NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013


                                EU VI, EU ESTAVA LÁ
Questionam-me sobre minhas afirmações  postadas no face e no blog ainda em “manchete”. Alguém insinuou que ando lendo “muita literatura de cordel”. Bom seria se assim fosse. Talvez por isso a rejeição ao meu livro, de onde as afirmações foram retira copiladas. O livro foi escrito a conta-gotas, em anos diversos e finalizado em 1959. É o relato de quem, ainda criança, testemunhou o tratamento desumano dispensado aos negros e seus descendentes; quilombolas, sim, expulsos de suas casas e áreas de culturas agrícolas pelos novos donos da terra, que não a compraram de ninguém, simplesmente apossaram-se de toda terra possível, desmataram a cobertura vegetal que protegia córregos e pés-de-serra, produziram deslocamento do solo, seu empobrecimento biológico e o assoreamento dos rios. As extensas áreas que passaram a constituir o canavial da riqueza dos coronéis do açúcar  em começos do século vinte estão hoje quase abandonadas ou subutilizadas. Engenhos, que engoliram os sítios, são hoje povoados fantasmas; não produzem mais nada nem têm casa grande ou vila que no passado não muito distante serviram de senzala. O quadro é tão desolador, que nem os sem-terra têm interesses naquelas áreas. Fruto de uma política agrária sem planejamento adequado, por isso mesmo destinada ao fracasso, as parcelas não produziram o mínimo para o sustento dos parceleiros e de suas famílias,  motivo pelo qual foram abandonadas. Legado do regime militar,  essa forma de interiorizar a produção e fixar o homem à terra  torrou dinheiro que se bem aplicado mudaria o perfil da área canavieira em acelerada queda, principalmente no vale do rio Uma, onde se situam os processos descritos no livro e por nós pessoalmente testemunhados. As terras pretensamente adquiridas por esses filhos do descaso pertencem agora ao agente financiador das malogradas  transações - o Banco do Brasil, e em muitos casos, sem nenhuma serventia.                                  
O destino dos parceleiros, de pouca instrução, senão analfabetos, foi idêntico ao dos quilombolas que habitavam os sítios na encosta dos morros ou nas alças livres da mata. Uns como outros, todos remanescentes sem rumo da escravidão bárbara que apreendeu os negros africanos em sua terra natal e os trouxe para trabalhar à força nos canaviais, sem salários e sob  chicotes: a beira da maré, no meio do mangue disputado com os caranguejos  ou as encostas dos morros da região metropolitana. Maré e mangue, onde encontravam siris, mariscos e peixes que passaram a ser sua dieta e sua única fonte de renda; encostas de morros - ainda  não disputadas por proprietários de terra e onde podiam erguer os casebres onde passavam a morar com suas famílias.
Que bom seria se tudo isso fosse mera  literatura de cordel! Mas é a realidade cruel ainda presente naquelas glebas. Quem me contou essas histórias? São fatos, eu os vi, eu estava lá. Minha família pertencia à elite  de então, como agente operacional  das atividades-meio  de plantio, cultivo, corte e transporte da cana-de-açúcar para as usinas locais. Se eu e meus irmãos não tivéssemos estudado e palmilhado uma ou mais profissões  teríamos com certeza o mesmo destino cruel  dos filhos residuais da escravidão.

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