NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

CANTO PLANGENTE

Na lua cheia  tu cantas
As melodias de tua infância
De repertório vasto, são tantas
A acalentar lembranças, distância

De um tempo lindo onde os amores
inocentes, românticos... ai de mim!
 Castos e coloridos como as flores
Do pequeno e aconchegante jardim.

Que cantas na lua nova, venenos?
Pois já é pungente teu cantar...
É saudade dos teus dias  serenos?

Ou é lembrança  dos canários e rolinhas
Que debalde hoje tentas imitar?

Mundo, coisas fúteis, andorinhas..

         (Emílio J. Moura)
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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014


AMARGURA
Emílio J. Moura
Se eu tivesse coragem, e palavras,
Para a ti claramente me declarar
Diria que tua figura me atormenta
E ao mesmo tempo  a mim acalma.

 Se eu tivesse o traquejo de um poeta
E a sabedoria de um filõsofo,
Eu diria que sou pequenino
Diante da majestade do teu porte.

Mas, tímido e covarde como sou
Calo, e te perco pra outros braços
E assim amago essa minha desdita.

Seu eu pudesse, e a coragem ajudasse
Colheria flores no campo
E solenemente diria: te amo.




quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

         MISÉRIA
Na casa de palha perdida  no deserto
Resseco, “floresta de gravetos”, sem vida,
Um caso de resistência por certo,
Apego de pessoas à antiga lida.

Pobre família,  não tem o que comer
Talvez sua refeição do dia seja o rato
Bodocado pelo menino ao  amanhecer
Antes que fosse pego pelo gato.

Se pelo menos na arapuca  que armou
Um pássaro, um nambu,  naquele rincão...
O  fogo do usineiro tudo queimou!

Milho, mandioca, batata, mais nada...
Nem minhoca sobrou naquele chão
De vida triste,  agora desgraçada.



terça-feira, 14 de janeiro de 2014

         A PROFESSORA E O RELÓGIO
-Seu Emilio,  que hora está marcando  esse relógio na parede?
Dona Esmeraldina me olhava com aquele ar sarcástico. Eu olhei o relógio, olhei, olhei,  e não consegui entender aquele amontoado  de letras em lugar dos números que costumava ver nos mostradores dos relógios. Confesso que tinha medo de mulher. E aquela mulher morena, bonita, bem penteada, braços longos e pernas grossas ali na minha frente me assustava. A professora de seus 28 anos se deslocava com leveza em minha volta. E eu não olhava mais o relógio, muito menos as pernas grossas da mestra. A  régua segura pela  mão direita batia forte na mão esquerda de dona Esmeraldina. Os castigos já haviam sido abolidos, mas aquele instrumento coercitivo era aterrador.
-Quem sabe que hora é que marca o relógio?, perguntou, já postada à frente da mesa, a professora para a turma de uns quinze alunos. João Batista levantou o braço. “Ora vejam, o João sabe ver a hora”, gracejou dona Esmeraldina. “Pois diga, João”, vaticinou sem esquecer de bater a régua na mão esquerda. João Gaguejou,  e a classe riu com as trapalhadas do corajoso aluno. Alzira, 11 anos, também levantou a mão. Mas se limitou a perguntar por que os números daquele relógio  eram diferentes. Risos. Voltando para mim, dona Esmeraldina viu uma porção de números em reta horizontal que eu havia escrito no caderno. Entre cada número, escrevi o numeral 5. A professora me mandou ir ao quando com aquelas anotações. Quadro negro era a coisa que eu mais temia. E a mestra  me fez repetir no quadro o que eu tinha feito no caderno. A turma riu da minha letra garatujada.
Meu pai já me havia ensinado ler as horas. A diferença era que eu nunca tinha visto um relógio cujas horas  fossem marcadas com algarismos arábicos. Conhecia os algarismos romanos, mas nunca me disseram que eles também  figuravam no mostrador de um relógio.  E com dona Esmeraldina me dizendo que eu estava indo no caminho certo e a classe toda rindo de mim, foi difícil não pedir para ir ao banheiro. “Ele é mijão”, disse o Gerson; “se demorar vai mijar a calça”, falou o Antônio Carlos. Quase aconteceu  se não tivesse chegado logo ao banheiro. De volta à sala, vi dona Esmeraldina risonha, me olhando batendo a régua na outra mão. “Você já escreveu os algarismo arábicos entre os romanos, agora multiplique os números que escreveu”. Ao efetuar a operação encontrei 35. “Então, que hora é, Emílio? João disse que era pra botar uma vírgula entre o 3 e 5, assim eram três e meia.  Dona Esmeraldina perguntou se “se da tarde ou da madrugada”.  João viu a besteira que disse. “Então, Emílio, que hora é?” --Nove e meia, professora. A classe inteira riu, mas dona Esmeraldina aplaudiu.
O relógio fora doado à escola por um comerciante do bairro.. Todos os alunos sabiam ler as horas, mas  não em mostrador com algarismos romanos. Era o 1º ano do curso primário, e todos os alunos já sabiam ler, escrever e fazer divisão e multiplicação com um algarismo n de referência. No ano seguinte aprenderíamos as operações com qualquer multiplicador ou divisor. No terceiro ano aprenderíamos frações e, no quanto ano, já deveríamos dominar a leitura e descrever uma paisagem ou um quadro do livro. Precisávamos desses recursos para, concluído o primária, saber fazer uma redação, importante  no exame de admissão ao ginásio. Poucos alunos chegavam ao fim do primário. A maioria ia ficando pelo caminho. Tempos de ensino de qualidade numa escola excludente.



