NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;
NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;
EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.
NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;
EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
O RIO CAPIBARIBE NASCE NO AGRESTE PERNAMBUCANO E BANHA A CIDADE DO RECIFE, CORTANDO-A EM VÁRIAS DIREÇÕES E SEPARANDO BAIRROS DA CAPITAL. IMPROPRIAMENTE CHAMADO DE "VENEZA BRASILEIRA", RECIFE TEM SUAS CARACTERÍSTICAS PRÓPRIAS E UMA HISTÓRIA DE LUTAS, INVASÕES E RESTAURAÇÕES POLÍTICAS. RECIFE É A CIDADE DOS RIOS E DAS PONTES, DAS PRAIAS E DOS COQUEIRAIS. ESSAS CARACTERÍSTICAS A IDENTIFICAM E A TORNAM ÚNICA.
domingo, 24 de novembro de 2013
O
DANÇAR E O CANTAR DO NORDESTE
Até ai por volta dos
anos 50, antes que a televisão se instalasse no Brasil, o país era um imenso
laboratório a céu aberto de observações do nosso povo e dos costumes da nossa gente. E quando a TV chegou aos mais recônditos sertões do Brasil, foi
possível se ter uma visão mais geral desse mosaico cultural que é o nosso País, com seus diferentes
falares, comeres, cantares e dançares. O
rádio, então restrito às capitais e algumas cidades grandes - e embora uma
ferramenta importante na divulgação do nosso jeito de ser, era limitado nessa tarefa de mostrar as
cores da nossa gente e os ambientes
variados da paisagem social do Nordeste.
Até então, o Nordeste era divulgado através das composições de Luiz Gonzaga, Zé Dantas,
Humberto Teixeira, Sivuca e outros expoentes da música regional. O baião,
ao lado do xote e do xaxado, era a forma mais presente de expressão da
cultura dessa época. Mas a música nordestina também invadia os auditórios do
Rio de Janeiro. Enquanto no Nordeste o baião, o xote, o xaxado e outras gêneros
musicais predominavam, no Rio o
samba marcava presença. Aqui, o tema era a seca e o sofrimento
do sertanejo; lá, em meio aos enlevos românticos de Ari Barroso e outros
autores, o samba destacava a cultura afro-brasileira. Nos morros cariocas as
rodas de samba homenageavam a mulata e os santos guerreiros do sincretismo
religioso tipicamente brasileiro.
Nessa fase de nossa
história, as grandes cidades-polos
nordestinas como Caruaru e Campina Grande viviam seu apogeu artístico.
Outras cidades também tinham participação ativa nesse processo de consolidação
cultural. Carpina, Juazeiro, Palmares, Goiana, entre outras, contribuíram para
a formação de grupos artísticos regionais. Cada uma dessas cidades se igualava
na verdade a tantas outras no que tange ao cenário econômico e cultural visível
por quem as visitava. A cena principal era a feira, então sempre aos domingos.
Centro de atração de artistas ambulantes, sanfoneiros e violeiros, a feira de
cada cidade do Agreste e do Sertão vendia de tudo produzido na época. A música
desses artistas era como um pregão anunciando as riquezas de cada terra.
Tecidos, sapatos, aviamentos para costureiras e para vaqueiros, produtos
agrícolas, carnes “verde” de boi e de porco, galinhas e perus vivos, peixes
salgados, entre outros, eram vendidos nas barracas dos feirantes ou expostos no
chão mesmo. Não faltava o barbeiro atendendo sua clientela no meio da feira e
aquela barraca onde se vendia pinga. Símbolo dessa época, o forró de Sivuca
intitulado Feira de Mangaio e interpretado por Clara Nunes diz por si só o que
era a cidade do interior. Clic no link abaixo e confira.
-Nota da moderação: a música citada no fim do texto está no Facebook.
