COISAS
DE BELEZA
Emílio J.
Moura
-Que tal:
estou bonita?
-Você está linda! Vai
arrebentar naquela festa.
É assim que as pessoas
se vêm nessa sociedade superficial dos nossos dias. Privilegiam-se as
aparências e o exibicionismo. No trabalho, no shopping, nas reuniões sociais.
Até em casa. O importante é aparentar ser. O ser propriamente dito, ah! Isso
pouco importa. É coisa pra gentinha. O que antes era preocupação exclusivamente
feminina é hoje obsessão generalizada. Os homens também entraram nessa. Roupas
folgadas, coloridas, corte de cabelo imitando celebridades. Perfumes. O mundo
masculino pouco difere do feminino. Se é que difere em alguma coisa.
Mas as mulheres exageram
no que lhes é próprio. E em certas ocasiões surpreendem quando ultrapassam os
limites da linha comportamental até então só acessível aos homens. Você, que tem mais de quarenta anos, já viu
alguma vez na sua infância ou adolescência uma moça tomar um copo de bebida
alcoólica? E um grupo de mocinhas freqüentar barzinhos? E falar pública e
abertamente de sexo? Já? E você, já viu como as meninas se vestem hoje para
ocasiões assim? É quando elas botam a melhor roupa, os melhores sapatos e
usamos os mais sofisticados recursos de embelezamento. Parece uma competição.
Parece, não. É uma competição. A rivalidade entre as garotas é bem maior do que
a que existe entre os rapazes. Elas se enfeitam dessa forma como se fossem a
uma solenidade de acasalamento. Como se fossem, não: elas vão a uma sessão de
acasalamento. Porque toda essa produção visa antes de tudo a conquista de
alguém. Seja um velho candidato a namorado ou uma nova presença jovem que
despontou e se oferece ao mercado como se mercadoria fosse. E é mercadoria
mesmo. No mercado do sexo.
Fato semelhante acontece
com os rapazes. Quando comparecem a uma festa usam todos os recursos da moda
masculina moderna. Um banho de shopping e de salão de beleza. Penteados, unhas
tratadas com base de esmalte, cremes para deixar a pele mais hidratada e
brilhante, perfumes de odor sutil; roupas não raro extravagantes, massa de
mascar, cigarro de marca, uma porção de coisas próprias para essas ocasiões. E
na cabeça, a idéia de sexo. Muito sexo. Vão se expor, como mercadoria
disputadíssima, na vitrine do fogo das vaidades. Pertencerão, por um momento ou
uma noite, a quem oferecer mais. Mais sedução, mais adrenalina, mais vantagens.
O final de uma festa ou de um passeio quase sempre termina em encontro íntimo.
Não faz muito era o inverso: o ritual era comandado pelos rapazes, que se davam
ao luxo de escolher o “melhor partido” entre as “gatas”. Os tempos mudaram, e
elas – hoje econômica e socialmente independentes – dão as cartas no jogo sutil
da sedução.
Que vêm as pessoas uma
nas outras? A maioria ver a oportunidade de se divertir, e tirar algum
proveito, seja lá qual for. O ingrediente para a consecução desse objetivo é a
beleza. Beleza externa, como já vimos. Das mulheres, principalmente. E noventa
por cento da beleza feminina, como já disse um sábio observador do
comportamento humano, “sai com água e sabão”. Os dez por cento restantes são
eliminados com um chumaço de algodão embebido em algum desses leites
higienizadores.
Mundo superficial este; dias estranhos
os que estamos vivendo nos anos assim chamados “das luzes”. Mas enegrecidos por
muitas trevas. E travas. Trevas que escurecem o futuro da juventude, que nem
conheceu os recém-idos “anos dourados”. Travas que bloqueiam o bom-senso dessa
geração, não permitindo que ela enxergue a vala que está cavando para si mesma.
Se a opção é privilegiar a beleza externa, que importância tem mesmo qualquer
conceito de beleza interna? No entanto, essa é também uma questão
biofisiológica. Como assim? Os desarranjos digestivos que nos acometem são
produzidos por toxinas que através da nossa boca chegaram ao tubo
gastrintestinal; se a pele de uma pessoa está sadia é porque esta pessoa não
acumula em seu organismo substâncias nocivas que ao se eliminarem maculam a
cútis. Assim também é o conceito de beleza. Para ser verdadeira, a beleza tem
que vir do interior das pessoas. Atravessar as barreiras físicas e as
conveniências sociais e se mostrar naturalmente, por inteiro.
A noção do belo transcende
às concepções européias do barroco e do Iluminismo. O ser belo tem a ver com a
utilidade também. A Natureza, na extrema utilidade de suas cores, de sua luz, refresca
a vida com os frutos das suas matas e a água de seus rios, lagos e mares. Tudo
que é natural é belo, é útil. E esbanja beleza também. Se agredida em sua
essência, a Natureza responde sutil ou furiosamente. As pessoas não são
diferentes. Elas são naturalmente belas. Pouco importa suas etnias e raças;
seus matizes. Se agredirem suas formas naturais, cedo ou tarde sofrerão as
conseqüências. Nada a ver contra a aparência das pessoas que usam cosméticos
saudáveis. Tudo a ver com as pessoas que de forma natural esbanjam alegria,
difundem cordialidade e vivem em paz com suas consciências.
08.02.2006
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