NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

terça-feira, 12 de março de 2013


                               RECIFE, RECIFE...
Recife, cidade lendária! Recife, que vives de lendas contadas por escritores saudosistas e poetas enamorados de tuas belezas naturais. Recife das pontes, dos rios,  do mar, do céu azul, das praias  outrora  perlongadas por extensas áreas de areia branca ensombradas de coqueiros. Recife da minha infância na Rua de Jangada quando o Chupa era apenas um grande areal que ocupou por dragagem a faixa de mangue que ia da linha d’água até à linha férrea. Escuta, ó Recife! Perdeste muito da tua beleza e de tua autenticidade natural. Subiste aos morros e destruíste o mangue que reproduzia a vida marinha de uma extensa região. Empurraste para a periferia milhares de famílias que precisavam morar perto da maré, pois era dela que retiravam seu sustento. Construíste uma escola em cada bairro, mas ainda não atingiste a quantidade ideal de estabelecimentos de ensino onde os filhos dos pobres possam ter uma educação formal minimamente razoável. Esqueces que os filhos dos pobres só vão à escola se ofereceres a eles alguma coisa que os motive. Mas sabes – ou finge que não sabes, que essas crianças, se investires nelas, serão a força de trabalho do teu futuro ou, inversamente a não atenção prestada, poderão ser a mão armada que tingirá de sangue tua antiga reputação de cidade ordeira. Recife, ingrata! Abandonas teus idosos, que sofrem nas filas dos bancos para receberem a mísera aposentadoria ou morrem nas filhas dos hospitais, onde não conseguem atendimento médico, não têm remédios nem fazem os exames necessários. Velhos e velhas que construíram tua grandeza de hoje, e, agora, são humilhados por operadores de transporte coletivos e obrigados a viajar  em ônibus de péssima qualidade, sujos e barulhentos.
Recife da PRA-8, única emissora da minha infância, cujas ondas sonoras eram reproduzidas pelos baixo-falantes espalhados pelos morros de Casa Amarela, Água Fria, Beberibe e de outros subúrbios da zona norte, para cujo funcionamento exigia-se antenas quilométricas de fios descascados afeiando a paisagem de si já sofrível de mocambos construídos em escavações de barreiras; e mulheres e crianças subindo as ladeiras levando à cabeça potes com a bendita água colhida às cacimbas das partes baixas. Recife dos carnavais de outrora, com o corso dos ricos e as troças e clubes dos pobres. Carnavais de O Cachorro do Homem do Miúdo, Pão Duro, Pão da Tarde, Prato Misterioso, Rebeldes Imperial, Batutas de São José, Inocentes do Rosarinho, Banhistas do Pina; dos maracatus, caboclinhos, bumba meu Boi; dos clubes de alegorias  de vida curta como os Quatro Diabos, Anjos rebeldes e tantas outras agremiações que fizeram o teu reinado de momo.  Recife, do futebol recreativo das tardes dos domingos, quando ir aos estádios era um exercício prazeroso, bem diferente destes dias quando bandidos uniformizados que se auto intitulam torcidas organizadas matam ou mutilam pessoas e perturbam a ordem pública.
Recife das cheias que inundavam teus bairros, inclusive os nobres; das comunidades miseráveis, como o Caranguejo e Ilha de Deus, onde tudo é possível, menos se viver com dignidade. Recife dos bondes cortando as principais ruas do centro da cidade; das primeiras empresas de ônibus, como a Pernambuco Autoviária Ltda, de Vivi Menezes,  e a Progresso, de João Tude de Melo. Recife do Coque, Bode e Jangadeiro, onde as pessoas construíam suas casas dentro da lama disputando espaço com os caranguejos, e deviam saber a hora em que a maré subia, sob pena de não poderem voltar para suas casas, cujos móveis eram troncos de coqueiros trabalhados a machados. Recife de Preá, Nascimento Grande, Cícero da Gameleira e de tantos outros brabos que visitavam as páginas policiais dos jornais da época e que enfrentavam seus adversários de peito aberto e à luz do dia. Recife, das antigas ruas estreitas e sinuosas projetadas para o transporte de tração animal ou para o cavalo; quando ainda não havia aeroporto nem as avenidas de hoje; as viagens aéreas eram feitas em aviões anfíbios, que desciam nas águas da Bacia do Pina, e taxiavam até ao Cais de Santa Rita, onde ficava a estação de embarque e desembarque de cargas e passageiros. Recife do Cais do Porto parecendo um formigueiro humano, com trabalhadores subindo e descendo dos navios de carga levando à cabeça sacas de açúcar, produto que te fazia a terceira cidade do Brasil em população e nível econômico. Recife, da década de 40 sofrendo as privações impostas pela segunda grande guerra quando a cidade concentrava suas atividades durante o dia e vivia às escuras à noite, temendo um bombardeio por parte da aviação nazista. Recife, dos sabiás e bem-te-vis saltitando entre os oitizeiros do centro, com o cântico romântico que todos admirávamos; antes da proliferação desses malditos pardais que sujam as ruas e perturbam o sossego de quem precisa transitar pela cidade mais cedo ou ao despedir da tarde. Recife, cidade ingrata e impudica, teu passado clama por ordem, limpeza e justiça!

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