NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

                   MORTA  VIVA  SEVERINA
Diferente da “laranja” cantada por Ataulfo Alves, Banana madura na beira da trilha nem sempre estava bichada.  Nem tinha marimbondos no bananal. Na zona da mata sul,  nas terras dos engenhos administrados por seu Sida, os pés de bananas em terras ermas se contavam às dezenas. E sempre existiam cachos com bananas maduras saboreadas pelos pássaros. Os trabalhadores do eito passavam e viam os frutos sem dono expostos para quem quisesse usá-los. Não usavam! Inexistia  para esses coitados a cultura da alimentação diversificada com cereais, carne  e frutas. À beira do rio piscoso, mulheres esquálidas  e pálidas  com os peitos areados quase ao umbigo, com uma criança de colo escanchada  ao quadril e outra criança na barriga, mal tinham forças para andar. A desnutrição abalava as estruturas orgânicas dessas pobres mães do infortúnio. Seus maridos, míseros trabalhadores da enxada,  analfabetos e também desnutridos, se embebedavam com cachaças por eles mesmos fabricadas de raízes e entrecascas. Tanto peixe ali no rio e na lagoa lá perto da mata. Mas eles não sabiam pescar.  Geralmente se alimentavam uma vez por dia de farofa e carne  Ceará, quando tinham algum crédito no barracão. Ou usavam  carne de algum  tipo de caça, de preferência preá, roedor abundante nos arredores. Um porco selvagem ou uma jaguatinica, ah, isso só lá na mata. Caçar na verdade era tarefa mais difícil do que pescar.  
 Esse drama social prejudicava as criancinhas, que se alimentavam do leite da mãe sem  um teor de nutrientes satisfatório. E quando cresciam tinham dificuldades de aprendizado. Isso  se tivessem acesso à escola. Ou se passassem da primeira infância. Os sobreviventes eram meninos  magros, sambudos, barrigas-de-vermes, desnutridos. Morriam de fome. Mas as maiores vítimas de todo aquele descaso eram as mulheres. Casavam aos catorze-dezesseis anos, e engravidavam ainda adolescentes. Habitavam  choupanas de paredes de barro taipado, cobertura e portas de capim trançado. Dormiam em jiraus, como toscos também eram mesa e assentos.  Geralmente analfabetas, distantes dos pais, as mulheres  tomavam conta da casa e da família. Roupas de chita ou de pano de saco,  sem hábitos higiênicos , cheiravam mal. O sanitário da família era a capoeira. Não iam sequer ao barracão, nem participavam das festas de época que seu  Sida realizava no engenho-sede. Praticamente, a função social  dessas filhas da miséria era preparar a rara comida do marido e ter filhos. Vivas mortas, as Severina  que não trabalhavam no eito  tinham um destino cruel. Morriam ainda novas, deixando filhos pequenos ao desabrigo. Não transformem isso em drama musicado, porque  as mulheres parideiras daquelas paragens dos anos trinta-quarenta   viviam tudo o que se pode pensar,  exceto uma situação romântica.

                    (Adaptado do meu livro Sonhos e Frustrações- Pedaços de Memória de Um Ser Quase desmemoriado).

Nenhum comentário:

Postar um comentário