula de reforço para os filhos do coronel usineiro e da elite canavieira daquelas bandas. E em cujos cabriolés viajava quando precisava se deslocar para a cidade ou fazer uma visita no campo. Já Maria Grande, analfabeta, um metro e oitenta e tantos, feições indígenas,  musculosa, cabelos pretos e lisos a lhe caírem até à cintura,  vestida de paletó de ampoleta,  chegava montada em um cavalo de cela. Poucos homens podiam competir com ela.
                                                                    (...)

(Trecho do livro Sonhos e Ruinas – Pedaços de Memória de um Ser quase  Espedaçado)

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