NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

sexta-feira, 1 de junho de 2012


                    O   S I S T E M A

Todas as pessoas medianamente informadas  conhecem alguma forma de  sistema. A química, a física, a matemática, a biologia e principalmente a astronomia, entre outras ciências, têm suas formulações de sistemas. Mas essas pessoas ficam perdidas diante da afirmação de que algumas nações – Brasil no meio, ou regiões, são atrasadas por causa do “sistema”.

Afinal, o que é esse sistema que interfere na vida das pessoas e trava o desenvolvimento de países ou regiões? Essa discussão pode ser 1) filosófica, com o homem em busca de respostas para os problemas éticos, familiares ou existenciais que o rodeiam; 2)dogmática, quando se trava no âmbito da religião, da política partidária ou de ideologias que as pessoas elegem como suas verdades irrefutáveis. Assim, a discussão será tão compartimentada quantos forem os temas abordados. Neste artigo vamos exercitar um pouco de filosofia, que por sua amplitude abrange também aspectos econômicos e outros temas  que venham complementar a discussão. Nada de terminologia técnica de difícil  compreensão para o grande público.

O mundo, pelo menos, teoricamente, tem um órgão administrativo, legislativo e judiciário supranacional. No caso, a Organização das Nações Unidas (ONU). Cada etnia localizada num Continente ou grande região do Planeta tem sua representação multinacional. Cinjamo-nos ao Brasil. Temos os nossos órgãos institucionais, como o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, bem como seus ramais complementares. Somos uma Federação Republicana, composta por 26 estados mais o Distrito Federal. Cada uma dessas unidades federativas tem sua Constituição, suas leis; são independentes no aspecto político, mas interdependentes por formarem um pacto republicano. A Constituição que prevalece é a Federal. E esta declara que “todo cidadão é igual perante a lei”, e mais ainda: que “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”. Assegura ainda que saúde, educação, segurança, entre outras prerrogativas, são deveres do Estado e direitos dos cidadãos. Um arcabouço perfeito, exemplo de espírito democrático e visão humanística. Mas será que isso funciona mesmo na prática? As oscilações políticas dos grupos de elites determinam o comportamento da economia; quer dizer, o emprego, os salários e o bem-estar das pessoas estão condicionados aos ânimos políticos das elites que estão no poder ou detém a titularidade dos centros de produção, vendas ou serviços. De ordinário as pessoas reclamam das dificuldades por que passam no seu dia a dia. E põem a culpa nas elites e nos seus inúmeros interesses. Isto é, no sistema. Mas será que as elites são tão ruins assim? E o sistema é representado somente por elas?

A visão que temos da sociedade é uma ótica de conjunto. Quase sempre esquecemos que também somos parte integrante dessa sociedade. Ao elegermos nossos vereadores, deputados e senadores nos identificamos com eles. Por isso, o parlamento  em seus três moldais hierárquicos é a caixa de ressonância da sociedade. E o parlamento é tão bom ou ruim quanto as  pessoas que delegaram poderes para serem nele representadas. O mesmo conceito se aplica aos membros do Poder Executivo. Nós os elegemos para gerenciar esse conjunto de entes institucional chamado Estado. Esse Poder é complexo em sua estrutura; têm ministros, diretores de estatais e executivos de vários níveis que dirigem nossos destinos; educação, saúde, segurança, planejamento econômico, receita, etc., são entes dessa estrutura chamada Estado. Agora, não é fácil coordenar as atividades  dessa gente toda. Pior: cada pessoa desses órgãos pertence a um determinado grupo político que quer marcar presença permanente no poder. E para isso lutam por seus interesses e com esse objetivo  podem ir até as ultimas consequências; podem morrer ou matar. No Judiciário a coisa se repete, embora sob um aparato de blindagem dos seus membros, que muitas vezes se consideram inimputáveis.  Entra em cena a dicotomia representada pelo Bem e o Mal. Onde está o Bem ou onde encontrar o Mal? No eleitor, portanto, em cada um de nós, ou no parlamentar ou executivo que elegemos? Ou nos juízes e ministros dos tribunais? Principalmente o Supremo Tribunal Federal (STF), em tese o guardião da Carta Magna e ponto de equilíbrio do conjunto federativo.

