A
CONFRARIA DOS PATIFES
Patifaria se tornou uma ação corriqueira nas
relações humanas. Valores éticos são desprezados por políticos,
administradores, empresários. Pior ainda: esses valores são menosprezados hoje
até no seio outrora sagrado da família. A partilha dos quinhões a que os
herdeiros têm direito deixou de ser uma questão de honra, de mérito, para
tornar-se um exercício de esperteza. Ou um problema de violência, com perseguição,
opressão, astúcia, crime ou declarada má-fé. Por conta de heranças, filhos
encomendam a morte dos pais, ou estes contratam bandidos para eliminarem os
filhos. A fraternidade, antes reinante nos clãs familiares e decantada pelos
chefes de famílias, fica de fora nas ocasiões em que é feita a partilha dos
bens de herança.
Uma família
muito conhecida e tida por muito tempo como modelo de convivência pacífica, de
repente põe as garras de fora. Por causa de um barco usado em passeios
turísticos e doado a uma adolescente por seu irmão, o status de civilidade da
família deu com a cara na lama. A questão da propriedade do barco assumiu
contornos impressionantes. Depois de transportar muita gente em visitas a
lugares paradisíacos, o barco se transformou numa pedra no sapato da
adolescente. Seu irmão morreu numa situação trágica, e ai começou o inferno
astral da menina. O morto possuía outros barcos, casas e bens diferentes. Por
confiar excessivamente na honra da família não teve o cuidado de dar nomes aos
bois. Isto é, não registrou devidamente cada bem em nome do parente-herdeiro
que escolhera.
Para complicar, o falecido era um parente-aderente;
não tinha rigorosamente laços sanguíneos com a família em que ainda também
adolescente se inseriu, após a morte dos
seus pais e avós. Complicação maior ficou para a irmã mais nova, a quem doou o
principal barco. É que a menina, por iniciativa dos seus avós antes de
morrerem, foi morar com os padrinhos. Criada com muito mimo e sem outros
cuidados didático-familiares, ela se espelhou na irmã de criação, já adulta e
gestora de negócios hoteleiros. Os padrinhos de Patrícia tinham um casal de
filhos, todos adultos. Desde crianças levaram uma vida livre onde não existia
nenhum limite. O irmão de criação de Patrícia, é, na verdade, uma máquina registradora.
Só pensa em dinheiro. E é capaz de qualquer coisa para conseguir seus intentos
consumistas e dominadores. Apoderando-se do barco, o rapaz usou a renda do
mesmo para montar seu enxoval de casamento, arrumar sua casa e finalmente,
casar. Patrícia, coitada, quando via
algum dinheiro era migalhas que o irmão lhe dava quase à guisa de esmola.
O
tempo passou, e Patrícia agora é adulta. Rebelde, como todo jovem de hoje, dá
um nó na cabeça da madrinha, que gostaria de tê-la sob-reios. A indignação de
Patrícia aumentou depois que o irmão vendeu o barco, sem consultá-la. E numa
dessas manobras espúrias típicas dos negócios das famílias de hoje, pretende
entregar à irmã uma quantia menor que um
terço do valor da venda do barco. Alega, entre outras coisas, que gastou
dinheiro mantendo e reformando o barco. Mas o dinheiro por ele gasto na
conservação do barco foi proveniente da renda do mesmo. E não bastasse ter
explorado a irmã, sonegando-lhe o que de direito lhe pertencia, pretende, com
essa manobra, cobrar indenização por ter cuidado do barco. Useiro e vezeiro na
arte de se apropriar de bens alheios, o irmão de Patrícia teve o despudor de
pressionar e até ameaçar outros familiares para se apossar de bens outros que
ainda estavam sob guarda de outro segmento da família onde de fato morava o
inditoso e verdadeiro irmão de Patrícia. No momento, uma guerra surda se trava
no seio da família. Os padrinhos de Patrícia parece não enxergarem o que está
acontecendo.
Olhando de longe,
alguém pode ter a impressão de que os
padrinhos de Patrícia se alhearam aos fatos que ocorrem sob suas vistas por
pura ignorância. Outros, mais piedosos, podem achar que eles são uns pobres coitados,
manipulados pelos filhos. Outros ainda, poderiam imaginar uma situação em que
um irmão mais velho está cuidado dos interesses da irmã e esta não reconhece os esforços que a família
faz para educá-la e protegê-la. Toda opinião tem seu cunho de relatividade.
Mas, olhando de dentro do olho do furacão familiar que arrasa com os últimos
bens éticos daquela família, o diagnóstico é bem outro. Não há nenhum inocente
ali. Todos têm consciência do que está acontecendo, e os padrinhos de Patrícia
acham, isto sim, que, o filho está fazendo uma coisa certa. Afinal, eles também
serão beneficiados com a patifaria montada pelos irmãos de criação de Patrícia.
E como sucede hoje com a maioria das famílias deste desditoso Planeta, funciona
naquela casa uma verdadeira confraria de patifes.