EDUCAÇÃO
METAS DE AFERIÇÃO E QUALIDADE
O Ministério da Educação (MEC) divulgou nessa 4ª-feira o Índice
de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) do Brasil. A avaliação inclui o Ensino Fundamental I e II e o Ensino Médio. Segundo o
ministro Aloizio Mercadante, houve
avanços na qualidade do ensino desde que o índice foi implantado em 2005.
Opinião é corroborada por alguns diretores de escolas e especialistas em
educação (estes com ressalvas) entrevistados para comentar o relatório
apresentado pelo MEC. Ninguém pode negar que este governo foi o que mais
investiu em educação na nossa história. Mas essa euforia de avanços do ensino no
País está superdimensionada tanto pelo MEC como pelos gestores de escolas que
se pronunciaram. Se houve cumprimento de metas em vários estados, em outros os
índices baixaram. De um certo modo, o relatório mostra uma escola pública com
desempenho melhor do que a escola particular. Essa avaliação parece equivocada.
E perigosa para o futuro da educação no País. As escolas particulares são
aferidas por amostragem, sem obrigatoriedade de participação, o que só deve acontecer
a parir de 2013. O desempenho da rede de ensino ora apresentado baseia-se na
Prova Brasil, aplicada bianualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais (Inep). Essa prova analise a taxa de aprovação e
desempenho dos alunos em português e matemática. Dos 5.564 municípios que
formam as comunidades brasileiras, 5.227 foram avaliados. A nota para aferição
vai de 0 a 10, com média 5, e a média
atingida ficou em 4.1, no Ensino Fundamental, e no Ensino Médio cai par 3.7. Em
Pernambuco, houve queda das médias das
primeiras séries do ensino fundamental privado, comparado o resultado de 2009
com 2011. No Nordeste,
(rede pública) Ceará e Piauí se destacam com melhores notas. Alagoas tem
o Pior desempenho. Já Minas Gerais, no Sudeste e Santa Catarina, na região Sul,
com altos e baixos e casos de repetência, superaram as metas estabelecidas pelo
MEC. No geral, segundo o MEC, a avaliação mostrou que o ensino brasileiro ficou
“na média”. Mas, que tipo de escola pública foi avaliado para criar essa
expectativa de “avanços” na educação pública? É bom ficar atento para essas
avaliações políticas que em nada favorecem a educação. E ter cuidados para não
se destruir a escola particular brasileira. Não se pode comparar uma escola
particular de áreas ditas nobres – como as instituições religiosas e os grandes
e tradicionais colégios das capitais, com uma escola pública de subúrbio. Observe-se
que as escolas públicas que tiveram as
melhores notas nessa avaliação foram as antigas Escolas Técnicas, hoje
Institutos Federais, os Colégios de Aplicação, ligadas às universidades
federais, as escolas elitizadas dos governos estaduais, os Colégios Militares,
os Centros de Formação de Técnicos
Agrícolas; todos esses estabelecimentos de ensino hoje estão elitizados ou
pouco acessíveis aos alunos de famílias de baixa renda. Essas escolas têm laboratórios
de química e física e de outras disciplinas, bibliotecas bem equipadas e
professores bem preparados, com mestrado e/ou doutorado, e é delas que sai o
maior contingente dos alunos aprovados nos vestibulares, beneficiados pelo
Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), pelo Programa Universidade para Todos (Prouni)
e demais programas de estímulo ao ensino no nível de graduação. Esses
estabelecimentos de ensino representam um percentual muito
baixo comparado com o restante das escolas públicas. Veja-se ainda que uma das
escolas avaliadas – o Colégio de Aplicação da UFPE (líder do ranking do 6º ao
9º ano, com média 8.1) tem classe com no máximo trinta alunos, selecionados
numa bateria de testes onde os alunos da escola pública dificilmente conseguem
aprovação. As escolas de subúrbios, a maioria esmagadora do contingente de
escolas públicas, com muitas classes de até 60 alunos, vivem entregues às moscas. Muitas vezes, o que se
observa nessas escolas não é a falta de dinheiro, e sim a má gestão. Em algumas,
até que existem laboratórios de química,
física, informática e bibliotecas, mas na maioria delas essas coisas não
funcionam por falta de pessoal capacitado para lidar com esses recursos
especiais do ensino. Esses laboratórios, bem como as bibliotecas, entretanto,
estão defasados. Os de informática, sucateados pelo tempo, e o acervo das bibliotecas
não atendem às regras gramaticais e literárias hoje em vigor. Os professores da
escola pública localizada nas periferias geralmente são oriundos de família sem
muitos recursos e mal pagos; trabalham
muitas vezes em turnos contínuos, não têm recursos para comprar livros e
revistas especializados. O computador, quando possuem um de qualidade, acaba
sendo a única ferramenta de atualização. Verdade que em Pernambuco o governo doou
aos professores notebooks. E alunos começam a receber tabletes. Mas é
importante frisar - com base na discussão dos mais qualificados especialistas
em educação do País, que esses recursos de mídia eletrônica são ferramentas
