NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

sexta-feira, 29 de junho de 2012


                                      PLURALIDADE CULTURAL



                         Na Bahia, onde está a maior concentração de negros do Brasil, a Timbalada, os Filhos de Gandhi, o Ileaê e um número expressivo de grupos carnavalescos artísticos ou musicais, compositores e artistas variados que cantam as raízes culturais da terra, formam o Aché Music. Em Pernambuco, o frevo, o maracatu, os caboclinhos, o caboclo de vara e um grande número de ritmos musicais e conjuntos populares somente encontrados neste estado, compõem um contexto cultural próprio. Assim, também, no Pará, manifestações populares e uma música excitante somente executada ali identifica o Estado, em particular, e a Região Amazônica, como um todo.

                     No Rio de Janeiro, as escolas de samba pomposas com fantasias milionárias a desfilarem na Avenida Sapucaí contrastam com a miséria das favelas. O Samba, contudo, preside às duas situações extremas. No reinado de Momo, pessoas simples – muitas vezes presas da miséria que é a vida nos morros cariocas e que moram em barracos apertados e em ruas ou becos estreitos e sinuosos se misturam com gente rica, pessoas social e economicamente poderosas, a nata da sociedade carioca. Durante os desfiles carnavalescos da antiga Capital da República ninguém é de ninguém.

                   Em cada Região do Brasil são encontradas manifestações culturais próprias do local. Os diversos estados de cada região, de alguma forma, têm literatura erudita ou popular; o cordel contando as aventuras do imaginário do povo nordestino; músicas de feitio e sonoridade variados que ecoam nas avenidas das cidades ou nos rincões longínquos dessa Nação enorme; artesanato e artes plásticas que identificam culturalmente cada pedaço deste País.

                 Negros, pardos, mulatos, brancos e uma infinidade de cor de pele se misturam num caldeirão cultural que enriquece a paisagem humana do Brasil.

               Claro que há os que veem nessa mistura de sangue uma coisa desagradável,  Há, inclusive, os que identificam nessa miscigenação quase fabulosa das gentes brasileiras as causas do atraso do País. Puro preconceito! Talvez, saudosismo dos tempos coloniais ou imperiais, onde branco era senhor, e negro, escravo.

              Pobres revanchistas, que não aceitam o fato de negros africanos, índios e brancos terem se relacionado nessa cruzada cujo objetivo não era extinguir uma raça, mas, ao contrário, forjar uma nova raça – a raça brasileira - que se manifesta através desse mosaico multicolorido de peles diferentes, músicas típicas, artes regionais diversas que se integram ao conjunto cultural do País.

             Samba, frevo, aché, lundu, carimbó, maxixe, forró, dança de roda; bonecos moldados em barro com características locais; carrancas entalhadas na madeira; bumba-meu-boi; samba de coco; ciranda; vaquejadas; quadrilhas juninas, adaptações do modelo de dança trazido pelos portugueses; fogueiras de Santo Antônio, São João e São Pedro, em cujo ciclo junino predominam as comidas feitas à base do milho largamente cultivado em todas as regiões do Brasil, mas cuidado quase como um ícone religioso nas terras nordestinas, principalmente Pernambuco, Alagoa, Ceará e Bahia; tradições de uma cultura de rezas, promessas com santo casamenteiro como Santo Antônio, quando as moças fazem um ritual curioso visando encontrar seu príncipe encantado;  carros-alegóricos desfilando o rico folclore local nas ruas de muitas cidades; blocos, clubes e troças carnavalescas arrastando multidões pelas ruas do Recife; futebol, praia e sol, muito sol, principalmente no litoral do Nordeste ou nas badaladas praias do Rio de Janeiro. Essa pluralidade cultural é a marca brasileira.

              As manifestações culturais brasileiras têm um tom predominantemente católico; isso se deve à larga tradição da Igreja Católica na vida dos brasileiros, principalmente das camadas mais modestas da população, e em todo o mundo ocidental durante séculos. Mas o Protestantismo, através de suas várias igrejas,  vêm crescendo em todas as regiões e rincões do País. E já há um equilíbrio nessa comparação entre os vários cultos. Essa é uma constatação salutar. O sincretismo religioso, começado na Bahia e se espalhado pelo Brasil inteiro é uma marca histórica e irreversível dessa pluralidade de culturas. Apesar da rejeição de muitas igrejas evangélicas às tradições populares devido a sua origem católica, outras igrejas evangélicas vêm assimilando essas tradições. Já existe nessas igrejas  manifestações paralelas aos eventos folclórcos  antigos, e isto incluem o carnaval, os desfiles de rua e aceitação com nuances próprias das tradições culturais juninas. As diferenças são relativisadas e a convivência social entre os membros de uma mesma família onde há diversidade de fé vai amoldando a resistência e aprimorando o relacionamento entre famílias com esse perfil.  A pluralidade cultural também tem essa marca importante na religião. A hegemonia  no campo da fé, da devoção, da política e da filosofia  é sinônimo de intolerância, perseguição e tortura; tudo que se antepõe ao bom relacionamento entre os povos e não se identifica com a índole dos brasileiros. Isso ficou demonstrado na Guerra das Cruzadas, que de certo modo continua nos dias de hoje na belicosidade entre judeus e árabes; a essência da filosofia de Hitler  e o histórico recente da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) são um bom exemplo do que pode acontecer num regime de Poder Único.

             O povo brasileiro está aí, gente! Esse povo que canta suas diferenças na unidade de seu ideário de paz, amor e prosperidade. Não há nada de errado na postura ética, moral e cultural de qualquer das partes; negros e brancos, miscigenados de todos os matizes não são seres antagônicos: são apenas diferentes na aparência, e, todavia, iguais na intenção de construir uma nação deles, para eles e por eles.

                                                                                          

                                                                                                                          12.07.2008

NOTA DA MODERAÇÃO: Texto refundido e ampliado e disponibilizado a pedido para outros blogs.



 


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