O S I S T
E M A
Todas as pessoas medianamente informadas conhecem alguma forma de sistema. A química, a física, a matemática, a
biologia e principalmente a astronomia, entre outras ciências, têm suas
formulações de sistemas. Mas essas pessoas ficam perdidas diante da afirmação
de que algumas nações – Brasil no meio, ou regiões, são atrasadas por causa do
“sistema”.
Afinal, o que é esse sistema que interfere na vida das
pessoas e trava o desenvolvimento de países ou regiões? Essa discussão pode ser
1) filosófica, com o homem em busca de respostas para os problemas éticos,
familiares ou existenciais que o rodeiam; 2)dogmática, quando se trava no
âmbito da religião, da política partidária ou de ideologias que as pessoas
elegem como suas verdades irrefutáveis. Assim, a discussão será tão
compartimentada quantos forem os temas abordados. Neste artigo vamos exercitar
um pouco de filosofia, que por sua amplitude abrange também aspectos econômicos
e outros temas que venham complementar a
discussão. Nada de terminologia técnica de difícil compreensão para o grande público.
O mundo, pelo menos, teoricamente, tem um órgão
administrativo, legislativo e judiciário supranacional. No caso, a Organização
das Nações Unidas (ONU). Cada etnia localizada num Continente ou grande região
do Planeta tem sua representação multinacional. Cinjamo-nos ao Brasil. Temos os
nossos órgãos institucionais, como o Executivo, o Legislativo e o Judiciário,
bem como seus ramais complementares. Somos uma Federação Republicana, composta
por 26 estados mais o Distrito Federal. Cada uma dessas unidades federativas
tem sua Constituição, suas leis; são independentes no aspecto político, mas
interdependentes por formarem um pacto republicano. A Constituição que
prevalece é a Federal. E esta declara que “todo cidadão é igual perante a lei”,
e mais ainda: que “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”. Assegura
ainda que saúde, educação, segurança, entre outras prerrogativas, são deveres
do Estado e direitos dos cidadãos. Um arcabouço perfeito, exemplo de espírito
democrático e visão humanística. Mas será que isso funciona mesmo na prática?
As oscilações políticas dos grupos de elites determinam o comportamento da
economia; quer dizer, o emprego, os salários e o bem-estar das pessoas estão
condicionados aos ânimos políticos das elites que estão no poder ou detém a
titularidade dos centros de produção, vendas ou serviços. De ordinário as
pessoas reclamam das dificuldades por que passam no seu dia a dia. E põem a
culpa nas elites e nos seus inúmeros interesses. Isto é, no sistema.
Mas será que as elites são tão ruins assim? E o sistema é representado
somente por elas?
A visão que temos da sociedade é uma ótica de conjunto. Quase
sempre esquecemos que também somos parte integrante dessa sociedade. Ao
elegermos nossos vereadores, deputados e senadores nos identificamos com eles.
Por isso, o parlamento em seus três
moldais hierárquicos é a caixa de ressonância da sociedade. E o parlamento é
tão bom ou ruim quanto as pessoas que
delegaram poderes para serem nele representadas. O mesmo conceito se aplica aos
membros do Poder Executivo. Nós os elegemos para gerenciar esse conjunto de
entes institucional chamado Estado. Esse Poder é complexo em sua estrutura; têm
ministros, diretores de estatais e executivos de vários níveis que dirigem
nossos destinos; educação, saúde, segurança, planejamento econômico, receita,
etc., são entes dessa estrutura chamada Estado. Agora, não é fácil coordenar as
atividades dessa gente toda. Pior: cada
pessoa desses órgãos pertence a um determinado grupo político que quer marcar
presença permanente no poder. E para isso lutam por seus interesses e com esse
objetivo podem ir até as ultimas
consequências; podem morrer ou matar. No Judiciário a coisa se repete, embora
sob um aparato de blindagem dos seus membros, que muitas vezes se consideram
inimputáveis. Entra em cena a dicotomia
representada pelo Bem e o Mal. Onde está o Bem ou onde encontrar o Mal? No
eleitor, portanto, em cada um de nós, ou no parlamentar ou executivo que
elegemos? Ou nos juízes e ministros dos tribunais? Principalmente o Supremo
Tribunal Federal (STF), em tese o guardião da Carta Magna e ponto de equilíbrio
do conjunto federativo.
