UMA CIVILIZAÇÃO DE
SURDOS E MÍOPES
Minha avó paterna já
advertia os netos: "Não procurem lugares barulhentos, vozes altas podem
fazer mal à audição". E no ginásio ouvi professores se queixando da baixa
acuidade visual devido a necessidade de longas noites lendo sob a luminária. Zé
da Lua, um analfabeto sábio por natureza que era taxado de louco, evitava o
reflexo da luz do leito do rio, e justificava:"pode cegar". Sou do
tempo do lápis e papel. Da tabuada
e da gramática (nem tudo ali eu aceito).
Quando cegueira poderia ser fruto da má nutrição
e surdez um indício de maus tratos na
infância. Sei que os avanços tecnológicos viera para ficar. E continuarão se
aperfeiçoando, sempre. Sei que se deu, nas últimas décadas, um enorme salto
para o desenvolvimento dos meios de comunicação, transportes, produção,
negócios. Desenvolvimento que chegou aos métodos de aprendizado formal. Do
rádio e do telegrafo evoluiu-se para a televisão, chegou-se ao "cérebro
eletrônico", que se simplificou no notebook; do telefone fixo, chegamos à
telefonia móvel, o celular. O cinema passou por uma transformação incrível. E estamos apenas tateando. Novos e
revolucionários inventos serão lançados no mercado. A marcha se acelera, e é
irreversível.
A voz de minha avó e a
advertência de Zé da Lua tem sentido. Pesquisas recentes realizadas por
universidade alemã chegaram a uma conclusão óbvia: quanto maior a escolaridade
maior é o risco de miopia. E já sabíamos, através de advertências de médicos e
educadores: a exposição a ruídos permanentes causa danos aos tímpanos, levando
aos poucos a uma surdez que talvez não se reverta. O uso continuado e
constante de mídias eletrônicas, a forma de se ouvir música com um fone enfiado
no ouvido, a variação continua de imagens que se repetem diante do nosso olhar
fixo, tudo isso levará no futuro a uma
civilização de surdos e míopes. Voltar ao lápis e papel, à sombra dos
arvoredos, às caminhadas pelos campos verdes e floridas da infância de minha
geração é inconcebível. Resta saber dosar a intensidade do som ao pé do ouvido,
da luz diante de nós, programar o uso do
notebook e do celular e educar melhor nossas crianças e adolescentes. Ainda uma
vez inha avó: "Tudo que é fácil de mais estraga".
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