NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

sábado, 29 de março de 2014

-Sá Rosário, um homem lá fora pede água.
-Pois dê água ao pobre, sá  Marica.
-Aonde tem água, sá Rosário?
-Na coité, sá  Marica.
-Sá Rosário, seu “pobre homem” também quer doce!
-Pois dê doce a ele, sá Marica.
Maria Grande tinha ido à usina visitar a sogra. Aproveitaria a visita para se queixar de Mila à avó. O menino estava ficando insubordinado por causa de tanto mimo que Maria do Rosário lhe fazia. Estava saindo de casa a qualquer hora do dia, não pedia pra sair nem dizia pra onde estava indo. Se pegasse um cinturão e desse umas  lapadas nele para ele se endireitar, a avó ia meter a colher e ele ia ficar ainda mais afoito. Quem já se viu um menino de seis anos andar por ai afora,  pela beira do rio, no meio das canas e até pelo sítio mais longe. Tem cobra,  guará e jaguatirica e até uma onça pode aparecer de repente. A mãe do menino ia desfiando aquele rosário de reclamações, quando a sogra a interrompeu:
-Pode parar, sá Marica. Um dia sá Marica vai morrer envenenada mordendo a própria língua. Menino a gente educa com conselhos, carinho e bons exemplos; sá Marica por acaso é carreira com um chicote na mão e o meu neto é o boi do cambão para ser chicoteado?
Maria do Rosário, magrinha, nariz em ângulo reto, estudada no colégio diocesano e viajada pela Europa, falava mansinho, media cada palavra que ia dizer, mas não tinha receio de falar com ninguém. Era ela quem - de régua em punho nas sabatinas, dava aula de reforço para os filhos do coronel usineiro e da elite canavieira daquelas bandas. E em cujos cabriolés viajava quando precisava se deslocar para a cidade ou fazer uma visita no campo. Já Maria Grande, analfabeta, um metro e oitenta e tantos, feições indígenas,  musculosa, cabelos pretos e lisos a lhe caírem até à cintura,  vestida de paletó de ampoleta,  chegava montada em um cavalo de cela. Poucos homens podiam competir com ela.
                                                                    (...)


(Trecho do livro Sonhos e Ruinas – Pedaços de Memória de um Ser quase  Espedaçado)

quinta-feira, 27 de março de 2014

                                                SUAPE
        UNIVERSIDADES, DESENVOLVIMENTO E PERSPECTIVAS 
Faltou investimento na qualidade do ensino, planejamento para atender as necessidades do crescimento econômico e priorização das áreas a treinar. Durante anos, as universidades se preocuparam apenas com o número de matrículas. Em países como o Brasil, quantidade é fundamental para os governantes saírem bem na foto. E de repente veio uma onda de crescimento que se espraiou pelo litoral do Estado. O Litoral Sul, de geografia mais apropriada a esse tipo de empreendimento, cresceu à sombra do Complexo Portuário e Industrial de Suape. Àreas de embarque e desembarque de contêiner, estaleiros, refinaria, indústrias as mais diversas. Um surto de crescimento na construção civil, milhares de empregos, dezenas de canteiros  do obras, centenas de máquinas; uma movimentação intensa de gente, de equipamentos; migração impactando o cenário demográfico, com a chegada de milhares de trabalhadores de todo parte do Nordeste e de outras regiões do País. O Meio Ambiente alterado pelo crescimento econômico. Canaviais dão lugar a indústrias e galpões, casas e alojamentos. O impacto ambiental  era inevitável. E a insuficiência dos acessos e dos meios de transporte, também. Para aliviar a malha rodoviária, uma indústria automobilística cuja área já estava devidamente terraplenada teve que ser transferida para o Litoral Norte, onde as condições de transporte rodoviário são precárias e os meios de embarque marítimo  ainda inexistentes.

