PATE IV
Relembremos agora o cenário comercial da Rua de Jangada, para em seguida
tratarmos do panorama social daquele povoado de estrutura complexa. Como já foi dito, a Rua Pedro Marinho era a
avenida que dava acesso ao lugar. Começando na linha do trem, a rua ia subindo
de nível à proporção que avançava em direção ao povoado de palha. Na esquina
oposta da travessa Pedro Marinho – uma das duas travessas existentes – ficava a
mercearia principal. O proprietário, seu Simões, era um homem de cor branca,
boa estatura e bem cheinho de corpo. Homem inteligente, com boa bagagem de
conhecimentos. Casado, esposa de prendas domésticas; duas filhas que estudavam
para professora. O estabelecimento era uma construção de dois corpos. Na
frente, o ponto comercial; loja ampla, com duas entradas frontais e uma
lateral. Portas largas. Mercadorias para todos os cantos, até na calçada,
encostadas à parede. Atrás, a residência da família. Casa confortável, com
ampla sala, três quartos, a cozinha e o banheiro. Na mercearia de seu Simões
podia se encontrar de tudo. Desde agulhas de mão a aviamentos para costureira;
alguns cortes de tecidos, peças de alumínio, ferro de passar (à brasa, nesse
tempo não existia ferro elétrico), carvão, ferramentas diversas; artigos para
construção, limpeza e higiene pessoal, pintura e querosene – que era o
combustível para a iluminação doméstica da maioria da população naqueles dias
de guerra. E alimentos. Nessa época de baixa remuneração salarial para os
trabalhadores sem qualificação, que era a grande maioria do povo da cidade nessa
fase de história da cidade, comprar um quilo de determinados alimentos era
privilégio de poucos. Assim, café, açúcar, farinha, feijão, arroz, bolachas e
outros produtos eram adquiridos em pequenas quantidades. Pequenos embrulhos,
quase papelotes, contendo esses produtos já estavam religiosamente pesados e disponíveis numa
parte do balcão. Tinham pesos variados. Custavam alguns tostões, de acordo com
a capacidade de compra de cada freguês. A moeda já era o cruzeiro, mas o que corria mesmo era
o rés. As frações dessa moeda eram ainda ouvidas ali na mercearia e na feira.
Um tostão de café, dois tostões de farinha, duzentos rés de feijão, duzentos e
cincoenta rés de arroz, quinhentos rés de charque... Os pequenos papelotes
previamente pesados facilitavam a comercialização dos produtos. Cebola e alho
em pencas penduradas nas quinas da mercearia e expostas à porta principal. E
bananas também. Bebidas, com destaque para os vinhos; aguardente de várias
marcas expostas em prateleiras com portas guarnecidas de vidros. Nessa época a
cerveja ainda não tinha chegado aos lugares mais populosos (que não dispunham
de geladeira). Vassouras de piaçava, espanador, candeeiro, fogão de lata,
pequenos fogões de ferro, pá, enxada, martelo, serrote, prego, brochas,
tamanco, chinelos de couro e sapatos de lona (conga). Enfim, tudo que se
precisava no dia a dia daquela gente podia ser encontrado na mercearia de seu
Simões.
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