MORTA VIVA
SEVERINA
Diferente da “laranja” cantada
por Ataulfo Alves, Banana madura na beira da trilha nem sempre estava
bichada. Nem tinha marimbondos no
bananal. Na zona da mata sul, nas terras
dos engenhos administrados por seu Sida, os pés de bananas em terras ermas se
contavam às dezenas. E sempre existiam cachos com bananas maduras saboreadas
pelos pássaros. Os trabalhadores do eito passavam e viam os frutos sem dono
expostos para quem quisesse usá-los. Não usavam! Inexistia para esses coitados a cultura da alimentação
diversificada com cereais, carne e
frutas. À beira do rio piscoso, mulheres esquálidas e pálidas
com os peitos areados quase ao umbigo, com uma criança de colo
escanchada ao quadril e outra criança na
barriga, mal tinham forças para andar. A desnutrição abalava as estruturas
orgânicas dessas pobres mães do infortúnio. Seus maridos, míseros trabalhadores
da enxada, analfabetos e também
desnutridos, se embebedavam com cachaças por eles mesmos fabricadas de raízes e
entrecascas. Tanto peixe ali no rio e na lagoa lá perto da mata. Mas eles não
sabiam pescar. Geralmente se alimentavam
uma vez por dia de farofa e carne Ceará,
quando tinham algum crédito no barracão. Ou usavam carne de algum tipo de caça, de preferência preá, roedor
abundante nos arredores. Um porco selvagem ou uma jaguatinica, ah, isso só lá
na mata. Caçar na verdade era tarefa mais difícil do que pescar.
Esse drama social prejudicava as criancinhas,
que se alimentavam do leite da mãe sem um
teor de nutrientes satisfatório. E quando cresciam tinham dificuldades de
aprendizado. Isso se tivessem acesso à
escola. Ou se passassem da primeira infância. Os sobreviventes eram
meninos magros, sambudos,
barrigas-de-vermes, desnutridos. Morriam de fome. Mas as maiores vítimas de
todo aquele descaso eram as mulheres. Casavam aos catorze-dezesseis anos, e engravidavam
ainda adolescentes. Habitavam choupanas de
paredes de barro taipado, cobertura e portas de capim trançado. Dormiam em
jiraus, como toscos também eram mesa e assentos. Geralmente analfabetas, distantes dos pais,
as mulheres tomavam conta da casa e da
família. Roupas de chita ou de pano de saco,
sem hábitos higiênicos , cheiravam mal. O sanitário da família era a
capoeira. Não iam sequer ao barracão, nem participavam das festas de época que
seu Sida realizava no engenho-sede. Praticamente,
a função social dessas filhas da miséria
era preparar a rara comida do marido e ter filhos. Vivas mortas, as
Severina que não trabalhavam no eito tinham um destino cruel. Morriam ainda novas,
deixando filhos pequenos ao desabrigo. Não transformem isso em drama musicado,
porque as mulheres parideiras daquelas
paragens dos anos trinta-quarenta
viviam tudo o que se pode pensar,
exceto uma situação romântica.
(Adaptado do meu livro Sonhos
e Frustrações- Pedaços de Memória de Um Ser Quase desmemoriado).
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