NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013


    A ESCRAVIDÃO ACABOU, JÁ  OS SEUS EFEITOS...
Fins de 1939, algumas décadas depois da assinatura da Lei Áurea, sítios distantes da rota principal entre a usina serro azul e a usina 13 de maio  acolhiam pessoas desconfiadas, arredias, que temiam qualquer outra não pertencente ao seu grupo étnico. (...) Quilombolas residuais ocupavam casas de taipa perto das montanhas cobertas pela mata que restava por ali. Muitas dessas pessoas talvez nem soubessem do fim da escravidão. Cultivam roças de subsistência e se vestiam de trapos. Os homens  se arriscavam ir à feira, no pátio da usina serro azul. Compravam produtos essenciais à sobrevivência que não podiam fabricar.  Não andavam pelos caminhos do engenho onde eu morava; buscavam trilhas alternativas que saiam de dentro dos canaviais. Já as moças - pobres moças esfarrapadas, despenteadas e assustadas, eram preservadas da curiosidade dos estranhos. Escondiam-se  atrás das pedras dispersas ao longo da paisagem. Falavam uma língua que podia ser tudo, menos português. Um dialeto estranho, que parecia a nós meninos de engenho algo como pertencente a um mundo diferente. (...)  Essa gente, que havia fugido das senzalas e do tratamento desumano praticado pelos senhores de engenho durante o recém-extinto regime de escravidão, foi removida de suas habitações pelos nova elite canavieira composta de donos e arrendatários de engenhos, assim como pelos coronéis-usineiros. Não sei que destino tomou. Sei que as pessoas desses grupos de ex-escravos, na sua maioria jovens misturadas com velhos que não podiam mais cultivar a terra foram expulsas do local onde nasceram. No lugar onde moravam existia agora um extenso tapete verde constituído pelo canavial a perder de vista. (...) A escravidão terminou, mas seus efeitos perduraram, e ainda perduram, na rejeição aos negros, no preconceito velado aos filhos da miscigenação e – como negar?, nos instrumentos “ocultos” de tortura ainda visíveis  nos centros de trabalho dominados pelos usineiros e seus descendestes que mantêm esse apartaid ignominioso...
(Trechos do meu livros  Sonhos e Ruinas, Pingos de Memória de um Ente Fragmentado – 1959, que jaz desfolhado numa prateleira onde nem eu mesmo visito).

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