NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

                                                   PATE  IV

  Relembremos agora o cenário comercial da Rua de Jangada, para em seguida tratarmos do panorama social daquele povoado de estrutura complexa.  Como já foi dito, a Rua Pedro Marinho era a avenida que dava acesso ao lugar. Começando na linha do trem, a rua ia subindo de nível à proporção que avançava em direção ao povoado de palha. Na esquina oposta da travessa Pedro Marinho – uma das duas travessas existentes – ficava a mercearia principal. O proprietário, seu Simões, era um homem de cor branca, boa estatura e bem cheinho de corpo. Homem inteligente, com boa bagagem de conhecimentos. Casado, esposa de prendas domésticas; duas filhas que estudavam para professora. O estabelecimento era uma construção de dois corpos. Na frente, o ponto comercial; loja ampla, com duas entradas frontais e uma lateral. Portas largas. Mercadorias para todos os cantos, até na calçada, encostadas à parede. Atrás, a residência da família. Casa confortável, com ampla sala, três quartos, a cozinha e o banheiro. Na mercearia de seu Simões podia se encontrar de tudo. Desde agulhas de mão a aviamentos para costureira; alguns cortes de tecidos, peças de alumínio, ferro de passar (à brasa, nesse tempo não existia ferro elétrico), carvão, ferramentas diversas; artigos para construção, limpeza e higiene pessoal, pintura e querosene – que era o combustível para a iluminação doméstica da maioria da população naqueles dias de guerra. E alimentos. Nessa época de baixa remuneração salarial para os trabalhadores sem qualificação, que era a grande maioria do povo da cidade nessa fase de história da cidade, comprar um quilo de determinados alimentos era privilégio de poucos. Assim, café, açúcar, farinha, feijão, arroz, bolachas e outros produtos eram adquiridos em pequenas quantidades. Pequenos embrulhos, quase papelotes, contendo esses produtos já estavam  religiosamente pesados e disponíveis numa parte do balcão. Tinham pesos variados. Custavam alguns tostões, de acordo com a capacidade de compra de cada freguês. A moeda  já era o cruzeiro, mas o que corria mesmo era o rés. As frações dessa moeda eram ainda ouvidas ali na mercearia e na feira. Um tostão de café, dois tostões de farinha, duzentos rés de feijão, duzentos e cincoenta rés de arroz, quinhentos rés de charque... Os pequenos papelotes previamente pesados facilitavam a comercialização dos produtos. Cebola e alho em pencas penduradas nas quinas da mercearia e expostas à porta principal. E bananas também. Bebidas, com destaque para os vinhos; aguardente de várias marcas expostas em prateleiras com portas guarnecidas de vidros. Nessa época a cerveja ainda não tinha chegado aos lugares mais populosos (que não dispunham de geladeira). Vassouras de piaçava, espanador, candeeiro, fogão de lata, pequenos fogões de ferro, pá, enxada, martelo, serrote, prego, brochas, tamanco, chinelos de couro e sapatos de lona (conga). Enfim, tudo que se precisava no dia a dia daquela gente podia ser encontrado na mercearia de seu Simões.
     



 -Trecho do meu livro A Rua de Jangada, uma releitura de outro livro Sonhos e Ruínas - Pedaços de Memória de Um ser Quase Espedaçado.

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