NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

                                      LOBISOMEM
                            Emílio J. Moura

                       As casas eram bem modestas. Coberta de capim, facilmente encontrado nas imediações. Paredes de taipa. Dois quartos pequenos; sala exígua. Cozinha ocupando um espaço da sala, mas com acesso externo. Era tudo. E o banheiro? Não havia banheiro nenhum. As necessidades eram feitas no matagal pouco distante. Isto pelos homens. As mulheres, ah! as mulheres não deviam ir ao matagal. Depositavam seus excrementos sólidos em folhas de jornal; depois, iam manuseando as folhas até formarem um pacote. Eram os famosos papagaios, que deixados nos tonéis onde se depositava o lixo do local seria  recolhido mais tarde pelo caminhão da prefeitura. Não existia água encanada; muito menos luz elétrica. O aglomerado apresentava péssimas condições sanitárias. A fedentina das conchas de mariscos e cascas de siris se misturava com o cheiro desagradável de urina a exalar de todos os recantos.
                     As ruas eram estreitas, curtas e sinuosas. Vistas do alto formavam um verdadeiro labirinto. O povoado antigo, não oferecia nenhum tipo de lazer às centenas de habitantes. Mais mulheres solteiras, com filhos. Os casais, curiosamente, tinham menos filhos. A ocupação das pessoas desse povoado estava centrada na coleta de mariscos e siris na maré distante dali uns dois quilômetros. Quase todos os homens daquela aldeia viviam do trabalho na maré. E também as mulheres, exceto algumas, encarregadas de ferver os crustáceos e os moluscos e extrair deles a carne saborosa.
                      Guiomar, uma viúva com três filhos adolescentes, morava num dos becos chamados de ruas. Sua casa ficava lá no extremo norte. Saindo dali, o matagal à frente, e além dele, só o deserto escuro das noites temidas. Seu trabalho era  selecionar as carnes e acondicioná-las para entregar ao intermediário das vendas no mercado da cidade.
                    Os moradores dessa colônia eram gente simples; pessoas geralmente analfabetas, com destaque para as mulheres. As crendices dominavam o imaginário daquelas criaturas. Lobisomem, papafigo, padre sem cabeça, a porca preta arrastando atrás de si seus cem porquinhos naquela chiadeira dos diabos e outras excentricidades da cultura popular induziam toda aquela gente a permanecer prisioneira dentro de casa à noite.
                   Pois não é que apareceu por lá um lobisomem. Real, de carne e osso. Começou numa sexta-feira de lua-nova, pela madrugada. João Cotó, um cara brabo do lugar, ficou estático, suando frio, quando vindo da farra semanal  viu aquela marmota. Os gritos da alma penada, de mistura com ruídos estranhos, eram realmente assustadores. O medo das pessoas deu maior fôlego para as andanças do lobisomem. Na sexta-feira seguinte e nas que se sucederam por um bom tempo a caída da noite se tornou um tormento para aquelas pessoas. Se nos outros dias as portas eram fechadas logo que começava a escurecer, o sono forçado pelo medo levou o povoado a se recolher logo depois das cinco horas da tarde.
                 Foi quando Carlão, um sarará de músculos adensados que conduzia uma embarcação levando os catadores aos lugares de trabalho, enquanto remava o barco naquela manhã de segunda-feira, teve uma idéia: porque não enfrentar aquele ser horrendo, espantando-o para outros lugares? O acordo foi logo selado. Alguns  pescadores possuíam espingardas, apareceu um que tinha um revolver. Formou-se uma tropa de choque que começaria a agir logo na sexta-feira próxima. Quem ficou de fora foi João Cotó. Justificou-se: estava acostumado a bater em cabra macho, vivente. Por nada desse mundo se atreveria a encontrar-se com o lobisomem outra vez.
                No dia combinado, às dez horas da noite, a “tropa” estava reunida perto do matagal. Era noite sem lua, e os homens conversavam baixinho no escuro acertando os detalhes do enfrentamento. Dos nove que se prontificaram a enfrentar o lobisomem só quatro compareceram. E o lobisomem de fato visitou o povoado naquela noite. Só que pelo outro extremo, onde não havia ninguém à espera. Ouviam-se seus grunhidos e uma seqüência de ruídos aterradores. Decepção para a “tropa” e mais tititi a respeito da estranha aparição. Mas não desistiram. Combinaram nova tocaia para a sexta seguinte. Não é que o lobisomem resolveu mudar seu dia de visita ao povoado. Passou na quinta-feira, desfilando seu horror por um pedaço das ruas mais próximas do matagal. O que fez acender a luz da desconfiança dos homens comprometidos com o combate ao monstro. Depois de algumas trapalhadas, montado piquete as quintas e as sextas, com o lobisomem passando em noites diversas, resolveram formar grupos para atuarem todas as noites da semana. Guiomar se queixava de estar sendo prejudicada pelo esquema montado pelos caçadores de lobisomem. Não montavam guarda à entrada de sua rua. O que foi providenciado. Belarmino, um negrão de dentes fortes e polidos que eram visíveis até no escuro e era o principal intermediário na venda dos produtos coletados pela gente do povoado, deu a idéia final.  Fazer uma varredura começando de fora para dentro das ruas do povoado. Entretanto, Belarmino tinha medo de ficar na linha de frente. Só aparecia  no grupo em dias nos quais o lobisomem não passava.
                 João Cotó, numa de suas voltas da farra – cheio de quequéis – dá de cara com o lobisomem logo na entrada da rua. O dia já estava quase clareando e dava para distinguir bem a silhueta das pessoas. Como todo bêbado é afoito, e diante do impacto daquele encontro, Cotó teve uma reação inesperada: sacou do revolver, apontou-o para a fera e armou o gatilho.
                -Não atire, João, sou eu! Gritou desesperado o lobisomem.
                -Lobisomem não fala feito gente, retrucou Cotó, enquanto acertava o ponto de mira.
               -João, sou eu, Belarmino!, entregou-se o lobisomem.
               Às quatro e meia da manhã, no meio de uma roda de homens e mulheres furiosos, Belarmino teve que se explicar. Usava uma capa preta e levava pequenos chocalhos de sua fantasia da época em que brincava no maracatu. Emitia sons abafados numa espécie de gaita, imitando o que tinha ouvido na infância sobre lobisomem. Casado, com dois filhos menores, de há muito gostava da viúva Guiomar, também já aos empurrões no meio da turba inconformada com aquela situação ao mesmo tempo irritante e ridícula. Como podia criar constrangimento para os filhos adolescentes da viúva, optou por uma forma inusitada de ação, sabendo do terror que um lobisomem causaria à população. Não teve tutano para medir as conseqüências do seu desatino, e acabou prejudicando a si, à sua família e à viúva. Tomaram uns empurrões a mais, e quase nus foram expulsos do povoado. Como numa sina macabra, um incêndio começado numa casa onde as crianças deixadas a sós  brincavam com velas acesas foi se alastrando. Quando os bombeiros chegaram não tinham mais o que fazer. Todo o povoado fora consumido pelas chamas.
              Na crendice popular lobisomem é sinônimo de criatura marcada por praga rogada por mães contrariadas por algum filho ingrato. E, então, em vez de se concentrarem no combate às chamas, as pessoas simplórias da aldeia, talvez dominadas por algum sentimento de culpa, ficaram se acusando mutuamente de condenação por seus pecados.

                                                          25.05.2006 (Manuscrito de 1958)

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