A SERRAÇÃO AZUL
As nuvens se formavam ao entardecer daquele dia primaveril. O
ar quente batia no rosto das pessoas demandando às belezas da mata sul. O carro
corria pela estrada de barro deixando para trás a poeira levantada pelo
deslocamento do ar provocado pela dinâmica do movimento do veículo. A
paisagem não mudava ao redor. Só à
distância, alguns pingos da quase extinta
mata atlântica coroava montes e serras. No mais, o imenso canavial a cobrir de verde tudo que ficava pelo caminho ao passar do carro. Aqui e ali,
casas grandes e casarios iam se apresentando aos viajantes lembrando a eles que engenhos produtores de cana-de-açúcar
fizeram outrora a riqueza das cidades por onde passavam e de toda a região
Nordeste. E também os faziam refletir sobre os horrores que dominaram aquelas
terras nos tempos da escravidão. As
casas grandes, algumas suntuosas outras muito discretas em suas arquiteturas,
eram o que restou do fausto escravagista. O casario desforme de paredes
continua são os resquícios das antigas senzalas. Como companheiro de viagem que
faz a rota inversa, os rios assoreados e sem as antigas proteções de paredes
vegetais de gramíneas que se lançavam ao leito e de ingazeiros cujas bagens
estalavam projetando os gomos que alimentavam peixes e pássaros. Estrada
estreita e sinuosa, subindo e descendo na conformidade topográfica do terreno
ainda desgastadas pelas chuvas do inverno indispensável a consolidação do
canavial e ao existir dos rios. Pássaros em bandos passavam em direção às
matas. Os bois de cambão ainda presentes no pátio dos cercados do engenhos.
Da ladeira de
aproximação da usina Serro Azul descortinava aos viajantes aquele
panorama encantador. As serras antes de
Bonito, contrastando com o deserto à esquerda, se sucedem em cadeia encimadas por nuvens de coloração azulada. O espetáculo da
serração extasia turistas e viajantes. E
ainda não é devidamente explorado aquele paraíso de gases diáfanos que se pronuncia mais
encantador nas manhãs de inverno quando o sol lá por trás do horizonte lança
seus raios sobre as nuvens.
-Trechos do meu
livro Sonhos e Ruinas – Pingos de Memória de um Ser quase Espedaçado.
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