PLURALIDADE CULTURAL
Na
Bahia, onde está a maior concentração de negros do Brasil, a Timbalada, os
Filhos de Gandhi, o Ileaê e um número expressivo de grupos carnavalescos
artísticos ou musicais, compositores e artistas variados que cantam as raízes
culturais da terra, formam o Aché Music. Em Pernambuco, o frevo, o maracatu, os
caboclinhos, o caboclo de vara e um grande número de ritmos musicais e
conjuntos populares somente encontrados neste estado, compõem um contexto
cultural próprio. Assim, também, no Pará, manifestações populares e uma música excitante
somente executada ali identifica o Estado, em particular, e a Região Amazônica,
como um todo.
No Rio de Janeiro, as escolas de samba
pomposas com fantasias milionárias a desfilarem na Avenida Sapucaí contrastam
com a miséria das favelas. O Samba, contudo, preside às duas situações
extremas. No reinado de Momo, pessoas simples – muitas vezes presas da miséria que
é a vida nos morros cariocas e que moram em barracos apertados e em ruas ou
becos estreitos e sinuosos se misturam com gente rica, pessoas social e
economicamente poderosas, a nata da sociedade carioca. Durante os desfiles
carnavalescos da antiga Capital da República ninguém é de ninguém.
Em cada Região do Brasil são encontradas
manifestações culturais próprias do local. Os diversos estados de cada região,
de alguma forma, têm literatura erudita ou popular; o cordel contando as
aventuras do imaginário do povo nordestino; músicas de feitio e sonoridade
variados que ecoam nas avenidas das cidades ou nos rincões longínquos dessa
Nação enorme; artesanato e artes plásticas que identificam culturalmente cada
pedaço deste País.
Negros, pardos, mulatos, brancos e
uma infinidade de cor de pele se misturam num caldeirão cultural que enriquece
a paisagem humana do Brasil.
Claro que há os que veem nessa mistura de
sangue uma coisa desagradável, Há,
inclusive, os que identificam nessa miscigenação quase fabulosa das gentes
brasileiras as causas do atraso do País. Puro preconceito! Talvez, saudosismo
dos tempos coloniais ou imperiais, onde branco era senhor, e negro, escravo.
Pobres revanchistas, que não aceitam o fato de
negros africanos, índios e brancos terem se relacionado nessa cruzada cujo objetivo não era extinguir
uma raça, mas, ao contrário, forjar uma nova raça – a raça brasileira - que se manifesta através desse mosaico
multicolorido de peles diferentes, músicas típicas, artes regionais diversas
que se integram ao conjunto cultural do País.
Samba, frevo,
aché, lundu, carimbó, maxixe, forró, dança de roda; bonecos moldados em barro
com características locais; carrancas entalhadas na madeira; bumba-meu-boi;
samba de coco; ciranda; vaquejadas; quadrilhas juninas, adaptações do modelo de
dança trazido pelos portugueses; fogueiras de Santo Antônio, São João e São
Pedro, em cujo ciclo junino predominam as comidas feitas à base do milho
largamente cultivado em todas as regiões do Brasil, mas cuidado quase como um
ícone religioso nas terras nordestinas, principalmente Pernambuco, Alagoa,
Ceará e Bahia; tradições de uma cultura de rezas, promessas com santo
casamenteiro como Santo Antônio, quando as moças fazem um ritual curioso
visando encontrar seu príncipe encantado; carros-alegóricos desfilando o rico folclore
local nas ruas de muitas cidades; blocos, clubes e troças carnavalescas
arrastando multidões pelas ruas do Recife; futebol, praia e sol, muito sol,
principalmente no litoral do Nordeste ou nas badaladas praias do Rio de Janeiro.
Essa pluralidade cultural é a marca brasileira.
As manifestações culturais
brasileiras têm um tom predominantemente católico; isso se deve à larga
tradição da Igreja Católica na vida dos brasileiros, principalmente das camadas
mais modestas da população, e em todo o mundo ocidental durante séculos. Mas o
Protestantismo, através de suas várias igrejas, vêm crescendo em todas as regiões e rincões do
País. E já há um equilíbrio nessa comparação entre os vários cultos. Essa é uma
constatação salutar. O sincretismo religioso, começado na Bahia e se espalhado pelo Brasil inteiro é uma marca histórica e irreversível dessa pluralidade de culturas. Apesar da rejeição de muitas igrejas evangélicas às tradições populares devido a sua origem católica, outras igrejas evangélicas vêm assimilando essas tradições. Já existe nessas igrejas manifestações paralelas aos eventos folclórcos antigos, e isto incluem o carnaval, os desfiles de rua e aceitação com nuances próprias das tradições culturais juninas. As diferenças são relativisadas e a convivência social entre os membros de uma mesma família onde há diversidade de fé vai amoldando a resistência e aprimorando o relacionamento entre famílias com esse perfil. A pluralidade cultural também tem essa marca importante na
religião. A hegemonia no campo da fé, da
devoção, da política e da filosofia é
sinônimo de intolerância, perseguição e tortura; tudo que se antepõe ao bom
relacionamento entre os povos e não se identifica com a índole dos brasileiros. Isso ficou demonstrado na Guerra das Cruzadas, que
de certo modo continua nos dias de hoje na belicosidade entre judeus e árabes;
a essência da filosofia de Hitler e o
histórico recente da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) são um
bom exemplo do que pode acontecer num regime de Poder Único.
O povo brasileiro está aí, gente!
Esse povo que canta suas diferenças na unidade de seu ideário de paz, amor e
prosperidade. Não há nada de errado na postura ética, moral e cultural de
qualquer das partes; negros e brancos, miscigenados de todos os matizes não são
seres antagônicos: são apenas diferentes na aparência, e, todavia, iguais na
intenção de construir uma nação deles, para eles e por eles.
12.07.2008
NOTA DA MODERAÇÃO: Texto
refundido e ampliado e disponibilizado a pedido para outros blogs.