RECIFE, RECIFE...
Recife, cidade lendária! Recife,
que vives de lendas contadas por escritores saudosistas e poetas enamorados de
tuas belezas naturais. Recife das pontes, dos rios, do mar, do céu azul, das praias outrora perlongadas por extensas áreas de areia branca
ensombradas de coqueiros. Recife da minha infância na Rua de Jangada quando o
Chupa era apenas um grande areal que ocupou por dragagem a faixa de mangue que
ia da linha d’água até à linha férrea. Escuta, ó Recife! Perdeste muito da tua
beleza e de tua autenticidade natural. Subiste aos morros e destruíste o mangue
que reproduzia a vida marinha de uma extensa região. Empurraste para a
periferia milhares de famílias que precisavam morar perto da maré, pois era dela
que retiravam seu sustento. Construíste uma escola em cada bairro, mas ainda
não atingiste a quantidade ideal de estabelecimentos de ensino onde os filhos
dos pobres possam ter uma educação formal minimamente razoável. Esqueces que os
filhos dos pobres só vão à escola se ofereceres a eles alguma coisa que os
motive. Mas sabes – ou finge que não sabes, que essas crianças, se investires
nelas, serão a força de trabalho do teu futuro ou, inversamente a não atenção
prestada, poderão ser a mão armada que tingirá de sangue tua antiga reputação
de cidade ordeira. Recife, ingrata! Abandonas teus idosos, que sofrem nas filas
dos bancos para receberem a mísera aposentadoria ou morrem nas filhas dos
hospitais, onde não conseguem atendimento médico, não têm remédios nem fazem os
exames necessários. Velhos e velhas que construíram tua grandeza de hoje, e,
agora, são humilhados por operadores de transporte coletivos e obrigados a
viajar em ônibus de péssima qualidade,
sujos e barulhentos.
Recife da PRA-8, única emissora
da minha infância, cujas ondas sonoras eram reproduzidas pelos baixo-falantes
espalhados pelos morros de Casa Amarela, Água Fria, Beberibe e de outros
subúrbios da zona norte, para cujo funcionamento exigia-se antenas quilométricas
de fios descascados afeiando a paisagem de si já sofrível de mocambos
construídos em escavações de barreiras; e mulheres e crianças subindo as
ladeiras levando à cabeça potes com a bendita água colhida às cacimbas das
partes baixas. Recife dos carnavais de outrora, com o corso dos ricos e as
troças e clubes dos pobres. Carnavais de O Cachorro do Homem do Miúdo, Pão
Duro, Pão da Tarde, Prato Misterioso, Rebeldes Imperial, Batutas de São José,
Inocentes do Rosarinho, Banhistas do Pina; dos maracatus, caboclinhos, bumba
meu Boi; dos clubes de alegorias de vida
curta como os Quatro Diabos, Anjos rebeldes e tantas outras agremiações que
fizeram o teu reinado de momo. Recife,
do futebol recreativo das tardes dos domingos, quando ir aos estádios era um
exercício prazeroso, bem diferente destes dias quando bandidos uniformizados
que se auto intitulam torcidas organizadas matam ou mutilam pessoas e perturbam
a ordem pública.
Recife das cheias que inundavam
teus bairros, inclusive os nobres; das comunidades miseráveis, como o Caranguejo
e Ilha de Deus, onde tudo é possível, menos se viver com dignidade. Recife dos
bondes cortando as principais ruas do centro da cidade; das primeiras empresas
de ônibus, como a Pernambuco Autoviária Ltda, de Vivi Menezes, e a Progresso, de João Tude de Melo. Recife
do Coque, Bode e Jangadeiro, onde as pessoas construíam suas casas dentro da
lama disputando espaço com os caranguejos, e deviam saber a hora em que a maré
subia, sob pena de não poderem voltar para suas casas, cujos móveis eram troncos
de coqueiros trabalhados a machados. Recife de Preá, Nascimento Grande, Cícero
da Gameleira e de tantos outros brabos que visitavam as páginas policiais dos
jornais da época e que enfrentavam seus adversários de peito aberto e à luz do
dia. Recife, das antigas ruas estreitas e sinuosas projetadas para o transporte
de tração animal ou para o cavalo; quando ainda não havia aeroporto nem as avenidas
de hoje; as viagens aéreas eram feitas em aviões anfíbios, que desciam nas
águas da Bacia do Pina, e taxiavam até ao Cais de Santa Rita, onde ficava a
estação de embarque e desembarque de cargas e passageiros. Recife do Cais do
Porto parecendo um formigueiro humano, com trabalhadores subindo e descendo dos
navios de carga levando à cabeça sacas de açúcar, produto que te fazia a
terceira cidade do Brasil em população e nível econômico. Recife, da década de
40 sofrendo as privações impostas pela segunda grande guerra quando a cidade
concentrava suas atividades durante o dia e vivia às escuras à noite, temendo
um bombardeio por parte da aviação nazista. Recife, dos sabiás e bem-te-vis
saltitando entre os oitizeiros do centro, com o cântico romântico que todos
admirávamos; antes da proliferação desses malditos pardais que sujam as ruas e
perturbam o sossego de quem precisa transitar pela cidade mais cedo ou ao
despedir da tarde. Recife, cidade ingrata e impudica, teu passado clama por ordem,
limpeza e justiça!
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