NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

         A PROFESSORA E O RELÓGIO
-Seu Emilio,  que hora está marcando  esse relógio na parede?
Dona Esmeraldina me olhava com aquele ar sarcástico. Eu olhei o relógio, olhei, olhei,  e não consegui entender aquele amontoado  de letras em lugar dos números que costumava ver nos mostradores dos relógios. Confesso que tinha medo de mulher. E aquela mulher morena, bonita, bem penteada, braços longos e pernas grossas ali na minha frente me assustava. A professora de seus 28 anos se deslocava com leveza em minha volta. E eu não olhava mais o relógio, muito menos as pernas grossas da mestra. A  régua segura pela  mão direita batia forte na mão esquerda de dona Esmeraldina. Os castigos já haviam sido abolidos, mas aquele instrumento coercitivo era aterrador.
-Quem sabe que hora é que marca o relógio?, perguntou, já postada à frente da mesa, a professora para a turma de uns quinze alunos. João Batista levantou o braço. “Ora vejam, o João sabe ver a hora”, gracejou dona Esmeraldina. “Pois diga, João”, vaticinou sem esquecer de bater a régua na mão esquerda. João Gaguejou,  e a classe riu com as trapalhadas do corajoso aluno. Alzira, 11 anos, também levantou a mão. Mas se limitou a perguntar por que os números daquele relógio  eram diferentes. Risos. Voltando para mim, dona Esmeraldina viu uma porção de números em reta horizontal que eu havia escrito no caderno. Entre cada número, escrevi o numeral 5. A professora me mandou ir ao quando com aquelas anotações. Quadro negro era a coisa que eu mais temia. E a mestra  me fez repetir no quadro o que eu tinha feito no caderno. A turma riu da minha letra garatujada.
Meu pai já me havia ensinado ler as horas. A diferença era que eu nunca tinha visto um relógio cujas horas  fossem marcadas com algarismos arábicos. Conhecia os algarismos romanos, mas nunca me disseram que eles também  figuravam no mostrador de um relógio.  E com dona Esmeraldina me dizendo que eu estava indo no caminho certo e a classe toda rindo de mim, foi difícil não pedir para ir ao banheiro. “Ele é mijão”, disse o Gerson; “se demorar vai mijar a calça”, falou o Antônio Carlos. Quase aconteceu  se não tivesse chegado logo ao banheiro. De volta à sala, vi dona Esmeraldina risonha, me olhando batendo a régua na outra mão. “Você já escreveu os algarismo arábicos entre os romanos, agora multiplique os números que escreveu”. Ao efetuar a operação encontrei 35. “Então, que hora é, Emílio? João disse que era pra botar uma vírgula entre o 3 e 5, assim eram três e meia.  Dona Esmeraldina perguntou se “se da tarde ou da madrugada”.  João viu a besteira que disse. “Então, Emílio, que hora é?” --Nove e meia, professora. A classe inteira riu, mas dona Esmeraldina aplaudiu.
O relógio fora doado à escola por um comerciante do bairro.. Todos os alunos sabiam ler as horas, mas  não em mostrador com algarismos romanos. Era o 1º ano do curso primário, e todos os alunos já sabiam ler, escrever e fazer divisão e multiplicação com um algarismo n de referência. No ano seguinte aprenderíamos as operações com qualquer multiplicador ou divisor. No terceiro ano aprenderíamos frações e, no quanto ano, já deveríamos dominar a leitura e descrever uma paisagem ou um quadro do livro. Precisávamos desses recursos para, concluído o primária, saber fazer uma redação, importante  no exame de admissão ao ginásio. Poucos alunos chegavam ao fim do primário. A maioria ia ficando pelo caminho. Tempos de ensino de qualidade numa escola excludente.



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