AINDA SOB O SIGNO DA ESCRAVIDÃO
Emílio J. Moura
Quando me dei conta que existia, eu morava no engenho Vista Alegre. A antiga casa grande, vestígios da época da escravidão, deu lugar a uma outro imóvel de estilo mais moderno. O vilarejo onde moravam os trabalhadores fixos do engenho Vista Alegre tinha sido a senzala onde os negros escravizados ficavam quando não estavam no trabalho. Pouco mais de quarenta anos decorria então do fim desse abominável regime de exploração do homem branco contra o semelhante negro. Aparentemente, as condições deploráveis existentes na vigência da escravidão haviam sido modificadas, substituídas por um ambiente melhor, de liberdade e respeito ao ser humano. Só aparentemente. Na verdade, a queda dos senhores de engenho e a ascensão dos usineiros mudou pouca coisa no quesito social. Os ex-escravos saiam das mãos dos seus donos e caíram nas mãos dos seus carrascos. Acabou a escravidão, mas os equipamentos de tortura não foram de todo desativados. Em certos casos, até que pioraram. Na pressa de uma migração forçada pelas circunstâncias da chamada Lei Áurea, fugindo ao ambiente em que viveu como escravo, o negro acabou chegando às usinas ou a outros engenhos em busca de sobrevivência. Nesses ambientes encontrou não a liberdade almejada, e prometida, mas a subordinação forçada pelas novas relações de trabalho e convivência ali encontradas. Muitos preferiram continuar em seu êxodo; outros, sem alternativas de sobrevivência, aceitaram as novas condições.
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