Não sei nada de sua origem, a não ser que era uma prima distante da linhagem branca portuguesa do meu pai. Analfabeta, tinha poderes místicos especiais que chamavam a atenção. Falando baixo, quase cochichando ao pé do ouvido do interlocutor, dava conselhos, sem nunca usar um tom de repreensão. Extremamente religiosa, carregava pendurado do pescoço numa corrente de ouro um crucifixo também de ouro, presente dos padres do convento onde ela viveu a vida inteira. Não sei se a mãe dela morreu do seu parto ou se abandonou a filha ainda em idade tenra pelo defeito físico que carregava: tinha as pernas em arco. A religiosidade daquela mulher baixinha de gestos mansos se revelava na sua bondade. Pouco importava a ela a que religião as pessoas pertenciam nem tinha a pretensão de converter ninguém; ela era a própria religião em pessoa. Dizia que "o corpo era a morada do espírito e a igreja da alma", isso num tempo em que havia poucos protestantes, e principalmente lá pelo engenho só duas ou três pessoas que se diziam "crentes" e a população mais inculta as chamava de "bodes".
Maria Pimenta fez votos de pobreza, e todos os seus pertences ela carregava numa trouxa que trazia à cabeça sempre que aparecia lá pelo engenho. Só andava a pé, viajando léguas e mais léguas descalça e sem ao menos calçar um tamanho, que era o calçado da maioria da população na época. Viagens longas como aquelas pra ir ao engenho onde morava a família, só de trem. No máximo, se dava ao luxo de pegar a "sopa", um carro de tração animal que a esperava na estação central para levá-la de volta ao convento onde vivia.
Entre os predicados de Maria Pimenta, ela era rezadeira - rejeitava o título de benzedeira. E curava de tudo. Espinhela caída, cobreiro, engasgo, dores femininas, anemia, falta de apetite, regras atrasadas, dor de cabeça, machucado, doenças de garganta, choro de menino... um elenco interminável. Maria Pimenta contava histórias
( CONTINUA)
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