complementares do aprendizado, cuja essência deve está concentrada na boa
formação do professor, nos livros impressos e instrumentos tradicionais de
ensino, bem como na definição de políticas públicas para o setor. A implantação
dessas políticas deve levar a uma reavaliação de conteúdo e estratégia do
ensino médio e fundamental - hoje voltada não para o aprendizado e a formação, mas
para aprovação no vestibular; políticas que se
tornam urgentes e necessárias. A escola deve ensinar o aluno a pensar e
não transformá-lo num mero arquivo de dados difíceis de serem processados por
um cérebro mal treinado ou digeridos por mentes sem capacidade de concentração,
quando necessário. O governo, para beneficiar os empresários do setor do ensino
particular, simulou uma reforma do ensino. Criou um 9º ano no fundamental, mas
não ampliou a carga horária nem melhorou o conteúdo do ensino. Em comparação
com países mais pobres, inclusive da América Latina, a educação básica
brasileira está bastante defasada. E se se for comparada com a educação na
China ou na Coréia do Sul, a brasileira está atrasada em séculos. Na
Inglaterra, o ensino de tempo integral combinando leitura, cálculo e
aprendizado de ciências com atividades de recreação que complementam o
desenvolvimento da dinâmica do raciocínio torna a educação uma atividade
lúdica, motivando o aluno. Lá, as classes são bem distribuídas, com vários
professores em cada uma delas, e têm até 25 alunos. Educação de qualidade é a
base para o desenvolvimento econômico, político, social e cultural de qualquer país. E educação começa na pré-escola,
com atividades lúdicas, como jogos apropriados a idade e afazeres que estimulem psicologicamente a criança, fazendo-a
identificar-se com as letras, os números,
os ambientes familiar e social, e iniciar-se nos misteres da cidadania. O
Brasil precisa de uma educação séria, feita por gente séria e gerida por
autoridades competentes. Despolitizar o processo educativo do Brasil,
tornando-o mais profissional e de ação continuada, fará com que num futuro
próximo tenhamos uma aferição da qualidade da nossa educação mais confiável e
transparente.
Ora, diante do que vimos acina, como pode os alunos de uma escola pública de subúrbio competir num vestibular, num
concurso público ou na seleção para um
emprego de alta qualificação com os alunos de uma escola particular encravada
em bairros de classe nobre? Nas periferias, e em municípios do interior, muitos
alunos estão matriculados nas escolas públicas, mas a verificação de frequência
indica que poucos frequentam as aulas. Em regiões mais carentes, alunos
pertencentes a famílias de baixa qualificação escolar ou simplesmente
analfabetas só vão à escola por causa da merenda. Os políticos embolsam o
dinheiro da merenda, e o resultado são classes quase vazias. A distância em que
ficam as escolas, a falta de transporte escolar nessas comunidades pobres é um
dos fatores mais relevantes para a baixa presença de crianças e adolescentes
nas salas de aula. Por causa dos
incentivos à graduação, e medidas que o complementam, muitas escolas
particulares sofreram redução do alunato, enquanto algumas fecharam as portas.
Essas escolas ministram principalmente o ensino médio. A política de cotas para
as universidades, embora importante para o resgate da dívida social para com descendentes
de grupos populacionais injustiçados há décadas, empurra os alunos do ensino
médio da escola particular para a escola pública, inchando-a. As escolas de
tempo integral são importantes para melhorar a qualidade do ensino, mas sua
implantação tem reduzido o número de alunos matriculados nas escolas onde o
sistema foi implantado, com os excedentes encaminhados para outras escolas. Mas
falta investimento na construção de novas escolas, e esse déficit de unidade de
ensino, principalmente nas áreas periféricas mais povoadas, é inaceitável. A ausência de
programas extracurriculares torna o ensino cansativo, o que desestimula os
alunos. A falta de atividades físicas, principalmente jogos de campo ou de mesa,
bem como o excesso de horários vazios por falta de professores, não motivam os
alunos. Dessa forma, o mau funcionamento da escola pública abre espaço
para ações perniciosas, e uma janela
para a entrada das drogas. Verdade que as drogas estão mais infiltradas na
escola particular que na escola pública. E não se trata aqui de defender a
escola particular, mas o equilíbrio do ensino brasileiro. É indispensável a
existência da escola particular nos níveis fundamentais e médio nas atuais
condições da educação no Brasil. Impactada, a escola pública desses níveis perderá mais qualidade e isso irá agravar ainda mais o quadro da educação no Brasil. O
fim desse tipo de escola particular levará milhares de professores ao
desemprego, já que o governo não terá como acomodá-los nos seus quadros
docentes.
-NOTA DA MODERAÇÃO. O Blog do Emílio tem primado pela defesa da escola pública de qualidade, em tempo integral, gratuita e acessível a todas as camadas da população.
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