NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

                          CONDUZINDO A BOIADA
A boiada caminha lenta ao compasso do aboiador. O marchante segue à frente recolhendo pelos engenhos e sítios os bois adquiridos deixados para engorda. Eram só alguns no começo da marcha. Agora são muitas as rezes; naquele silêncio não imaginam que estão indo para o abate. Cada vez mais rico, o marchante se integra ao grupo dos peões. Agora é paciência até chegar ao matadouro. A fatura será alta, com aquela clausula do contrato a lhe proporcionar a posse do couro dos bois abatidos. Juntando ao que já seca lá na ilha entre os dois arroios, será necessário contratar  caminhão de grande porte para transportar os couros até ao curtume.
A estrada de barro treme ao passar da boiada. Mas ninguém percebe esse detalhe, na submissão dos bois ao canto plangente do aboiador. Ainda restam algumas léguas  até chegar ao destino final. Até lá pode acontecer muita coisa, inclusive nada. Tudo corre como o panejado. Gado manso, gordo, chifres a se tocarem levemente nos desníveis do caminho. Os peões esporam seus cavalos treinados nessa lida de tanger bois. Os quatro cachorros  boiadeiros caminham em silêncio nos seus postos de compressão da boiada. O capim alto  não pode ser usado pelas rezes tocadas por aquela dinâmica imposta à caminhada. Os gravetos secos estalam pelo chão ao pisar pesado dos bois. Agora o vale se estreita e a boiada fica cada vez mais compacta; os boiadeiros se distribuem uniformemente à frente, atrás e aos lados.
Na várzea de areia branca a se espraiar até à base das montanhas, o caminhar dos bois fica mais lento, pesado; a areia é fofa e ali não nasce nem capim rasteiro. Alarga-se a paisagem e à frente, não muito distante, uma vegetação densa alimentada por veio d’água volumoso que serpenteia pelo largo vale. A boiada atravessa o rio num ponto onde não há correnteza. Mas o rio é fundo e os animais nadam vencendo a resistência da água. Homens de roupas de couro os boiadeiros  pouco sentem a ação do rio. Só as botinas se enchem do líquido daquele veio onde os jacarés se intimidam com  o volume da boiada; um movimento simples, e a água é expelida. O sol forte da tarde se encarrega de secar tudo. Os cães até gostam daquela aventura que repetem periodicamente.
Agora vem uma vegetação concentrada  quase em círculo. Um resto de mata que no seu isolamento serve de abrigo para pássaros, onças e macacos. A pequena mata é fechada, protegida por cipós densos entrançados a impermeabilizarem a entrada para as árvores robustas de verde firme. O caminho não é largo, mas suficiente para uma passagem segura. De um lado e de outro, pequenos sulcos onde corriam riachos mortos pelo desmatamento para plantar cana. A cana ainda é rasteira e suas folhas estão amareladas pela falta de chuvas. Um ocorrido qualquer lá dentro da mata assanha os macacos e os guaribas, como que defendendo a posse do seu terreno, emitem de uma só vez um grito horrendo. Os bois se assustam, e num arranque incontrolável correm em disparada  em todas as direções. Num instante, a boiada se dispersa ao longo de toda a várzea, pisoteando pés de cana. Só o cansaço das rezes freia o estoura da boiada. Agora os peões precisarão de alguns dias para localizar, contar e novamente tocar a boiada.


(Extratos do meu livro Sonhos e Frustrações – pedaços de memória de um Ser quase Dememoreado).

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