RELIGIÃO E SEXUALIDADE
A
novela Amor à vida em cartaz na Globo discute um tema crucial para a
formatação da nova geração deste início de Século XXI. A sexualidade é um
assunto que não pode ser jogado para debaixo do tapete. Não serão nossas
opiniões pessoais, pró ou contra as transformações sociais destes tempos de
apreensões e incertezas quanto ao futuro da civilização ocidental que irão
impedir, acelerar ou reduzir os impactos que essas mudanças comportamentais
produzirão nas famílias e, portanto, na sociedade moderna. O tema, por sua
grandeza psicológica, emocional, ética e moral, sai do ambiente das discussões
acadêmicas, extrapola as fronteiras que separam as religiões, passa pela escola
e se oferece de forma impositiva como elemento fundamental da conversa familiar,
envolvendo não apenas o núcleo dessa célula social como os ramos da árvore formadora do clã.
Os valores morais, emocionais e
comportamentais de hoje já não são mais grandezas coletivas, da sociedade, mas do
indivíduo. Nessa nova sociedade, os pais já não ditam ordens aos filhos. Os
mais velhos, com sua experiência acumulada de décadas, já não representam
referência para os jovens. Essa é uma sociedade aberta onde cada indivíduo
escolhe seus caminhos, faz suas opções de vida. Essa mudança quase repentina de
uma sociedade até bem pouco tempo dirigida pelo chefe de família que a
direcionava com mão de ferro. Os novos rumos da sociedade, ditados pela nova
concepção de liberdade, não levam mais
em conta regras, normas, princípios; ética é um noção superada. O individuo não
tem compromisso com diretrizes políticas, sociais, filosóficas ou ideológicas.
Sua vontade supera qualquer princípio contrário. É o individual comandando o
coletivo, numa inversão de valores impensada há algumas décadas.
O mundo moderno tem um perfil
social difícil de ter sido percebido pelas gerações de fins do Século XIX e
meados do Século XX. A diferença está nas concepções de vida e nas opções comportamentais.
A família tradicional rivaliza com um modelo de família que pode ter casais
homossexuais com filhos adotados. E bem em pouco, com filhos de proveta.
Homossexuais, bissexuais, transexuais, metrossexuais são termos que definem o
modelo de família de hoje. É difícil estabelecer uma linha demarcatória entre
cada uma dessas categorias; mas difícil identificar onde os membros de cada
categoria se inserem quando se analise o espectro religioso do ambiente onde
vivem. Há a religião organizada expondo suas rejeições a práticas não
convencionais de famílias não heterossexuais. Mas no seio da religião são
encontrados optantes por esse novo estilo de vida. Há líderes religiosos que lutam contra si mesmos para espantar as
inclinações homo afetivas. E há seminaristas que não escondem essas
inclinações. São pessoas atordoadas por junções genéticas ou por fatores
ambientais.
Em meio a esse caos, a religião
se torna impotente e aos poucos vão perdendo terreno para essa avalanche de
transformações. Calcada nos princípios cristãos que a seu modo interpretados
balizaram sua estruturação e sua atuação como elemento coercitivo que comandava
a vida das pessoas e os costumes sociais, a religião se perdeu de si mesma numa
luta interna entre suas vertentes por
espaços cada vez maiores. Está perdendo a grande oportunidade representada pela
mensagem cristã de paz, amor, igualdade e solidariedade. O judeu que revisou o judaísmo
e apontou rumos para toda a Humanidade tem sua mensagem desvirtuada pela
religião organizada. Ele foi transformado num carrasco, identificado como uma
divindade que carrega todas as mazelas humanas. Nessa concepção de divindade a
lógica é a dominação pelo medo do fogo do inferno. As novas gerações, com
acesso a educação e estribada nas lições por muito tempo censuradas da história
não acreditam em penalidades divinas. A sede de poder das elites dominantes da
civilização ocidental, movida pela ideia do lucro a qualquer preço, destruiu
toda uma filosofia idealista de igualdade,
solidariedade e fraternidade que datava das pregações do Cristo. E transformou
a civilização ocidental numa sociedade de consumo onde o lucro é mais importante
do que qualquer valor ético. E explorou exatamente a parte mais vulnerável do
ser humana: a emoção. Os meios de comunicação de massa foram colocados a
serviço dessa excrescência social. E desvirtuaram a religião, que infantilmente
aderiu ao jogo da procura e da oferta.
A família, dilacerada por tantas
aberrações, também se afastou da religião impositiva. E como esteio ou alicerce
da sociedade, está perdendo a luta pela renovação moral do clã. Todavia, é
nesse esteio – a família, que reside a última esperança de uma aurora redentora
na qual a ideologia da paz, da confiança e do respeito possa recrudescer com
nova mentalidade capaz de tornar a sociedade uma instituição aberta, mas regida
por regras que sejam consensuais aos cidadãos.
27.05.2013