EU VI, EU ESTAVA LÁ
Questionam-me sobre minhas
afirmações postadas no face e no blog
ainda em “manchete”. Alguém insinuou que ando lendo “muita literatura de
cordel”. Bom seria se assim fosse. Talvez por isso a rejeição ao meu livro, de
onde as afirmações foram retira copiladas. O livro foi escrito a conta-gotas,
em anos diversos e finalizado em 1959. É o relato de quem, ainda criança, testemunhou
o tratamento desumano dispensado aos negros e seus descendentes; quilombolas,
sim, expulsos de suas casas e áreas de culturas agrícolas pelos novos donos da
terra, que não a compraram de ninguém, simplesmente apossaram-se de toda terra
possível, desmataram a cobertura vegetal que protegia córregos e pés-de-serra,
produziram deslocamento do solo, seu empobrecimento biológico e o assoreamento
dos rios. As extensas áreas que passaram a constituir o canavial da riqueza dos
coronéis do açúcar em começos do século
vinte estão hoje quase abandonadas ou subutilizadas. Engenhos, que engoliram os
sítios, são hoje povoados fantasmas; não produzem mais nada nem têm casa grande
ou vila que no passado não muito distante serviram de senzala. O quadro é tão
desolador, que nem os sem-terra têm interesses naquelas áreas. Fruto de uma
política agrária sem planejamento adequado, por isso mesmo destinada ao
fracasso, as parcelas não produziram
o mínimo para o sustento dos parceleiros e de suas famílias, motivo pelo qual foram abandonadas. Legado do
regime militar, essa forma de interiorizar
a produção e fixar o homem à terra torrou dinheiro que se bem aplicado mudaria o
perfil da área canavieira em acelerada queda, principalmente no vale do rio Uma,
onde se situam os processos descritos no livro e por nós pessoalmente testemunhados.
As terras pretensamente adquiridas por esses filhos do descaso pertencem agora ao
agente financiador das malogradas transações - o Banco do Brasil, e em muitos
casos, sem nenhuma serventia.
O destino dos parceleiros, de
pouca instrução, senão analfabetos, foi idêntico ao dos quilombolas que
habitavam os sítios na encosta dos morros ou nas alças livres da mata. Uns como
outros, todos remanescentes sem rumo da escravidão bárbara que apreendeu os
negros africanos em sua terra natal e os trouxe para trabalhar à força nos
canaviais, sem salários e sob chicotes: a
beira da maré, no meio do mangue disputado com os caranguejos ou as encostas dos morros da região metropolitana.
Maré e mangue, onde encontravam siris, mariscos e peixes que passaram a ser sua
dieta e sua única fonte de renda; encostas de morros - ainda não disputadas por proprietários de terra e
onde podiam erguer os casebres onde passavam a morar com suas famílias.
Que bom seria se tudo isso fosse
mera literatura de cordel! Mas é a
realidade cruel ainda presente naquelas glebas. Quem me contou essas histórias?
São fatos, eu os vi, eu estava lá. Minha família pertencia à elite de então, como agente operacional das atividades-meio de plantio, cultivo, corte e transporte da
cana-de-açúcar para as usinas locais. Se eu e meus irmãos não tivéssemos estudado
e palmilhado uma ou mais profissões teríamos
com certeza o mesmo destino cruel dos
filhos residuais da escravidão.
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