-Sá Rosário, um homem lá fora
pede água.
-Pois dê água ao pobre, sá Marica.
-Aonde tem água, sá Rosário?
-Na coité, sá Marica.
-Sá Rosário, seu “pobre homem”
também quer doce!
-Pois dê doce a ele, sá Marica.
Maria Grande tinha ido à usina
visitar a sogra. Aproveitaria a visita para se queixar de Mila à avó. O menino
estava ficando insubordinado por causa de tanto mimo que Maria do Rosário lhe
fazia. Estava saindo de casa a qualquer hora do dia, não pedia pra sair nem
dizia pra onde estava indo. Se pegasse um cinturão e desse umas lapadas nele para ele se endireitar, a avó ia
meter a colher e ele ia ficar ainda mais afoito. Quem já se viu um menino de
seis anos andar por ai afora, pela beira
do rio, no meio das canas e até pelo sítio mais longe. Tem cobra, guará e jaguatirica e até uma onça pode
aparecer de repente. A mãe do menino ia desfiando aquele rosário de
reclamações, quando a sogra a interrompeu:
-Pode parar, sá Marica. Um dia sá
Marica vai morrer envenenada mordendo a própria língua. Menino a gente educa
com conselhos, carinho e bons exemplos; sá Marica por acaso é carreira com um
chicote na mão e o meu neto é o boi do cambão para ser chicoteado?
Maria do Rosário, magrinha, nariz
em ângulo reto, estudada no colégio diocesano e viajada pela Europa, falava
mansinho, media cada palavra que ia dizer, mas não tinha receio de falar com
ninguém. Era ela quem - de régua em punho nas sabatinas, dava aula de reforço
para os filhos do coronel usineiro e da elite canavieira daquelas bandas. E em
cujos cabriolés viajava quando precisava se deslocar para a cidade ou fazer uma
visita no campo. Já Maria Grande, analfabeta, um metro e oitenta e tantos,
feições indígenas, musculosa, cabelos
pretos e lisos a lhe caírem até à cintura, vestida de paletó de ampoleta, chegava montada em um cavalo de cela. Poucos
homens podiam competir com ela.
(...)
(Trecho do livro Sonhos e Ruinas – Pedaços de Memória de um
Ser quase Espedaçado)