-Nota da moderação: a música citada no fim do texto está no Facebook.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
PATE IV
Relembremos agora o cenário comercial da Rua de Jangada, para em seguida
tratarmos do panorama social daquele povoado de estrutura complexa. Como já foi dito, a Rua Pedro Marinho era a
avenida que dava acesso ao lugar. Começando na linha do trem, a rua ia subindo
de nível à proporção que avançava em direção ao povoado de palha. Na esquina
oposta da travessa Pedro Marinho – uma das duas travessas existentes – ficava a
mercearia principal. O proprietário, seu Simões, era um homem de cor branca,
boa estatura e bem cheinho de corpo. Homem inteligente, com boa bagagem de
conhecimentos. Casado, esposa de prendas domésticas; duas filhas que estudavam
para professora. O estabelecimento era uma construção de dois corpos. Na
frente, o ponto comercial; loja ampla, com duas entradas frontais e uma
lateral. Portas largas. Mercadorias para todos os cantos, até na calçada,
encostadas à parede. Atrás, a residência da família. Casa confortável, com
ampla sala, três quartos, a cozinha e o banheiro. Na mercearia de seu Simões
podia se encontrar de tudo. Desde agulhas de mão a aviamentos para costureira;
alguns cortes de tecidos, peças de alumínio, ferro de passar (à brasa, nesse
tempo não existia ferro elétrico), carvão, ferramentas diversas; artigos para
construção, limpeza e higiene pessoal, pintura e querosene – que era o
combustível para a iluminação doméstica da maioria da população naqueles dias
de guerra. E alimentos. Nessa época de baixa remuneração salarial para os
trabalhadores sem qualificação, que era a grande maioria do povo da cidade nessa
fase de história da cidade, comprar um quilo de determinados alimentos era
privilégio de poucos. Assim, café, açúcar, farinha, feijão, arroz, bolachas e
outros produtos eram adquiridos em pequenas quantidades. Pequenos embrulhos,
quase papelotes, contendo esses produtos já estavam religiosamente pesados e disponíveis numa
parte do balcão. Tinham pesos variados. Custavam alguns tostões, de acordo com
a capacidade de compra de cada freguês. A moeda já era o cruzeiro, mas o que corria mesmo era
o rés. As frações dessa moeda eram ainda ouvidas ali na mercearia e na feira.
Um tostão de café, dois tostões de farinha, duzentos rés de feijão, duzentos e
cincoenta rés de arroz, quinhentos rés de charque... Os pequenos papelotes
previamente pesados facilitavam a comercialização dos produtos. Cebola e alho
em pencas penduradas nas quinas da mercearia e expostas à porta principal. E
bananas também. Bebidas, com destaque para os vinhos; aguardente de várias
marcas expostas em prateleiras com portas guarnecidas de vidros. Nessa época a
cerveja ainda não tinha chegado aos lugares mais populosos (que não dispunham
de geladeira). Vassouras de piaçava, espanador, candeeiro, fogão de lata,
pequenos fogões de ferro, pá, enxada, martelo, serrote, prego, brochas,
tamanco, chinelos de couro e sapatos de lona (conga). Enfim, tudo que se
precisava no dia a dia daquela gente podia ser encontrado na mercearia de seu
Simões.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
terça-feira, 19 de novembro de 2013
O QUE
SOU?
Sempre tive aversão a rótulos.
Comecei a escrever ai por meus 14 anos.
Tentava descrever o ambiente que me cercava. Quase tudo
que escrevi até aos 20 anos foi perdido.
Fiz um curso intensivo e extracurricular de jornalismo. Cheguei a
estagiar em jornal de renome da capital. Dos
textos produzidos depois dos 21
anos, organizei seis livros. O mais importante,
que conta minha história e a saga da minha família, posso dizer que foi
vetado por algumas editoras que procurei. As outras teriam a mesma postura. Aceitavam publicar o livro se eu o reduzisse
de 364 para 140 páginas. A parte excluída era exatamente aquela em que eu
contava o que vi nos engenhos e nos porões da usina onde residia meu tio. Falar dos atos do coronel-usineiro
ou dos senhores de engenho que imaginavam que a Lei Área era apenas uma peça da
retórica da política nacional era expor as mazelas das elites nordestinas. E ninguém queria “compactuar” com esse “ato insano”. Escrevia, e ainda
escrevo, por puro diletantismo
literário. Sem compromisso com essa reserva moral sem qualquer moral de uma
sociedade desumana liderada por elites
hipócritas e carcomidas pelo vírus da teoria da supremacia flexibilizada
do mercado. Fiz alguns versos, e um caderno onde os redigia a grafite tomou
rumo que ignoro. Talvez uns 80 sonetos.
Vendo a realidade da imprensa nordestina e das letras brasileiras, cheguei a conclusão de que ninguém vive do
jornalismo nem dos livros que escreve. Vez por outra, encontro voando pelos
cantos de paredes da minha casa páginas do meu
livro. Editá-lo agora seria um esforço sobre-humano de catar agulhas no palheiro. Se valesse a pena. Minhas costas, de si já
sensíveis pelos bicos de papagaio lombares e cervicais, com certeza
protestariam com furor se eu inventasse passar
dia e noite preso a um teclado.
