A ESCRAVIDÃO ACABOU, JÁ OS SEUS EFEITOS...
Fins de 1939, algumas décadas depois da assinatura da Lei
Áurea, sítios distantes da rota principal entre a usina serro azul e a usina 13
de maio acolhiam pessoas desconfiadas,
arredias, que temiam qualquer outra não pertencente ao seu grupo étnico. (...)
Quilombolas residuais ocupavam casas de taipa perto das montanhas cobertas pela
mata que restava por ali. Muitas dessas pessoas talvez nem soubessem do fim da
escravidão. Cultivam roças de subsistência e se vestiam de trapos. Os
homens se arriscavam ir à feira, no
pátio da usina serro azul. Compravam produtos essenciais à sobrevivência que
não podiam fabricar. Não andavam pelos
caminhos do engenho onde eu morava; buscavam trilhas alternativas que saiam de
dentro dos canaviais. Já as moças - pobres moças esfarrapadas, despenteadas e
assustadas, eram preservadas da curiosidade dos estranhos. Escondiam-se atrás das pedras dispersas ao longo da
paisagem. Falavam uma língua que podia ser tudo, menos português. Um dialeto
estranho, que parecia a nós meninos de engenho algo como pertencente a um mundo
diferente. (...) Essa gente, que havia
fugido das senzalas e do tratamento desumano praticado pelos senhores de
engenho durante o recém-extinto regime de escravidão, foi removida de suas
habitações pelos nova elite canavieira composta de donos e arrendatários de
engenhos, assim como pelos coronéis-usineiros. Não sei que destino tomou. Sei
que as pessoas desses grupos de ex-escravos, na sua maioria jovens misturadas
com velhos que não podiam mais cultivar a terra foram expulsas do local onde
nasceram. No lugar onde moravam existia agora um extenso tapete verde constituído
pelo canavial a perder de vista. (...) A escravidão terminou, mas seus efeitos
perduraram, e ainda perduram, na rejeição aos negros, no preconceito velado aos
filhos da miscigenação e – como negar?, nos instrumentos “ocultos” de tortura
ainda visíveis nos centros de trabalho
dominados pelos usineiros e seus descendestes que mantêm esse apartaid
ignominioso...
(Trechos do meu livros Sonhos
e Ruinas, Pingos de Memória de um Ente Fragmentado – 1959, que jaz
desfolhado numa prateleira onde nem eu mesmo visito).
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