NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

domingo, 12 de janeiro de 2014

                            COISAS DE BELEZA
                          Emílio J. Moura

                          -Que tal: estou bonita?
                          -Você está linda! Vai arrebentar naquela festa.
                          É assim que as pessoas se vêm nessa sociedade superficial dos nossos dias. Privilegiam-se as aparências e o exibicionismo. No trabalho, no shopping, nas reuniões sociais. Até em casa. O importante é aparentar ser. O ser propriamente dito, ah! Isso pouco importa. É coisa pra gentinha. O que antes era preocupação exclusivamente feminina é hoje obsessão generalizada. Os homens também entraram nessa. Roupas folgadas, coloridas, corte de cabelo imitando celebridades. Perfumes. O mundo masculino pouco difere do feminino. Se é que difere em alguma coisa.
                           Mas as mulheres exageram no que lhes é próprio. E em certas ocasiões surpreendem quando ultrapassam os limites da linha comportamental até então só acessível aos homens.  Você, que tem mais de quarenta anos, já viu alguma vez na sua infância ou adolescência uma moça tomar um copo de bebida alcoólica? E um grupo de mocinhas freqüentar barzinhos? E falar pública e abertamente de sexo? Já? E você, já viu como as meninas se vestem hoje para ocasiões assim? É quando elas botam a melhor roupa, os melhores sapatos e usamos os mais sofisticados recursos de embelezamento. Parece uma competição. Parece, não. É uma competição. A rivalidade entre as garotas é bem maior do que a que existe entre os rapazes. Elas se enfeitam dessa forma como se fossem a uma solenidade de acasalamento. Como se fossem, não: elas vão a uma sessão de acasalamento. Porque toda essa produção visa antes de tudo a conquista de alguém. Seja um velho candidato a namorado ou uma nova presença jovem que despontou e se oferece ao mercado como se mercadoria fosse. E é mercadoria mesmo. No mercado do sexo.
                     Fato semelhante acontece com os rapazes. Quando comparecem a uma festa usam todos os recursos da moda masculina moderna. Um banho de shopping e de salão de beleza. Penteados, unhas tratadas com base de esmalte, cremes para deixar a pele mais hidratada e brilhante, perfumes de odor sutil; roupas não raro extravagantes, massa de mascar, cigarro de marca, uma porção de coisas próprias para essas ocasiões. E na cabeça, a idéia de sexo. Muito sexo. Vão se expor, como mercadoria disputadíssima, na vitrine do fogo das vaidades. Pertencerão, por um momento ou uma noite, a quem oferecer mais. Mais sedução, mais adrenalina, mais vantagens. O final de uma festa ou de um passeio quase sempre termina em encontro íntimo. Não faz muito era o inverso: o ritual era comandado pelos rapazes, que se davam ao luxo de escolher o “melhor partido” entre as “gatas”. Os tempos mudaram, e elas – hoje econômica e socialmente independentes – dão as cartas no jogo sutil da sedução.
                      Que vêm as pessoas uma nas outras? A maioria ver a oportunidade de se divertir, e tirar algum proveito, seja lá qual for. O ingrediente para a consecução desse objetivo é a beleza. Beleza externa, como já vimos. Das mulheres, principalmente. E noventa por cento da beleza feminina, como já disse um sábio observador do comportamento humano, “sai com água e sabão”. Os dez por cento restantes são eliminados com um chumaço de algodão embebido em algum desses leites higienizadores.
                      Mundo superficial este; dias estranhos os que estamos vivendo nos anos assim chamados “das luzes”. Mas enegrecidos por muitas trevas. E travas. Trevas que escurecem o futuro da juventude, que nem conheceu os recém-idos “anos dourados”. Travas que bloqueiam o bom-senso dessa geração, não permitindo que ela enxergue a vala que está cavando para si mesma. Se a opção é privilegiar a beleza externa, que importância tem mesmo qualquer conceito de beleza interna? No entanto, essa é também uma questão biofisiológica. Como assim? Os desarranjos digestivos que nos acometem são produzidos por toxinas que através da nossa boca chegaram ao tubo gastrintestinal; se a pele de uma pessoa está sadia é porque esta pessoa não acumula em seu organismo substâncias nocivas que ao se eliminarem maculam a cútis. Assim também é o conceito de beleza. Para ser verdadeira, a beleza tem que vir do interior das pessoas. Atravessar as barreiras físicas e as conveniências sociais e se mostrar naturalmente, por inteiro.
                    A noção do belo transcende às concepções européias do barroco e do Iluminismo. O ser belo tem a ver com a utilidade também. A Natureza, na extrema utilidade de suas cores, de sua luz, refresca a vida com os frutos das suas matas e a água de seus rios, lagos e mares. Tudo que é natural é belo, é útil. E esbanja beleza também. Se agredida em sua essência, a Natureza responde sutil ou furiosamente. As pessoas não são diferentes. Elas são naturalmente belas. Pouco importa suas etnias e raças; seus matizes. Se agredirem suas formas naturais, cedo ou tarde sofrerão as conseqüências. Nada a ver contra a aparência das pessoas que usam cosméticos saudáveis. Tudo a ver com as pessoas que de forma natural esbanjam alegria, difundem cordialidade e vivem em paz com suas consciências.


                                                                                                                       08.02.2006

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