O QUE
SOU?
Sempre tive aversão a rótulos.
Comecei a escrever ai por meus 14 anos.
Tentava descrever o ambiente que me cercava. Quase tudo
que escrevi até aos 20 anos foi perdido.
Fiz um curso intensivo e extracurricular de jornalismo. Cheguei a
estagiar em jornal de renome da capital. Dos
textos produzidos depois dos 21
anos, organizei seis livros. O mais importante,
que conta minha história e a saga da minha família, posso dizer que foi
vetado por algumas editoras que procurei. As outras teriam a mesma postura. Aceitavam publicar o livro se eu o reduzisse
de 364 para 140 páginas. A parte excluída era exatamente aquela em que eu
contava o que vi nos engenhos e nos porões da usina onde residia meu tio. Falar dos atos do coronel-usineiro
ou dos senhores de engenho que imaginavam que a Lei Área era apenas uma peça da
retórica da política nacional era expor as mazelas das elites nordestinas. E ninguém queria “compactuar” com esse “ato insano”. Escrevia, e ainda
escrevo, por puro diletantismo
literário. Sem compromisso com essa reserva moral sem qualquer moral de uma
sociedade desumana liderada por elites
hipócritas e carcomidas pelo vírus da teoria da supremacia flexibilizada
do mercado. Fiz alguns versos, e um caderno onde os redigia a grafite tomou
rumo que ignoro. Talvez uns 80 sonetos.
Vendo a realidade da imprensa nordestina e das letras brasileiras, cheguei a conclusão de que ninguém vive do
jornalismo nem dos livros que escreve. Vez por outra, encontro voando pelos
cantos de paredes da minha casa páginas do meu
livro. Editá-lo agora seria um esforço sobre-humano de catar agulhas no palheiro. Se valesse a pena. Minhas costas, de si já
sensíveis pelos bicos de papagaio lombares e cervicais, com certeza
protestariam com furor se eu inventasse passar
dia e noite preso a um teclado.
Teve uma época em que eu talvez mordesse alguém que me rotulasse de
jornalista. E eu debocharia de mim mesmo se alguém me chamasse de escritor ou
poeta. Sou apenas um velho, antigo integrante do serviço publico federal, que
vive dos vencimentos da inatividade. Pelo menos, isso me dá tranquilidade e me
poupa de rótulos inócuos que certamente me perturbariam. Escrever é criar
atritos, abrir feridas sociais e pisar
no dedo podre de quem está no poder, as
mesmas pessoas de ontem e de hoje.
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