Suape mudou o panorama natural e artificial, econômico, político e social  de vários municípios do Litoral Sul. São números colossais. Mais de cincoenta canteiros de obras, cerca de cinco mil viagens diárias de ônibus transportando trabalhadores para os vários empreendimentos que vão sendo implantados. Perto de dois mil veículos particulares levando diretores, gerentes e assessores para supervisionar os trabalhos. Mas os projetos não andam com a velocidade esperada pelos empreendedores. Faltam trabalhadores qualificados para áreas básicas como pedreiros de acabamento, mestres-de-obras, soldadores, encanadores, eletricistas, etc. E para complicar, a implantação dos projetos fica mais demorada, emperra ou é temporariamente adiada porque faltam técnicos de nível superior como engenheiros, químicos, técnicos de petróleo e gás, biólogos e outros mais. Por conta da defasagem de técnicos no mercado local esses profissionais estão vindo de outros estados e até do exterior. Franceses, alemães e de outras nacionalidades com especialização nessas áreas estão aportando no estado para ocuparem vagas existentes em função da falta de cuidados com o planejamento do progresso local. A região de Suape necessita de centenas de engenheiros experientes para tocar o projeto do Complexo Portuário e Industrial. Verdade que crescem os números de matrículas nos cursos de engenharia, mas a quantidade e a qualidade dos formandos ainda por muitos anos serão  insuficiente para atender a demanda. Esperemos que o espírito empreendedor ora registrado no Estado, em particular, e no Nordeste, tenha continuidade e justifique a leva de técnicos de nível superior que sairão de nossas universidades e escolas técnicas. 

sábado, 22 de março de 2014

                  ÁGUA – UM BEM SUBESTIMADO
Neste Dia Mundial da Água é importante lembrar que apesar desse precioso bem ocupar dois terços da superfície terrestre e seres vivos  terem setenta por cento de suas estruturas composta de líquido, água é um bem finito. As grandes geleiras das calotas polares e das enormes montanhas esbranquiçadas dependem de condições meteorológicas para existirem; o momento é de apreensão com esses colossais reservatórios naturais  de água, pois eles estão sofrendo alterações estruturais, importa dizer: estão derretendo. O volume de água dos grandes rios em todos os continentes  sofrem baixas. Grandes extensões de águas represadas  estão poluídas e irremediavelmente perdidas no mundo inteiro. Os oceanos e mares, transformados em lixeira industrial, estão em  grande parte poluídos por produtos químicos, físicos, fisiológicos  e rejeitos nucleares. E suas águas podem por isso se tornar imprestáveis para usos doméstico, agrícola ou industrial. As pessoas avaliam mal a quantidade de água existente na superfície da Terra e na atmosfera que nos circunda. Imaginam, pela extensão dos reservatórios naturais ou artificiais que temos ser a água infinita. Apesar das geleiras, sua principal fonte, a água potável já estar escassa, em várias partes do mundo ela quase não existe mais. As águas  subterrâneas estão sendo contaminadas por agrotóxicos ou resíduos industriais. As águas dos grandes reservatórios superficiais  estão sendo emporcalhadas pelo trabalho do homem.

No Brasil,  a temporada de fortes chuvas  causa  inundações no Sudeste e Centro- Oeste, enquanto no Nordeste, principalmente Pernambuco, Paraíba e Bahia, a maior seca das últimas seis décadas dizima plantações, mata animais de fome e sede, derruba a economia da região e condena o homem ao êxodo rural. No mundo inteiro, o clima se torna cada vez mais hostil, e água é o fenômeno mais determinante dessas mudanças. Nestes dias de crise de água, com enchentes em certas regiões e secas persistentes em outras regiões, é indispensável que se reflita sobre o valor da água. Bem necessário à vida, a água é uma fonte finita. Usar com moderação, preservar os mananciais e transferir  com sabedoria os excedentes de uma região para outra região onde há carência, eis o ponto sobre o qual devemos todos nos debruçar. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