Teve uma época em que eu talvez mordesse alguém que me rotulasse de
jornalista. E eu debocharia de mim mesmo se alguém me chamasse de escritor ou
poeta. Sou apenas um velho, antigo integrante do serviço publico federal, que
vive dos vencimentos da inatividade. Pelo menos, isso me dá tranquilidade e me
poupa de rótulos inócuos que certamente me perturbariam. Escrever é criar
atritos, abrir feridas sociais e pisar
no dedo podre de quem está no poder, as
mesmas pessoas de ontem e de hoje.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Mulher negra
15 de novembro de 2013 às 15
(Carlos de Assumpção)
Eu canto tua beleza
A noite da tua pele
A luz estrelar de teus olhos oblíquos
O chocolate de teus lábios grossos
O luar de teu sorriso
Os teus cabelos que não se desalinham
Ao sopro do vento
Eu canto tua beleza
Tua graça noturna
A música da tua voz
A dança de teus passos
O ritmo do teu andar
Eu canto tua beleza
Tua suavidade de sombra
Tua graça noturna
O mistério do teu corpo
Esculpido em ébano
Eu canto tua beleza
A noite de tua pele
A luz estrelar de teus olhos oblíquos
O chocolate de teus lábios grossos
O luar de teu sorriso
Os teus cabelos que não se desalinham
Ao sopro do vento
Ao teu encanto de mulher.
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
DIABETES
O diabetes não é apenas
mais uma doença que acomete o ser humano. O diabetes é uma doença devastadora.
Silenciosa nos primeiros estágios, vai afetando partes importantes do
organismo. A queda de produção de insulina pelo pâncreas prejudica o
funcionamento de muitos outros órgãos. O cérebro, o coração, os rins, o fígado,
a visão, as artérias, veias e capilares
podem ser afetados de forma irreversível. A vida moderna, com as mudanças de hábitos
alimentares propiciadas pela tecnologia de produção de alimentos prontos; o
computador, prendendo crianças, jovens e adultos a uma cadeira de onde só
levantam para satisfazer algumas necessidades vitais. Enfim, essa combinação de
erros alimentares com sedentarismo, associada ao hábito de fumar, beber, desencadeia uma série de doenças irmãs ou antecessoras do
diabetes. A obesidade, a hipertensão arterial, as taxas altas de colesterol,
triglicerídeos e outros elementos bioquímicos produzidos pelo organismo,
aliadas ao aumento de açúcar no sangue, podem resultar na formação de trombos
nas artérias do coração, dos pulmões ou
do cérebro. Vêm dai os Acidentes
Vasculares Cerebrais (AVC), os episódios cardiorrespiratórios (enfartos do miocárdio),
com seu cortejo de mortes. Sem esquecer as complicações renais, que podem levar
a uma máquina de hemodiálise, um trasnspante do órgão.
Há tratamento para o
diabetes. O mais importante é fazer a prevenção, evitando os alimentos
industrializados, as comidas de lanchonetes, as gorduras, animais ou vegetais, as guloseimas, reduzir o consumo de açúcar e sal, fazer
exercícios regulares, não fumar nem beber. Mude seus hábitos, seu organismo vai
ficar mais robusto e sua família vai
agradecer.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
CUIDADO COM SUAS EMOÇÕES
Amizade não é amor; amor não é
paixão.
Amizade é um sentimento nobre,
fraterno, um elo que pode durar a vida toda numa relação de afeto, respeito e
identidade, ou se quebrar se essa relação não for sincera, clara, despojada. Paixão é aquela coisa ardente, arrebatadora,
louca, irresponsável, quase sem limites, que
esfria se sentimentos menos nobres entrarem como elementos competidores
numa relação paralela. O amor é aquele sentimento sublime, cúmplice, dosado,
responsável, preservador, restaurador, edificante, de compromisso. Compromisso
com a vida, com a verdade, com a
segurança, a realização e o bem- estar da pessoa amada. Mais do que um sentimento, o amor é uma atitude de fidelidade, de renúncia,
de renovação de rumos.
Se você ama, você respeita. Se
você ama, você se habitua a esperar com
carinho a pessoa amada ou a se condiciona
àquela condição de prazer ao chegar e encontrar a (o) parceiro (a) bem.