Essa discussão não pode ficar restrita a esse maniqueísmo. Se
há o Mal, cada um de nós pode representar esse estado de espírito; a reciprocidade
é verdadeira. Mas ai estaríamos lidando com imponderabilidades. Essas grandezas
que não podem ser dimensionadas também não podem ser personalizadas.
Correríamos o risco de estabelecer uma sinergia onde o científico estaria
associado ao empirismo especulativo.
Discussão desse porte
subentende subjetividade. Os personagens em apreciação são impessoais. E fazem
parte de um mundo de conjecturas. Assim é como entendemos o sistema.
Mas os efeitos da atuação do sistema são bem reais. Como então definir ou
explicar essa figura? Só um exercício de imaginação pode lançar luzes sobre
essa discussão. Pensemos, então, que o sistema é algo impessoal, embora nós
também façamos parte dele. Em determinadas circunstâncias, nós somos uma perna
ou um braço dele. Então, se é impessoal e se nós, paradoxalmente, somos parte
dele, que coisa é essa que influencia as decisões das elites e ao mesmo tempo
sofre nossas influências?
De raiz etimológica grega (sietemiun), que significa “combinar”, ‘organizar”, o sistema é um conjunto de interesses
que se corporifica numa organização aparentemente imaginária, supra ideológica,
suprapartidária, abstrata mas ironicamente ativa e cujos efeitos todos nós
sentimos. Paira sobre nossas cabeças. É como um ente monstruoso de milhões de
braços a abarcar invisivelmente a sociedade humana em todos os quadrantes do
Planeta, e com infinitos olhos que a tudo veem, a todos controla. Rege os
destinos de todos os povos, acima de qualquer instrumento legal que os organize, Não tem regras nem
princípios, mas objetivos claros como a dominação incondicional de tudo e de todos.
Não é uma individualidade, nem tem pátria; fala todas as línguas e está presente em todos os lugares; não tem
forma, é ambíguo. O sistema é cada um de nós – trabalhadores, intelectuais, políticos,
empresários, estudantes, donas de casa, quando do intuito de garantir nossas
conquistas e preservar nossos privilégios. Essas premissas de posses
individuais se ampliando ao todo; se globalizando. Esses interesses têm a ver
com o espírito do capitalismo, do qual cada um de nós – mesmo se posicionando
ideologicamente como adepto da socialização
dos meios de produção e consumo – é um agente inconsciente. O sistema
seria um mal maior porque é o somatório de males menores dos indivíduos que lhe dão vida. Não interessa ao sistema
se há uma educação de qualidade ou se simplesmente as crianças e os jovens não
estudam; se os professores ganham mal, por isso são desmotivados para ensinar; se
os cidadãos estão recebendo a cobertura de saúde que merecem, se a segurança
das pessoas está sendo uma questão prioritária das autoridades do setor, se o
trabalhador está empregado e com salário que assegure seu bem-estar e de sua
família. É indiferente ao fato de crianças de várias partes do mundo estarem desnutridas,
passarem fome ou morrerem por falta de comida. Nem com outras questões sociais
que afetam as pessoas mais necessitadas em qualquer parte do mundo. O sistema
não ouve, não fala, não indaga nem responde; só age. Age de forma impessoal,
sorrateira; não se preocupa com o fato de uma minoria étnica está sendo
devastada por interesses de grupos rivais nem se incomoda que guerras sanguinolentas
destruam vidas inocentes e a precária infraestrutura de povos dominados por
governos ilegítimos; não parece ter interesses nas questões de relacionamento
internacional ou de ordem social, permitindo que os poderosos sejam cada vez
mais fortes, enquanto os ricos ficam mais ricos e os pobres mais empobrecidos;
que as nações desenvolvidas dominem as subdesenvolvidas; pouco se lhe dá que as
crises financeiras periódicas tumultuem as nações e penalizem os cidadãos. Não
está nem ai para o choque ideológico entre as religiões, do qual, aliás, se
alimenta. No final, o sistema será sempre vencedor, porque
para sua vitória concorrem instituições, governos, empresários e cada um de
nós.
Até quando?
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