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domingo, 5 de dezembro de 2010

                                                     A BRIGA EM QUE O GALO CEGOU O BOI




                                                         Emilio J. Moura

                                                 (emiliojmoura@hotmail.com)





Parece história de pescador; de caçador. Ou de dono de galo de briga. Mas é história de trabalhador do campo. Homem que tinha visão das coisas. E história verídica, o autor quer ressaltar. No Engenho Vista Alegre, no vale do Uma, em Palmares, existia um boi cego do olho direito. Boi, desses reprodutores que fazem a alegria de qualquer dono de fazenda. Ainda mais que esse dono de fazenda também era usineiro. Acontece que o pobre do bicho estava ali para o trabalho no cambão. Tinha sido trazido da fazenda do usineiro, para desprazer deste, que não poderia correr o risco de ter em seu plantel de reprodutores uma matriz com defeito físico, e esse defeito pudesse ser transmitido ao produto da inseminação natural em sua fazenda. Se bem que a ação genética de um processo dessa natureza só se revele após três ou quatro gerações, consecutivas ou não. E assim mesmo por hipótese. Quem tinha esses receios sabia o porquê deles: o usineiro era médico.

Boi com um olho cego é coisa normal. Uma espetada no arame farpado da cerca. Ou um choque acidental com alguma ponta de pau na capoeira por onde o gado passava em busca de melhor pasto. Nada mais natural. Mas esse caso aqui relatado era diferente. Em tudo e por tudo. Cegara o boi um galo. Sim senhor: um galo, desses briguentos e arruaceiros, numa briga de levantar poeira com um boi bravo e arisco, cegara-o. Agora, meio acabrunhado, quase acovardado, o dito boi estava a puxar um bólido.

O boi o autor viu muitas vezes lá no engenho. A história do seu infortúnio quem contou foi Zé da Lua. E Zé da Lua não era um qualquer para sair por aí inventando conversa furada. Da Lua era um homem sábio, de inteligência apurada, raciocínio fluente e discurso organizado. Um sábio descamisado e descalço que jamais tinha ido a uma escola.

Segundo Zé da Lua contou, o boi mestiço raciado de zebu era o terror da fazenda para onde o gado era levado a fim de engorda antes de ser posto a puxar carro-de-boi no transporte da cana nos engenhos. Por ser tão brabo, vivia confinado num recanto do cercado da fazenda. Ninguém ousava atravessar aquele recanto. Exceto, naturalmente, o tratador que cuidava dele desde que era novinho. Com o tratador o bicho feroz era manhoso, nansinho. Outro boi que se aproveitasse de um descuido dos trabalhadores deixando aberta a reforçada porteira, entrasse no espaço privado do zebu, poderia se dá mal. Era quase morte certa. Ou, no mínimo, estrago feio. Para realizar os cruzamentos, o boi era preso em seu espaço, e vendado, enquanto a vaca era levada com cuidado e posicionada na área de inseminação de forma a só ser alcançada pelo reprodutor através do traseiro. O grosso do animal, sempre levado por seu tratador, penetrava a vaca sem que ambos se vissem de frente em nenhum momento. Em seguida, era levado de volta ao seu recanto. A vaca era retirada por uma pequena porteira à frente do estreito corredor destinado à inseminação natural.

Sucedeu, certo dia, de o galo privilegiado do terreiro de reprodução especial da fazenda escapar de sua área restrita, aproveitando uma brecha na cerca de madeira que o mantinha segregado das demais aves. Só era solto pela manhã e à tarde para cumprir seu papel fertilizador dos ovos das galinhas-martrizes. E quando estava solto no terreiro, ficava numa área especialmente destinada à produção de pintos de raça superior que mais tarde seriam selecionados para substituir as matrizes com validade vencida. Aí ficavam as galinhas de raça que iriam botar os ovos que dariam origens a esses pintos. Nos momentos em que estava solto no terreiro, só o dito galo cantava de galo. Os outros, lá no outro lado da cerca, piavam. Se cantassem, o galo estabanado pulava a cerca e surrava os “afoitos”.

Pois não é que, encontrando-se solto no terreiro, o galo acha de passar a cerca reforçada de arame farpado, e entrar justamente no recanto particular do zebu! Este não gostou da presença estranha em seus domínios privados, e foi tomar satisfação com o intruso. Aproximou-se discretamente do galo e com o focinho o empurrou alguns metros adiante. O galo, ofendido em sua condição de insuperável, resolveu tomar briga com o boi.

Aprumou-se no chão, encheu o peito, digo, o papo. Abriu e fechou rapidamente as asas. Calculou pegar o inimigo pelo fochinho que pouco antes o havia despachado. Empinou o pescoço e partiu veloz para o ataque. E não se deu bem nessa investida. O boi, reagindo, usou os chifres para levantar o galo, projetando-o a grande distância. Onde caiu em condições humilhantes para um chefe de terreiro. Mas o galo não se deu por vencido. Preparou uma segunda investida contra o zebu, e também desta vez não se saiu como queria. Tomou um baita revés. Foi projetado pelos chifres do boi a uma distância ainda maior, passando como que voando por cima do sombreiro onde o boi costumava descansar. No vôo tentava se equilibrar com o movimento das asas.

Galo que se presa não foge à luta. Refez-se do revés sofrido nas duas primeiras investidas. Sacudiu a poeira batendo as asas. Voltou de mansinho para perto do inimigo. Andou devagarzinho volteando o boi que se movia lentamente em posição de defesa. Assim como quem quer e não quer, preparava a melhor forma de abordar o adversário.

A essa altura o boi já estava furioso com a insistência daquela “pulga” a incomodá-lo. Resolveu então tomar a iniciativa antes que o galo tentasse alguma coisa, pensando em esmagá-lo sob suas pesadas patas. Mas, pesadão, pouco ágil, não impediu que o galo se antecipasse ao ataque. Pulando sobre a cabeça do gigante, escapou ao alcance dos seus chifres. Antes de pousar sobre a cabeça do zebu, os deslocamentos de ar produzidos pelos bruscos movimentos para um lado e para outro da cabeça do animal fez o galo como que pairar por alguns instantes no ar, entre os chifres do zebu. Ao descer, movido pela força gravitacional, o galo caiu entre os chifres do boi e deslizou um pouco para frente, mais à direita. Antes de qualquer outra reação do contendor, fincou-lhe o esporão no olho direito. O gigante sentiu como se um espeto lhe tivesse varado o globo ocular. Urrou de tanta dor. Ensangüentado, com a seiva vermelha e viscosa descendo-lhe pelo flanco direito da cabeça, e mesmo perdendo um pouco de força, mas com muita raiva, ainda rodopiava enlouquecido.

O galo já fora retirado daquele cenário de batalha nada convencional. Fora levado pelo tratador, que aproveitou o momento de confusão mental do boi e conduziu a ave para o seu galinheiro particular. Quase depenado, o galo ainda tentava brigar com o ágil e diligente empregado antes de ser reposto em sua “cela”. Contido com biqueira e imobilizados seus esporões, e na ausência de bicho com quem brigasse, peitava as paredes de madeira do exíguo espaço onde fora aprisionado.

Depois de uma semana de tratamento pelo competente veterinário da fazenda, foi constatada a cegueira irreversível do zebu. Enxergando agora só por um olho, o boi antes bravo e invencível, perdeu todo o encanto pela vida, tornando-se algo apático, algo incrivelmente dócil. Descartado como reprodutor, foi levado para o engenho onde passou a cumprir nova e triste sina no cambão.

                                                                                   Escrito em 1962, digitado em 23.06.2006.

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