LIVROS QUE FICAM
Ler é um exercício prazeroso. Esta frase já foi dita por mim
e por outras pessoas milhares de vezes. A gente faz pesquisa, usa a internet e ler
artigos e teses de mestres renomados. Se bem que a internet, como terra sem
lei, muitas vezes oferece raposa por guará; têm trabalhos rotulados de
científicos que não passam de matéria de almanaque peba, além de um dicionário
virtual que é uma gracinha. Mas o importante é ler. Já fui leitor compulsivo,
lia um livro por semana, às vezes solvia a obra em dois ou três dias. A idade e
as limitações físicas, principalmente visuais, funcionaram como freio e hoje,
para não deixar a mente ocioso, eu até assisto novela. Falando de leitura, dentre
as centenas de livros que li um me
marcou sobremaneira. Fogo Morto, de
José Lins do Rego. É minha opinião, mas não tem Cervantes com seu Dom Quixote
de La Mancha, Dante, Homero e tantos outros gênios que iluminaram a mente e
alicerçaram a formação de gerações desde muito tempo que substituam a narrativa simples, concisa, elegante e humanista
de Lins do Rego. A figura do mestre seleiro Zé Amaro, analfabeto, inteligente,
observador da cena política e social de um ambiente onde desfilavam senhores de engenho, mulheres cultas e moças
analfabetas, seres arrogantes, traidores, loucos e cangaceiros se destaca num universo colorido e multicultural.
Fogo Morto, quando analisadas as coordenadas da
narrativa, nos ensina história, antropologia, sociologia e psicologia. Embora a
crítica considere Menino de Engenho a principal obra do autor paraibano tenho preferência por Fogo Morto. Nesse livro,
Lins do Rego retrata como ninguém o
ciclo da cana de açúcar e se coloca
acima de Bagaceira, de outro
paraibano, José Américo de Almeida e supera outros livros e autores que dissertam sobre o
mesmo assunto. Embora obra de ficção, Fogo Morto aborda com extremo realismo um tema que constituiu a normalidade nua e crua da Zona da Mata de um Nordeste de fins do Século XIX até as primeiras décadas do Século XX, quando o banguê foi substituído pela industrialização da
cana-de-açúcar É importante conhecer esse período da vida nordestina em geral,
e da pernambucana em particular. A partir de obras como as de José Lins do Rego
e José Américo de Almeida, bem como as
de Gilberto Freire (Casa Grande e Senzala) e de tantos outros escritores do
ciclo da cana-de-açúcar é possível entender como começou a concentração d
riqueza e poder na região e como depois se formaram as favelas em torno das
grandes cidades nordestinas, principalmente no litoral. Ler é bom; a leitura é
o cimento que alicerça nossas mentes e
constrói os espigões do conhecimento.
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