Defina suas emoções, e busque os
rumos de sua vida. Não se iluda. As emoções de uma paixão são quentes como fogo
de palha, e dependendo da intensidade e durabilidade dessas emoções você pode sofrer avarias na
sua estrutura neurológica. Todo sentimento
intenso, repetido e não controlado, se transforma em doença. E é isso o que a
paixão é: doença.
Dose sua vida! Aproveite bem seu
tempo. Não esqueça que energias gastas desnecessariamente hoje podem faltar
amanhã. Se você não for prudente, poderá amargar um fim de vida atribulado, sem saber
se valeu a pena aqueles dias de emoções
descontroladas ou prazeres reprimidos.
A SERRAÇÃO AZUL
As nuvens se formavam ao entardecer daquele dia primaveril. O
ar quente batia no rosto das pessoas demandando às belezas da mata sul. O carro
corria pela estrada de barro deixando para trás a poeira levantada pelo
deslocamento do ar provocado pela dinâmica do movimento do veículo. A
paisagem não mudava ao redor. Só à
distância, alguns pingos da quase extinta
mata atlântica coroava montes e serras. No mais, o imenso canavial a cobrir de verde tudo que ficava pelo caminho ao passar do carro. Aqui e ali,
casas grandes e casarios iam se apresentando aos viajantes lembrando a eles que engenhos produtores de cana-de-açúcar
fizeram outrora a riqueza das cidades por onde passavam e de toda a região
Nordeste. E também os faziam refletir sobre os horrores que dominaram aquelas
terras nos tempos da escravidão. As
casas grandes, algumas suntuosas outras muito discretas em suas arquiteturas,
eram o que restou do fausto escravagista. O casario desforme de paredes
continua são os resquícios das antigas senzalas. Como companheiro de viagem que
faz a rota inversa, os rios assoreados e sem as antigas proteções de paredes
vegetais de gramíneas que se lançavam ao leito e de ingazeiros cujas bagens
estalavam projetando os gomos que alimentavam peixes e pássaros. Estrada
estreita e sinuosa, subindo e descendo na conformidade topográfica do terreno
ainda desgastadas pelas chuvas do inverno indispensável a consolidação do
canavial e ao existir dos rios. Pássaros em bandos passavam em direção às
matas. Os bois de cambão ainda presentes no pátio dos cercados do engenhos.
Da ladeira de
aproximação da usina Serro Azul descortinava aos viajantes aquele
panorama encantador. As serras antes de
Bonito, contrastando com o deserto à esquerda, se sucedem em cadeia encimadas por nuvens de coloração azulada. O espetáculo da
serração extasia turistas e viajantes. E
ainda não é devidamente explorado aquele paraíso de gases diáfanos que se pronuncia mais
encantador nas manhãs de inverno quando o sol lá por trás do horizonte lança
seus raios sobre as nuvens.
-Trechos do meu
livro Sonhos e Ruinas – Pingos de Memória de um Ser quase Espedaçado.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
MODERNIDADES
Quando criança eu ia à
escola portando apenas um caderno e um lápis. A escola guardava uma cartilha que era de usufruto de toda a classe. Quando
a família podia comprar o livro, esse ficava em casa para o estudante fazer
a releitura dos textos apresentados na
sala de aula. Não havia essa proliferação de livros e autores que hoje enriquecem
o conhecimento dos alunos. Nas provas se utilizava o papel pautado, adquirido
pelo aluno. A professora escrevia as questões no quadro negro para serem copiadas e resolvidas
pelos alunos mais adiantados. Os iniciantes,
recebiam as provas em papel ofício com figuras e letras para serem
pintadas ou cobertas. A exigência do caderno preenchido com todas as matérias ministradas em sala de aula era
requisito básico para assegurar o
aprendizado do aluno. Foi assim que eu fui alfabetizado.
Hoje, o ensino utiliza
muitos processos modernos na aprendizagem, os recursos de mídias escritas, faladas e
eletrônicas. O jornal, as revistas, o rádio, a televisão aberta ou a cabo, o computador,
quer com o word que ensina a escrever, corrigindo as impropriedades linguística,
ou incorporando a internet de utilidades mil, são importantes meios auxiliares
de aprendizad. Os computadores de mão, os tablets, o celular com seus diversos aplicativos e outras formas modernas de comunicação revolucionaram o
processo de aprendizagem e tendem a um aperfeiçoamento continuo. Os livros
eletrônicas rivalizam com o livro impresso, e para escrever já não precisamos de lápis, canetas, borrachas,
escovas; o computador realiza todas essas funções.
Nada contra as
novidades tecnológicas. Mas que saudade do meu grafite e do meu caderno!