                             O VOO 370

O voo 370 da Malaysia  Airlines já configura o maior mistério da história da aviação e um dos maiores mistérios da história recente. O Boeing 777 que partiu de Kuala Lumpur em direção a Pequim, não chegou à China. As várias hipóteses para explicar o sumiço do avião com 239 pessoas a bordo vão do excesso de zelo com detalhes tecnológicos à teorias da conspiração. As notícias atualizadas dão conta de que  a aeronave poderia está pousada em algum lugar da Ásia. Ou no fundo do oceano Pacífico. No primeiro caso, criam expectativas – que podem se revelar falsas, para as famílias dos passageiros daquele voo.  Sites internacionais divagam sobre essas hipóteses. O blog também tenta entender o caso. Falha técnica, falha humana, condições meteorológicas desfavoráveis e terrorismo, entre outras hipóteses consideradas. Nenhuma máquina é perfeita, nem a humana. Não se falou ainda sobre em que condições de visibilidade, ventos ou possíveis tempestades se deu o voo. Se se eleger o terrorismo para compor o quadro, deve-se saber que essa hipótese remete a questões religiosas ou a questões políticas. Ou as duas coisas juntas. No tocante à religião, o caso poderia estar relacionado ao conflito entre judeus e palestinos. Então, os atores dessa ação seriam iranianos ou paquistaneses associados a grupos afegãos. No fundo, estaria o grupo miliciano Al-Qaeda. No campo político, estariam em jogo interesses capitalistas ocidentais confrontando interesses ideológicos adversos. E ai, além da Al-Qaeda, estariam presentem a  CIA, o Mossad e outras agências de espionagem do mundo inteiro.
Ninguém ainda se  lembrou de relacionar o sumiço do avião com a situação política na Ucrânia. As potências mundiais disputam, além  do território da Crimeia, o gás russo que passa por lá. Talvez não tenha sido por acaso que a China, estrategicamente, se absteve de votar, no Conselho de Segurança da ONU, uma resolução que, entre outras coisas, proibia a realização de plesbicito que decidiria se a Criméia deixava a Ucrânia  e passaria a integrar a Rússia. Uma possível proibição de venda de armas russas para os países asiáticos poderia ser invibializada pela abertura de vastas trilhas entre os territórios da Rússia e da China. Ao leste da Mongólia, com apenas dois passos se sai da Rússia e se entra da China. Ou vice-versa. Tudo aquilo é de domínio russo. A Rússia empobreceu e a China enriqueceu. A primeira transferia muito dinheiro para a segunda. Quem duvida que agora a coisa não tenha se invertido? Seja lá como for, o voo 370 precisa ser esclarecido. Afinal, o avião está pousado no deserto asiático ou dorme no fundo do índico? Mais respeito com as famílias dos passageiros!



quinta-feira, 13 de março de 2014

                                 DITADURA! NUNCA MAIS
Atravessei duas ditaduras e assisti aos horrores da violência contra o ser humano.  Na  era Vargas, vi a cavalaria invadir quintais de pessoas que celebravam o aniversário ou o casamento de seus filhos; assisti desolado cenas tristes como as de trabalhadores anônimos  açoitados por espadas de cavalarianos ou arrastados pelas ruas, amarrados por cordas à cela do cavalo. Homens,  mulheres e crianças eram esbofeteados em praça pública pelo simples fato de transitarem em lugar público, ou cidadãos  violentamente retirados do seio de suas famílias simplesmente porque eram acusados de delito de opinião. No regime militar, instaurado a partir de 1964, vi professores  universitários chegarem para atendimento médico de cabeça raspada e ouvidos supurando. Machucados também foram vários líderes comunitários  sem qualquer  envolvimento político ou partidário, pessoas pobres e trabalhadoras  identificadas apenas com os ideais de solidariedade, que buscavam nas mercearias  e mercados públicos contribuições em alimentos para serem distribuídos aos mais pobres da comunidade, em geral pessoas desempregadas e doentes. Foi  sob esse fatídico regime que o Brasil hibernou na área econômica, desnacionalizou suas riquezas  e escancarou as  suas portas ao capital estrangeiro, gerando a crise que levaria à adoção de vários planos econômicos, à hiperinflação e ao alargamento da pobreza, hoje reduzida mas ainda preocupante. O “milagre econômico”, que foi uma farsa  alimentada pelas elites, quando a classe média se desfez de suas joias, entregando-as ao governo, perdendo sua única reserva  de capital e mergulhando na pobreza.

