A PIRANHA E A MOÇA CASTA
Emilio J. Moura
Hosana era uma menina branca e algo gordinha. Dessas brancas cuja pele mais parecia uma peça de carne suína logo após o corte. Essa comparação um tanto quanto esdrúxula tinha a ver com a configuração física da garota. Pele oleosa, a linfa parecia escorrer do seu rosto redondo em meio ao suor nos dias quentes. E era sardenta, no busto e no dorso que de vez em quando ela fazia questão de exibir, quando levantava a blusa para me mostrar “uma coisa queimando aqui nas minhas costas”. A situação era muitas vezes constrangedora para mim. Eu, ainda adolescente e secretário de uma escola comunitária, costumava comparecer à secretaria da escola às manhãs dos sábados para supervisionar a limpeza semanal que era feita por um grupo de alunos voluntários e também por alguns familiares de outros alunos. Hosana se antecipava a esse trabalho, que deveria começar depois das nove horas. E eu não tinha como me livrar daquele assédio que muitas vezes considerava inocente da moça. Ela morava numa casa ao lado da escola, e penetrava no interior da mesma através de uma porta traseira. Ela e as irmãs estudavam conosco, só que numa turma especial cujas aulas eram ministradas pelo diretor.
De família evangélica, Hosana freqüentava a Assembléia de Deus. Tinha uns dezoito anos, mas uma mentalidade de dez ou onze anos. Era a primeira vez que freqüentava uma escola (ela e as irmãs); seu pai era motorista de caminhão e trafegava mais pelas estradas do interior, e por motivos que não sei determinar não permitia que as filhas estudassem. Foi convencido pelo diretor. Paralelamente, Hosana começou a freqüentar as reuniões de um grêmio recreativo dirigido por uma mulher casada com um pescador, um marinheiro ex-combatente. Essa mulher, depois viria revelar traços degradantes de personalidade até então desconhecidos. Além de sua infidelidade comprovada, aliciou uma outra menina para me salvar das garras de Hosana. Naninha ( omito seu nome por motivos pessoais), também era evangélica e freqüentava a mesma igreja. Mas não o grêmio. Deu para aparecer na escola, à titulo de cooperar com a faxina,chegando quase sempre antes de Hosana, batendo na porta e entrando ao meu aceno. Atrapalhou os planos da menina sardenta, mas logo se descobriu também interessada por mim. Comedida, de alma pura, viveu um drama pessoal para resolver esse sentimento assim aflorado. Adoeceu, não sei bem de que, e foi levada pela família para o interior. Ao voltar, ficou noiva e não mais apareceu na escola. E algum tempo depois, quando a escola já havia se transferido para outro imóvel, e questionada pelas colegas sobre o porquê de não me procurar mais, Hosana desabafou: “Aquele cara não é homem não!”
30.01.2009
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