Esferográfica foi inovação ai entre meados e final dos anos 50 do século vinte.
Mas a verdade é que esses recursos tecnológicos de hoje forçam a acomodação da
retina, secam nossos olhos. Esperamos que as futuras gerações midiaticas não sejam compostas por por legiões sob correções visuais. Mas a tecnologia é a realidade do mundo dos nossos dias. As novas
gerações já se educam sob o império das mídias tecnológicas cada vez mais
abrangentes, e quem se educou sob o rigor do caderno e do grafite terá forçosamente que se adaptar aos novos
tempos. As gerações das décadas 20-30 são os bárbaros amoldando-se às
imposições das modernidades.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
A MARCA DO
PODER
Emílio
J. Moura
Chuvas torrenciais maltratavam a
face quase nua daquelas terras. Os córregos pareciam correntezas, cada trilha
escavada na descendência pelos pés dos matutos
virava um rio. O rio propriamente dito, este carregava um volume de água
há muito tempo não visto por aquelas bandas. O lamaçal tomava conta das partes
mais altas, e as estradas de barro não permitiam passagem. Os açudes já
arrebentaram há vários dias e a terra ficava cada vez mais desprotegida nas
partes mais planas e nas pequenas encostas de vegetação rasteira e escassa.
Água demais – e má distribuída – para uma região pouco produtiva e de
topografia tão desigual.
Aliança, Machado, Goiana e
adjacências possuíam áreas marcadas pela pobreza do solo. Essas áreas ainda
hoje integram um polígono de seca. As chuvas são escassas e a seca castiga
periodicamente aquela região. A fúria das águas que escavava aquela vasta área
castigada pela irregularidade do solo e pela pobreza de nutrientes deste solo
era um acontecimento raro. E o uso irracional das terras só complicou a
situação de proprietários, posseiros e agricultores sem terra que tiveram a
infelicidade de nascer ou viver nessas terras. Assim, quando era época de
pouca, ou nenhuma chuva, as culturas não progrediam por não haver nutrientes nas
terras onde foram plantadas. Mas, quando havia chuvas intensas, o espetáculo
narrado no início tornava aquela situação ainda mais insustentável. Um rio de
águas salobras alimentadas por minerais encontrados em todo seu percurso ainda
hoje faz padecer boa parte da população desses lugares, por falta de água
apropriada para o consumo humano. De nada vale a estação de tratamento
instalado pela empresa pública encarregada do serviço, se ela não foi projetada
para dessalinizar a água servida a essa população.
Mas essas terras já tiveram outra
função. Já foram usadas para o cultivo da cana e de raízes densas como inhame e
macaxeira. Já foram campos de produção de cereais, como o feijão, o milho e
outros mais. Não eram, essas terras, o que se pode chamar um celeiro, mas o que
se produzia ali deu para fazer a fortuna de muitos patrões que compraram
títulos de oficiais da guarda nacional. Foi o caso do coronel Zuza. Homem
desletrado, mas experiente e destemido, o coronel Zuza adquiriu dos pais por
herança um pequeno sítio. Seu arrojo empreendedor transformou a gleba num rico
e próspero engenho produtor de cana-de-açúcar. As terras mais em declive ele
aproveitou para cultivar inhame. Depois de algum tempo, já vendia toneladas do
produto, além de fornecer a cana para as usinas locais. Amealhou riquezas,
construiu casa grande que mais parecia um palácio. Impôs-se como senhor de terras e de gente,
embora não existisse mais o regime da escravidão.
Coronel Zuza montava os cavalos mais
bonitos e fortes que podia encontrar. Suas selas eram especialmente
confeccionadas, sob encomenda. Detalhes dourados nas margens, com encraves de
pedras que reluziam à luz do sol. Coxim de veludo e estribos brilhantes;
arreios de material trançado. Tudo dele era especial. Mas o coronel não gostou
de ver um concorrente desfilando perto de suas terras num carro de passeio. Foi
até à capital, e numa agência de automóveis escolheu o modelo mais bonito, que
era também o mais caro. Acertou os pormenores da compra do veículo, o prazo da
entrega. Com aquelas exigências todas, o carro só chegaria muitos meses depois.
Topou! Pagou tudo à vista. Quase oito meses depois, a agência informa ao
coronel Zuza da chegada do carro e foi entregá-lo na porta da casa grande do
engenho. O coronel admirou as linhas do veículo, gostou das cores listradas na
porta do carro e da placa anunciando o nome do proprietário. Tudo estava quase
ultimado, quando o coronel franziu o sobrolho. Fechou a cara e abanou a cabeça
em sinal de desagrado.
