NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


 REFLEXÕES SOBRE A SOCIEDADE DOS ANOS 30/50
Sou de um tempo de costumes diferentes. De uma sociedade rígida e metódica. Os casamentos eram duradouros, as proles numerosas. As crianças iam à escola depois dos seis anos de idade. Era tempo da tabuada e da carta  do ABC e da cartilha preparatória, tudo ministrado  em família.  Época da palmatória ou da régua disfarçada debaixo da mesa da  professora. Havia sempre em casa uma tia que acompanhava o aprendizado da criança. Quando ia à escola, a criança cursava o primário, um período estruturado em matérias básicas, como português, matemática, geografia, noções de ciências física e biológica, lições de história e higiene. O curso secundário compreendia dois ciclos: o ginásio, ao qual se chegava através de provas de admissão focadas em matemática e português, com redação obrigatória e resolução de pequenos problemas de cálculo, e o colegial, dividido em científico, para quem queria cursar ciências técnicas, e clássico, para os que preferiam a área de humanas.  O ginásio era um aprendizado de valores intelectuais e técnicos, onde se estudava línguas como  latim, francês e inglês. Geografia e história eram importantes ferramentas do aprendizado. E matemática, pedra no sapato da maioria dos estudantes, era puxada; álgebra, trigonometria, geometria, etc. E desenho geométrico, alicerçando o conhecimento técnico. O formando de ginásio lia e interpretava textos escolhidos em sorteio e os interpretava em sala de aula; reunia conhecimentos que o habilitava a ocupar qualquer função como auxiliar do mercado de trabalho da época. O curso colegial, repita-se, tinha os conteúdos clássico ou científico. No científico, o aluno precisava demonstrar conhecimentos matemáticos, químicos, físicos e biológicos, entre outros. Já no clássico, estudava-se literatura, história, filosofia, sociologia e línguas estrangeiras, como  espanhol, italiano e uma terceira, que poderia ser o grego ou o alemão. E outras matérias. Ao concluir o colégio, o jovem estava preparado para os embates da vida. Algo diferente de hoje, quando muitos dos que concluem o ensino médio sequer sabem ler.
Mundo maravilhoso aquele! As décadas de 30/50 viveram um primor de entendimento e contaram com uma sociedade estável, quase perfeita, que deixou saudades.  Devagar com o andor! Os dados positivos elencados acima formavam a face de uma medalha cujo reverso revelava uma situação de calamidade humana, social e psicológica. Na área de educação, a palmatória, mesmo legalmente extinta, era ferrenhamente usada e quem recebia os “bolos” eram os alunos mais pobres. Depois da palmatória, a régua, sempre pesada e igualmente já proibida por lei, ficava escondida sob a mesa da professora. Dos poucos alunos que no campo ou na periferia das cidades tinham acesso à escola – perto de 10% da população jovem, só um em cada quatro chegava ao término do primário. As condições sociais precárias, onde predominava a subnutrição, quando não a desnutrição escancarada, não permitiam aos filhos dos pobres acompanharem o ritmo dos trabalhos na sala de aula; a palmatória assustava, e muitos alunos desistiam de estudar. A escola  era excludente; a sociedade, preconceituosa. A alta qualidade do ensino e o excelente nível dos professores da escola secundária denunciavam um fato então invisível para a maioria da população. A escola, longe de ser um instrumento de redução do grande fosso que separava os pobres dos ricos, na verdade era elitista. Criada e destinada à burguesia. Hoje, a democratização do ensino através de programas como ENEN, Prouni e mais recentemente o Sisu permite aos menos favorecidos economicamente estudarem em boas escolas, mas de nível bem abaixo daquelas acima citadas. A qualidade foi sacrificada em benefício da quantidade. Em frente da mesa da sala de aula, local antes dominado pelos membros das elites, ficam hoje os filhos dos trabalhadores; a formação dos professores perdeu qualidade, e eles não têm mais a retaguarda das famílias ricas, pois vivem dos parcos salários pagos pelo governo ou pela iniciativa privada. A tão propalada estabilidade da sociedade dessas décadas era imposta por um sistema machista, concentrador e violento. A doce vida dos anos  de ouro era um teatro montado pela burguesia para assegurar a perpetuação dos seus privilégios.

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