CABANGA FEMENINA SIM SENHOR
Desde meus tempos de menino na Rua de Jangada ouvi pronunciar
o toponímico Cabanga atribuindo-lhe o gênero feminino. Estudei no Senai,
ali nos fundos na Usina do Saneamento da Cabanga, a placa da usina assim
visualizada ainda está afixada ali; a unidade de ensino profissionalizante se
chamava Escola de Aprendizagem da
Cabanga. De uns tempos para cá,
quando aquele distrito do bairro de São José perdeu importância social,
política e econômica, é comum ouvir-se na mídia ou em conversas referências ao bairro “do Cabanga”. Essa mudança de gênero ocorreu
depois da erradicação da Rua de Jangada, fato determinante em consequência da instalação ali do Cabanga Iate Clube. Um clube
de gente rica que não tolerava conviver com a presença de pessoas pobres, analfabetas
e de hábitos nada agradáveis para as elites sociais que começavam a
manusear barcos à vela. A Rua de Jangada era uma aldeia de pescadores, encravada
entre a Rua das Calçadas Altas e o
núcleo residencial perto da maré apresentando vestígios arquitetônicos do que
sobrou daquilo que provavelmente foi uma
companhia de pesca levada a cabo por um ricaço explorando mão-de-obra escrava.
Na sua origem etimológica, Cabanga é uma bebida fermentada de
alta concentração alcóolica, de origem
africana (Moçambique) e introduzida em Pernambuco pelos negros trazidos como escravos.
E bebida é termo feminino. No areal formado pelo extenso manguezal que ia de
norte a sul do Cais de Santa Rita às
imediações do Saneamento e avançava de leste para oeste até aos fundos da Rua Imperial o cais ainda
hoje existente era usado pelas barcaças para
desembarque de lenha, açúcar, sal e outros produtos para abastecer padarias e
outros estabelecimentos industriais e comerciais, e se dizia que ali ficava o Porto da Cabanga. Escritores e jornalistas
deveriam ter mais compromisso com a preservação da gramática portuguesa e não se
deixarem levar por essas modernices ditadas pelo poder econômico que agridem a língua
pátria. Professores e historiadores precisam cumprir com seus papéis de
transferidores de conhecimentos e restauradores da verdade histórica.
Invertamos essa tendência de negar o gênero de um termo, mormente um
toponímico. Cabanga feminina sim senhor.
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