CONDUZINDO A BOIADA
A boiada caminha lenta ao compasso do aboiador. O marchante
segue à frente recolhendo pelos engenhos e sítios os bois adquiridos deixados
para engorda. Eram só alguns no começo da marcha. Agora são muitas as rezes;
naquele silêncio não imaginam que estão indo para o abate. Cada vez mais rico,
o marchante se integra ao grupo dos peões. Agora é paciência até chegar ao
matadouro. A fatura será alta, com aquela clausula do contrato a lhe
proporcionar a posse do couro dos bois abatidos. Juntando ao que já seca lá na
ilha entre os dois arroios, será necessário contratar caminhão de grande porte para transportar os
couros até ao curtume.
A estrada de barro treme ao passar da boiada. Mas ninguém
percebe esse detalhe, na submissão dos bois ao canto plangente do aboiador.
Ainda restam algumas léguas até chegar
ao destino final. Até lá pode acontecer muita coisa, inclusive nada. Tudo corre
como o panejado. Gado manso, gordo, chifres a se tocarem levemente nos
desníveis do caminho. Os peões esporam seus cavalos treinados nessa lida de
tanger bois. Os quatro cachorros
boiadeiros caminham em silêncio nos seus postos de compressão da boiada.
O capim alto não pode ser usado pelas
rezes tocadas por aquela dinâmica imposta à caminhada. Os gravetos secos
estalam pelo chão ao pisar pesado dos bois. Agora o vale se estreita e a boiada
fica cada vez mais compacta; os boiadeiros se distribuem uniformemente à
frente, atrás e aos lados.
Na várzea de areia branca a se espraiar até à base das
montanhas, o caminhar dos bois fica mais lento, pesado; a areia é fofa e ali
não nasce nem capim rasteiro. Alarga-se a paisagem e à frente, não muito
distante, uma vegetação densa alimentada por veio d’água volumoso que
serpenteia pelo largo vale. A boiada atravessa o rio num ponto onde não há
correnteza. Mas o rio é fundo e os animais nadam vencendo a resistência da
água. Homens de roupas de couro os boiadeiros pouco sentem a ação do rio. Só as botinas se enchem
do líquido daquele veio onde os jacarés se intimidam com o volume da boiada; um movimento simples, e a
água é expelida. O sol forte da tarde se encarrega de secar tudo. Os cães até
gostam daquela aventura que repetem periodicamente.
Agora vem uma vegetação concentrada quase em círculo. Um resto de mata que no seu
isolamento serve de abrigo para pássaros, onças e macacos. A pequena mata é
fechada, protegida por cipós densos entrançados a impermeabilizarem a entrada
para as árvores robustas de verde firme. O caminho não é largo, mas suficiente
para uma passagem segura. De um lado e de outro, pequenos sulcos onde corriam
riachos mortos pelo desmatamento para plantar cana. A cana ainda é rasteira e
suas folhas estão amareladas pela falta de chuvas. Um ocorrido qualquer lá dentro
da mata assanha os macacos e os guaribas, como que defendendo a posse do seu
terreno, emitem de uma só vez um grito horrendo. Os bois se assustam, e num
arranque incontrolável correm em disparada em todas as direções. Num instante, a boiada
se dispersa ao longo de toda a várzea, pisoteando pés de cana. Só o cansaço das
rezes freia o estoura da boiada. Agora os peões precisarão de alguns dias para
localizar, contar e novamente tocar a boiada.
(Extratos do meu livro Sonhos e Frustrações – pedaços de memória de
um Ser quase Dememoreado).
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