Essa discussão não pode ficar restrita a esse maniqueísmo. Se há o Mal, cada um de nós pode representar esse estado de espírito; a reciprocidade é verdadeira. Mas ai estaríamos lidando com imponderabilidades. Essas grandezas que não podem ser dimensionadas também não podem ser personalizadas. Correríamos o risco de estabelecer uma sinergia onde o científico estaria associado ao empirismo especulativo.

 Discussão desse porte subentende subjetividade. Os personagens em apreciação são impessoais. E fazem parte de um mundo de conjecturas. Assim é como entendemos o sistema. Mas os efeitos da atuação do sistema são bem reais. Como então definir ou explicar essa figura? Só um exercício de imaginação pode lançar luzes sobre essa discussão. Pensemos, então, que o sistema é algo impessoal, embora nós também façamos parte dele. Em determinadas circunstâncias, nós somos uma perna ou um braço dele. Então, se é impessoal e se nós, paradoxalmente, somos parte dele, que coisa é essa que influencia as decisões das elites e ao mesmo tempo sofre nossas influências?

De raiz etimológica grega (sietemiun), que  significa “combinar”, ‘organizar”,  o sistema é um conjunto de interesses que se corporifica numa organização aparentemente imaginária, supra ideológica, suprapartidária, abstrata mas ironicamente ativa e cujos efeitos todos nós sentimos. Paira sobre nossas cabeças. É como um ente monstruoso de milhões de braços a abarcar invisivelmente a sociedade humana em todos os quadrantes do Planeta, e com infinitos olhos que a tudo veem, a todos controla. Rege os destinos de todos os povos, acima de qualquer instrumento  legal que os organize, Não tem regras nem princípios, mas objetivos claros como a dominação incondicional de tudo e de todos. Não é uma individualidade, nem tem pátria; fala todas as línguas  e está presente em todos os lugares; não tem forma, é ambíguo. O sistema é cada um de nós – trabalhadores, intelectuais, políticos, empresários, estudantes, donas de casa, quando do intuito de garantir nossas conquistas e preservar nossos privilégios. Essas premissas de posses individuais se ampliando ao todo; se globalizando. Esses interesses têm a ver com o espírito do capitalismo, do qual cada um de nós – mesmo se posicionando ideologicamente como adepto  da socialização dos meios de produção e consumo – é um agente inconsciente. O sistema seria um mal maior porque é o somatório de males menores dos indivíduos  que lhe dão vida. Não interessa ao sistema se há uma educação de qualidade ou se simplesmente as crianças e os jovens não estudam; se os professores ganham mal, por isso são desmotivados para ensinar; se os cidadãos estão recebendo a cobertura de saúde que merecem, se a segurança das pessoas está sendo uma questão prioritária das autoridades do setor, se o trabalhador está empregado e com salário que assegure seu bem-estar e de sua família. É indiferente ao fato de crianças de várias partes do mundo estarem desnutridas, passarem fome ou morrerem por falta de comida. Nem com outras questões sociais que afetam as pessoas mais necessitadas em qualquer parte do mundo. O sistema não ouve, não fala, não indaga nem responde; só age. Age de forma impessoal, sorrateira; não se preocupa com o fato de uma minoria étnica está sendo devastada por interesses de grupos rivais nem se incomoda que guerras sanguinolentas destruam vidas inocentes e a precária infraestrutura de povos dominados por governos ilegítimos; não parece ter interesses nas questões de relacionamento internacional ou de ordem social, permitindo que os poderosos sejam cada vez mais fortes, enquanto os ricos ficam mais ricos e os pobres mais empobrecidos; que as nações desenvolvidas dominem as subdesenvolvidas; pouco se lhe dá que as crises financeiras periódicas tumultuem as nações e penalizem os cidadãos. Não está nem ai para o choque ideológico entre as religiões, do qual, aliás, se alimenta. No final, o sistema será sempre vencedor, porque para sua vitória concorrem instituições, governos, empresários e cada um de nós.

Até quando?






























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