NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

                                O  QUE  SOU?

Sempre tive aversão a rótulos. Comecei a escrever  ai por meus 14 anos. Tentava descrever o ambiente que me cercava.  Quase tudo  que escrevi até aos 20 anos foi perdido.  Fiz um curso intensivo e extracurricular de jornalismo. Cheguei a estagiar em jornal de renome da capital. Dos  textos produzidos  depois dos 21 anos, organizei seis livros. O mais importante,  que conta minha história e a saga da minha família, posso dizer que foi vetado por algumas editoras que procurei. As outras teriam a mesma postura.  Aceitavam publicar o livro se eu o reduzisse de 364 para 140 páginas. A parte excluída era exatamente aquela em que eu contava o que vi nos engenhos e nos porões da usina onde residia  meu tio. Falar dos atos do coronel-usineiro ou dos senhores de engenho que imaginavam que a Lei Área era apenas uma peça da retórica da política nacional era expor as mazelas das elites nordestinas.  E ninguém queria “compactuar” com  esse “ato insano”. Escrevia, e ainda escrevo,  por puro diletantismo literário. Sem compromisso  com   essa reserva moral sem qualquer moral de uma sociedade desumana liderada por elites  hipócritas e carcomidas pelo vírus da teoria da supremacia flexibilizada do mercado. Fiz alguns versos, e um caderno onde os redigia a grafite tomou rumo que ignoro. Talvez uns 80 sonetos.  Vendo a realidade da imprensa nordestina e das letras brasileiras,  cheguei a conclusão de que ninguém vive do jornalismo nem dos livros que escreve. Vez por outra, encontro voando pelos cantos de paredes da minha casa páginas    do meu livro. Editá-lo agora seria um esforço sobre-humano  de catar agulhas no palheiro.  Se valesse a pena. Minhas costas, de si já sensíveis pelos bicos de papagaio lombares e cervicais, com certeza protestariam com furor se eu inventasse passar  dia e noite preso a um teclado.  Teve uma época em que eu talvez mordesse alguém que me rotulasse de jornalista. E eu debocharia de mim mesmo se alguém me chamasse de escritor ou poeta. Sou apenas um velho, antigo integrante do serviço publico federal, que vive dos vencimentos da inatividade. Pelo menos, isso me dá tranquilidade e me poupa  de rótulos inócuos  que  certamente me perturbariam. Escrever é criar atritos, abrir feridas  sociais e pisar no dedo podre  de quem está no poder, as mesmas pessoas de ontem e de hoje.

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