Sob o governo do último general-presidente,  os porões da ditadura estavam cheios de presos políticos, muitos deles torturados até à morte. Durante a Copa do Mundo, quando a seleção fazia um gol em terras estrangeiras, aqui dentro pessoas gemiam sob a tortura desumana da ditadura. Esse foi um regime violento, inocentemente apoiado por segmentos da classe médica, que depois também provou  do caldo macabro feito de sangue, suor, lágrimas e fezes expelidas nas câmaras de tortura. Em regimes ditatoriais não há centralização da tomada de decisões, e em cada região do País as elites se investem de poder excepcional para perseguir seus opostos. Os regimes de exceção geram ranços autoritários que ficam latentes em determinadas camadas da população mesmo depois da “democratização” do País.  E escondem fatos desagradáveis, numa tentativa sub-reptícia de preservar  ideário de  domínio das elites. Estamos num ano eleitoral, quando os interesses partidários -  e particulares, se exacerbam  ao extremo. Não vivemos no melhor País do mundo, mas o Brasil é o País que temos, onde nascemos, crescemos,  nos educamos e trabalhamos. Se queremos um lugar melhor para viver com nossas famílias só temos um caminho a seguir: ajudar na construção desse País jovem, onde ainda estão presentes os ranços da escravidão e das ditaduras. Construir um País para todos, não apenas para  alguns. E nem ranços. Ao denunciar a violência desumana da ditadura, estamos lembrando fases da vida pátria que não poderiam ter acontecido e advertindo para que não possam acontecer outra vez. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

                              RECIFE / OLINDA
 Quase chegando ao quinto centenário,  as cidades- irmãs de Recife e Olinda tem muitas histórias para contar. História boas, como a afirmação da nacionalidade e a expulsão dos invasores, e outras nem  tanto. Cidades com contrastes, brios próprios e encantos indescritíveis. Olinda, com lá no alto, a espionar o mar e cotejar Recife. Marim dos Caetés, com suas ruas estreitas a subirem ladeiras; o casario centenário, de arquitetura vistosa e atrativa. Olinda, berço de artistas de facetas mil; poetas, pintores, cantores, entalhadores...  Recife, cidade dos rios, dos canais e das pontes. Recife decadente, que perde espaço há muitas décadas, desde a falência do modelo da agroindústria açucareira.  Ruas dos bondes elétricos a zigzaguearem  pelas esquinas apertadas dos bairros do Recife e de São Jose,  dos trens maria-fumaça chegando e saindo da estação central, beleza arquitetônica a se destacar numa paisagem sem graça, do velho mercado de São José, antigo centro de compras e ponto de encontro de artistas, vendedores, famílias, camelôs e vagabundos. Época em que Recife tinha parias ensombradas de coqueiros, de areias límpidas e macias; mangas, mangabas; um porto fumegando como um formigueiro humano.

477, 479 – idades convencionadas. Recife e Olinda nasceram ao mesmo tempo, uma dependendo da outra. Se havia “uma Ó linda condição para se fundar uma vila”, do outro lado, coladinho ali, havia enormes perspectivas para construção de um porto. As duas cidades tentam resgatar suas origens sociais e culturais, mas esbarram na falta de planejamento urbano. Pensaram duas cidades para a carroça e o cavalo; não tinham visão de uma grande metrópole que exigiria mobilidade, transporte, energia, agua tratada, habitação popular. O lixo acumulado nas vias a espera de ser recolhido em horas programadas, as favelas subindo as encostas dos morros, a escassez de água, energia e casas decentes para a população mais vulnerável depõem contra o foro  de civilização das duas cidades. A violência explodindo em cada canto e o estranho sistema de transporte  rodoferroviário implantando os desumanos TIs aumenta o desconforto do cidadão residente nos subúrbios. Ainda assim, saudemos nossas cidades  guerreiras, hoje menos hospitaleiras.  Sé, Varadouro, Farol, Boa Vista, Santo Antônio, São José são caminhos comuns, pontos de encontros e desencontros de turistas, adotados e nativos. Parabéns Recife e Olinda!

segunda-feira, 10 de março de 2014

Boa tarde amigos.
Depois de longas férias carnavalescas, onde inclusive não faltaram pepinos, barreiras escorregadias, ruídos ensurdecedores, quebras da rotina dietética, encontros inesperados, desencontros  e broncas na CPU, cumprimentamos nossos fiéis e pacientes  interlocutores da web. É interessante observar um País onde o ano comercial começa de fato depois do carnaval! Um molho bem digerível, do interesse de políticos de todos os matizes – para não precisar dizer de todos os partidos. Nestes dias de “beijinhos no ombro” (diferente daquele arrepiante fuçar no cangote), da banda Polentinha com sua vocálica mastigada, do predomínio das drogas classificadas em “leves” e “pesadas”, como se essa aferição significasse alguma coisa,  resta a certeza  de que ninguém se salva desse barco à deriva. A flexão verbal deixa uma esperança, algo tão difuso quanto como uma cerração agreste.