domingo, 12 de janeiro de 2014

                            COISAS DE BELEZA
                          Emílio J. Moura

                          -Que tal: estou bonita?
                          -Você está linda! Vai arrebentar naquela festa.
                          É assim que as pessoas se vêm nessa sociedade superficial dos nossos dias. Privilegiam-se as aparências e o exibicionismo. No trabalho, no shopping, nas reuniões sociais. Até em casa. O importante é aparentar ser. O ser propriamente dito, ah! Isso pouco importa. É coisa pra gentinha. O que antes era preocupação exclusivamente feminina é hoje obsessão generalizada. Os homens também entraram nessa. Roupas folgadas, coloridas, corte de cabelo imitando celebridades. Perfumes. O mundo masculino pouco difere do feminino. Se é que difere em alguma coisa.
                           Mas as mulheres exageram no que lhes é próprio. E em certas ocasiões surpreendem quando ultrapassam os limites da linha comportamental até então só acessível aos homens.  Você, que tem mais de quarenta anos, já viu alguma vez na sua infância ou adolescência uma moça tomar um copo de bebida alcoólica? E um grupo de mocinhas freqüentar barzinhos? E falar pública e abertamente de sexo? Já? E você, já viu como as meninas se vestem hoje para ocasiões assim? É quando elas botam a melhor roupa, os melhores sapatos e usamos os mais sofisticados recursos de embelezamento. Parece uma competição. Parece, não. É uma competição. A rivalidade entre as garotas é bem maior do que a que existe entre os rapazes. Elas se enfeitam dessa forma como se fossem a uma solenidade de acasalamento. Como se fossem, não: elas vão a uma sessão de acasalamento. Porque toda essa produção visa antes de tudo a conquista de alguém. Seja um velho candidato a namorado ou uma nova presença jovem que despontou e se oferece ao mercado como se mercadoria fosse. E é mercadoria mesmo. No mercado do sexo.
                     Fato semelhante acontece com os rapazes. Quando comparecem a uma festa usam todos os recursos da moda masculina moderna. Um banho de shopping e de salão de beleza. Penteados, unhas tratadas com base de esmalte, cremes para deixar a pele mais hidratada e brilhante, perfumes de odor sutil; roupas não raro extravagantes, massa de mascar, cigarro de marca, uma porção de coisas próprias para essas ocasiões. E na cabeça, a idéia de sexo. Muito sexo. Vão se expor, como mercadoria disputadíssima, na vitrine do fogo das vaidades. Pertencerão, por um momento ou uma noite, a quem oferecer mais. Mais sedução, mais adrenalina, mais vantagens. O final de uma festa ou de um passeio quase sempre termina em encontro íntimo. Não faz muito era o inverso: o ritual era comandado pelos rapazes, que se davam ao luxo de escolher o “melhor partido” entre as “gatas”. Os tempos mudaram, e elas – hoje econômica e socialmente independentes – dão as cartas no jogo sutil da sedução.
                      Que vêm as pessoas uma nas outras? A maioria ver a oportunidade de se divertir, e tirar algum proveito, seja lá qual for. O ingrediente para a consecução desse objetivo é a beleza. Beleza externa, como já vimos. Das mulheres, principalmente. E noventa por cento da beleza feminina, como já disse um sábio observador do comportamento humano, “sai com água e sabão”. Os dez por cento restantes são eliminados com um chumaço de algodão embebido em algum desses leites higienizadores.
                      Mundo superficial este; dias estranhos os que estamos vivendo nos anos assim chamados “das luzes”. Mas enegrecidos por muitas trevas. E travas. Trevas que escurecem o futuro da juventude, que nem conheceu os recém-idos “anos dourados”. Travas que bloqueiam o bom-senso dessa geração, não permitindo que ela enxergue a vala que está cavando para si mesma. Se a opção é privilegiar a beleza externa, que importância tem mesmo qualquer conceito de beleza interna? No entanto, essa é também uma questão biofisiológica. Como assim? Os desarranjos digestivos que nos acometem são produzidos por toxinas que através da nossa boca chegaram ao tubo gastrintestinal; se a pele de uma pessoa está sadia é porque esta pessoa não acumula em seu organismo substâncias nocivas que ao se eliminarem maculam a cútis. Assim também é o conceito de beleza. Para ser verdadeira, a beleza tem que vir do interior das pessoas. Atravessar as barreiras físicas e as conveniências sociais e se mostrar naturalmente, por inteiro.
                    A noção do belo transcende às concepções européias do barroco e do Iluminismo. O ser belo tem a ver com a utilidade também. A Natureza, na extrema utilidade de suas cores, de sua luz, refresca a vida com os frutos das suas matas e a água de seus rios, lagos e mares. Tudo que é natural é belo, é útil. E esbanja beleza também. Se agredida em sua essência, a Natureza responde sutil ou furiosamente. As pessoas não são diferentes. Elas são naturalmente belas. Pouco importa suas etnias e raças; seus matizes. Se agredirem suas formas naturais, cedo ou tarde sofrerão as conseqüências. Nada a ver contra a aparência das pessoas que usam cosméticos saudáveis. Tudo a ver com as pessoas que de forma natural esbanjam alegria, difundem cordialidade e vivem em paz com suas consciências.


