REFLEXÕES SOBRE A SOCIEDADE DOS ANOS
30/50
Sou de um tempo de costumes diferentes.
De uma sociedade rígida e metódica. Os casamentos eram duradouros, as proles
numerosas. As crianças iam à escola depois dos seis anos de idade. Era tempo da
tabuada e da carta do ABC e da cartilha
preparatória, tudo ministrado em
família. Época da palmatória ou da régua
disfarçada debaixo da mesa da
professora. Havia sempre em casa uma tia que acompanhava o aprendizado
da criança. Quando ia à escola, a criança cursava o primário, um período
estruturado em matérias básicas, como português, matemática, geografia, noções
de ciências física e biológica, lições de história e higiene. O curso
secundário compreendia dois ciclos: o ginásio, ao qual se chegava através de
provas de admissão focadas em matemática e português, com redação obrigatória e
resolução de pequenos problemas de cálculo, e o colegial, dividido em
científico, para quem queria cursar ciências técnicas, e clássico, para os que
preferiam a área de humanas. O ginásio
era um aprendizado de valores intelectuais e técnicos, onde se estudava línguas
como latim, francês e inglês. Geografia
e história eram importantes ferramentas do aprendizado. E matemática, pedra no
sapato da maioria dos estudantes, era puxada; álgebra, trigonometria,
geometria, etc. E desenho geométrico, alicerçando o conhecimento técnico. O
formando de ginásio lia e interpretava textos escolhidos em sorteio e os
interpretava em sala de aula; reunia conhecimentos que o habilitava a ocupar
qualquer função como auxiliar do mercado de trabalho da época. O curso colegial,
repita-se, tinha os conteúdos clássico ou científico. No científico, o aluno
precisava demonstrar conhecimentos matemáticos, químicos, físicos e biológicos,
entre outros. Já no clássico, estudava-se literatura, história, filosofia,
sociologia e línguas estrangeiras, como espanhol, italiano e uma terceira, que poderia
ser o grego ou o alemão. E outras matérias. Ao concluir o colégio, o jovem
estava preparado para os embates da vida. Algo diferente de hoje, quando muitos
dos que concluem o ensino médio sequer sabem ler.
Mundo maravilhoso aquele! As
décadas de 30/50 viveram um primor de entendimento e contaram com uma sociedade
estável, quase perfeita, que deixou saudades. Devagar com o andor! Os dados positivos
elencados acima formavam a face de uma medalha cujo reverso revelava uma
situação de calamidade humana, social e psicológica. Na área de educação, a
palmatória, mesmo legalmente extinta, era ferrenhamente usada e quem recebia os
“bolos” eram os alunos mais pobres. Depois da palmatória, a régua, sempre
pesada e igualmente já proibida por lei, ficava escondida sob a mesa da
professora. Dos poucos alunos que no campo ou na periferia das cidades tinham
acesso à escola – perto de 10% da população jovem, só um em cada quatro chegava
ao término do primário. As condições sociais precárias, onde predominava a
subnutrição, quando não a desnutrição escancarada, não permitiam aos filhos dos
pobres acompanharem o ritmo dos trabalhos na sala de aula; a palmatória
assustava, e muitos alunos desistiam de estudar. A escola era excludente; a sociedade, preconceituosa.
A alta qualidade do ensino e o excelente nível dos professores da escola
secundária denunciavam um fato então invisível para a maioria da população. A
escola, longe de ser um instrumento de redução do grande fosso que separava os
pobres dos ricos, na verdade era elitista. Criada e destinada à burguesia.
Hoje, a democratização do ensino através de programas como ENEN, Prouni e mais
recentemente o Sisu permite aos menos favorecidos economicamente estudarem em
boas escolas, mas de nível bem abaixo daquelas acima citadas. A qualidade foi
sacrificada em benefício da quantidade. Em frente da mesa da sala de aula,
local antes dominado pelos membros das elites, ficam hoje os filhos dos
trabalhadores; a formação dos professores perdeu qualidade, e eles não têm mais
a retaguarda das famílias ricas, pois vivem dos parcos salários pagos pelo
governo ou pela iniciativa privada. A tão propalada estabilidade da sociedade dessas décadas era imposta por um sistema
machista, concentrador e violento. A doce
vida dos anos de ouro era um teatro
montado pela burguesia para assegurar a perpetuação dos seus privilégios.
Nenhum comentário:
Postar um comentário