-Falta uma coisa nesse carro
sem a qual eu não o aceito!, sentenciou o coronel.
-Diga o que é, coronel, e nós
providenciaremos de imediato, afirmou o gerente da agência presente no engenho.
O coronel escreveu alguma coisa num papel e o entregou ao homem da agência.
Outros oito meses se passaram, e o carro finalmente voltou ao engenho. E o
coronel encheu-se de orgulho, concluindo o negócio. Tudo ficou claro naquele
momento. Qualquer bem do coronel Zuza teria de ser diferenciado. Ninguém
poderia opor-lhe qualquer tipo de concorrência, porque ele era o homem mais
rico de todas aquelas redondezas. E isso deveria ficar bem explicitado em tudo
que era seu. Que exigência era essa que o coronel fazia para aceitar o carro
pago há já quase dois anos? Afinal, carro era carro, e o entregue ao oficial da
guarda nacional possuía requisitos e equipamentos jamais vistos em qualquer
outro carro no Brasil inteiro. Tudo ficou devidamente esclarecido, quando
viajando pelas estradas de barro da região, os pneus do luxuoso carro deixavam
gravado no chão: Coronel Zuza, senhor de engenho do Riachão.
01.05.1983
.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
SINCRETISMO E CRISTIANISMO
Os cultos afro brasileiros
participam ativamente do calendário de eventos regionais e nacionais. E fazem
parte do cotidiano da vida dos brasileiros.
Quando se fala de cultos afro
brasileiros se está falando do enorme mosaico cultural que constitui a face
social da população brasileira. São inúmeras as tendências representadas nesse
mosaico. Música, dança, vestir, formas comportamentais, entre outros itens,
identificam as origens dos adeptos e seguidores desses espectros religiosos. Em
qualquer parte do Brasil – mas predominantemente na Bahia, os grupos afrodescendentes
exercitam a arte dos seus ancestrais
africanos que sofreu influência da cultura cristã, e num cenário que é
tipicamente brasileiro criou um estilo de vida que nos identifica mundo
afora. A sonoridade dos ritmos
baianos domina o ambiente das festas dos
brasileiros e as organizações desses grupos pluriculturais, embora as especificidades de cada um, desaguam na
unidade de uma raça formada a partir de povos e costumes diversos. O samba, que criou
forma nas cantorias dos morros cariocas
a partir dos fins da década de trinta do século XX, é, contudo, o
elemento de ligação de toda essa diversidade cultural do Brasil. Elo de uma
corrente que abarca o País, o samba está presente em todas as regiões do Brasil
e é o embaixador do País nos eventos festivos internacionais que celebram nosso
povo. E toda essa rica expressão cultural está expressa em forma de fé
religiosa.
O sincretismo religioso não é um
fenômeno apenas da Bahia, mas uma presença marcante em todo o Brasil.
Maracatus, candomblés, xangôs e uma enorme riqueza de cultos, são manifestações
não apenas folclóricas, mas também religiosas das formas de fé dos povos negros
que participaram da formação da nossa sociedade. Os santos dos cultos afro
brasileiros são os mesmos do culto católico, e boa parte dos frequentadores da
Igreja Católica são também praticantes
dos cultos de origem africana. Mas o fenômeno se repete, de forma sorrateira,
em outros cultos cristãos. Há igrejas cristãs nas quais o ritual de cura foi
tomado de empréstimo aos afros. E adeptos dessas igrejas frequentam cultos
afros. Nada de anormal. Afinal, são cristãos de visões de vida diferentes, mas
ainda assim cristãos. Temos que realçar
as formas de discriminação latentes entre os integrantes de um mesmo
culto, e as consequência disso no relacionamento entre as várias religiões
cristãs. Ninguém precisa abdicar de sua fé, mudar de igreja. O Cristianismo é
um chapéu sob o qual podem se agasalhar todas as tendências religiosas afins ou
assemelhadas. Essa, aliás, parece ser a linha de ação de S.S. o papa Francisco. O autor, que estuda
religiões há mais de quatro décadas, não é membro de nenhuma delas. Mas
incentiva a criação de formas comportamentais que universalize a prática
religiosa. Essa discussão é apropriada nesse momento em que se comemora o Dia
da Fé Cristã, o Dia de Todos os Santos e antecede o Dia de Finados. Afinal, são
conceitos diferentes de uma mesma grandeza.
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