                                                                                                                       08.02.2006

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

                                      LOBISOMEM
                            Emílio J. Moura

                       As casas eram bem modestas. Coberta de capim, facilmente encontrado nas imediações. Paredes de taipa. Dois quartos pequenos; sala exígua. Cozinha ocupando um espaço da sala, mas com acesso externo. Era tudo. E o banheiro? Não havia banheiro nenhum. As necessidades eram feitas no matagal pouco distante. Isto pelos homens. As mulheres, ah! as mulheres não deviam ir ao matagal. Depositavam seus excrementos sólidos em folhas de jornal; depois, iam manuseando as folhas até formarem um pacote. Eram os famosos papagaios, que deixados nos tonéis onde se depositava o lixo do local seria  recolhido mais tarde pelo caminhão da prefeitura. Não existia água encanada; muito menos luz elétrica. O aglomerado apresentava péssimas condições sanitárias. A fedentina das conchas de mariscos e cascas de siris se misturava com o cheiro desagradável de urina a exalar de todos os recantos.
                     As ruas eram estreitas, curtas e sinuosas. Vistas do alto formavam um verdadeiro labirinto. O povoado antigo, não oferecia nenhum tipo de lazer às centenas de habitantes. Mais mulheres solteiras, com filhos. Os casais, curiosamente, tinham menos filhos. A ocupação das pessoas desse povoado estava centrada na coleta de mariscos e siris na maré distante dali uns dois quilômetros. Quase todos os homens daquela aldeia viviam do trabalho na maré. E também as mulheres, exceto algumas, encarregadas de ferver os crustáceos e os moluscos e extrair deles a carne saborosa.
                      Guiomar, uma viúva com três filhos adolescentes, morava num dos becos chamados de ruas. Sua casa ficava lá no extremo norte. Saindo dali, o matagal à frente, e além dele, só o deserto escuro das noites temidas. Seu trabalho era  selecionar as carnes e acondicioná-las para entregar ao intermediário das vendas no mercado da cidade.
                    Os moradores dessa colônia eram gente simples; pessoas geralmente analfabetas, com destaque para as mulheres. As crendices dominavam o imaginário daquelas criaturas. Lobisomem, papafigo, padre sem cabeça, a porca preta arrastando atrás de si seus cem porquinhos naquela chiadeira dos diabos e outras excentricidades da cultura popular induziam toda aquela gente a permanecer prisioneira dentro de casa à noite.
                   Pois não é que apareceu por lá um lobisomem. Real, de carne e osso. Começou numa sexta-feira de lua-nova, pela madrugada. João Cotó, um cara brabo do lugar, ficou estático, suando frio, quando vindo da farra semanal  viu aquela marmota. Os gritos da alma penada, de mistura com ruídos estranhos, eram realmente assustadores. O medo das pessoas deu maior fôlego para as andanças do lobisomem. Na sexta-feira seguinte e nas que se sucederam por um bom tempo a caída da noite se tornou um tormento para aquelas pessoas. Se nos outros dias as portas eram fechadas logo que começava a escurecer, o sono forçado pelo medo levou o povoado a se recolher logo depois das cinco horas da tarde.
                 Foi quando Carlão, um sarará de músculos adensados que conduzia uma embarcação levando os catadores aos lugares de trabalho, enquanto remava o barco naquela manhã de segunda-feira, teve uma idéia: porque não enfrentar aquele ser horrendo, espantando-o para outros lugares? O acordo foi logo selado. Alguns  pescadores possuíam espingardas, apareceu um que tinha um revolver. Formou-se uma tropa de choque que começaria a agir logo na sexta-feira próxima. Quem ficou de fora foi João Cotó. Justificou-se: estava acostumado a bater em cabra macho, vivente. Por nada desse mundo se atreveria a encontrar-se com o lobisomem outra vez.
                No dia combinado, às dez horas da noite, a “tropa” estava reunida perto do matagal. Era noite sem lua, e os homens conversavam baixinho no escuro acertando os detalhes do enfrentamento. Dos nove que se prontificaram a enfrentar o lobisomem só quatro compareceram. E o lobisomem de fato visitou o povoado naquela noite. Só que pelo outro extremo, onde não havia ninguém à espera. Ouviam-se seus grunhidos e uma seqüência de ruídos aterradores. Decepção para a “tropa” e mais tititi a respeito da estranha aparição. Mas não desistiram. Combinaram nova tocaia para a sexta seguinte. Não é que o lobisomem resolveu mudar seu dia de visita ao povoado. Passou na quinta-feira, desfilando seu horror por um pedaço das ruas mais próximas do matagal. O que fez acender a luz da desconfiança dos homens comprometidos com o combate ao monstro. Depois de algumas trapalhadas, montado piquete as quintas e as sextas, com o lobisomem passando em noites diversas, resolveram formar grupos para atuarem todas as noites da semana. Guiomar se queixava de estar sendo prejudicada pelo esquema montado pelos caçadores de lobisomem. Não montavam guarda à entrada de sua rua. O que foi providenciado. Belarmino, um negrão de dentes fortes e polidos que eram visíveis até no escuro e era o principal intermediário na venda dos produtos coletados pela gente do povoado, deu a idéia final.  Fazer uma varredura começando de fora para dentro das ruas do povoado. Entretanto, Belarmino tinha medo de ficar na linha de frente. Só aparecia  no grupo em dias nos quais o lobisomem não passava.
                 João Cotó, numa de suas voltas da farra – cheio de quequéis – dá de cara com o lobisomem logo na entrada da rua. O dia já estava quase clareando e dava para distinguir bem a silhueta das pessoas. Como todo bêbado é afoito, e diante do impacto daquele encontro, Cotó teve uma reação inesperada: sacou do revolver, apontou-o para a fera e armou o gatilho.
                -Não atire, João, sou eu! Gritou desesperado o lobisomem.
                -Lobisomem não fala feito gente, retrucou Cotó, enquanto acertava o ponto de mira.
               -João, sou eu, Belarmino!, entregou-se o lobisomem.
               Às quatro e meia da manhã, no meio de uma roda de homens e mulheres furiosos, Belarmino teve que se explicar. Usava uma capa preta e levava pequenos chocalhos de sua fantasia da época em que brincava no maracatu. Emitia sons abafados numa espécie de gaita, imitando o que tinha ouvido na infância sobre lobisomem. Casado, com dois filhos menores, de há muito gostava da viúva Guiomar, também já aos empurrões no meio da turba inconformada com aquela situação ao mesmo tempo irritante e ridícula. Como podia criar constrangimento para os filhos adolescentes da viúva, optou por uma forma inusitada de ação, sabendo do terror que um lobisomem causaria à população. Não teve tutano para medir as conseqüências do seu desatino, e acabou prejudicando a si, à sua família e à viúva. Tomaram uns empurrões a mais, e quase nus foram expulsos do povoado. Como numa sina macabra, um incêndio começado numa casa onde as crianças deixadas a sós  brincavam com velas acesas foi se alastrando. Quando os bombeiros chegaram não tinham mais o que fazer. Todo o povoado fora consumido pelas chamas.
              Na crendice popular lobisomem é sinônimo de criatura marcada por praga rogada por mães contrariadas por algum filho ingrato. E, então, em vez de se concentrarem no combate às chamas, as pessoas simplórias da aldeia, talvez dominadas por algum sentimento de culpa, ficaram se acusando mutuamente de condenação por seus pecados.

                                                          25.05.2006 (Manuscrito de 1958)