NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

                                               KARLA - A DOCE VIDA DE UMA PIRIGUETE


                                                                 Emílio J. Moura

                                                      (emiliojmoura@hotmail.com)

Karla era uma garota linda. Vestia-se como poucos. Guarda-roupa sempre renovado. Modelitos adquiridos nas várias lojas do centro de compras mais famoso da cidade. Consultava tudo que era revista de modas. E de fofocas também. Corpo razoável, embora algo gordinha, crescia mais ainda em cima dos seus sapatos de saltos altíssimos. Mas também perfilava sua beleza usando sandálias de sola fina. Funcionária pública concursada, era pouca vista na repartição. Queria encontrá-la? Era só ir ao shopping, de preferência procurá-la na loja do cabeleireiro mais famoso da cidade. O dentista também tinha registro de muitas e freqüentes visitas da moça. Ou, então, na hora do almoço, naquele restaurante chique da praça mais próxima à repartição. Ah! Ela também visitava a livraria da movimentada e badalada avenida onde morava. Comprava sempre algum livro, principalmente se alguma publicação estivesse dando o que falar por causa de sua alta procura pelos leitores noticiada pela mídia. O quarto da moça tinha um amontoado de livros pelos cantos das paredes. Só que ela nunca lera uma única folha de nenhuma daquelas publicações. Karla freqüentava os cinemas do shopping e comprava uma infinidade de filmes em DVD que ela passava boa parta da noite assistindo.

Dinheiro era coisa que nunca faltava na conta de Karla. Embora ela preferisse usar o dinheiro de plástico, mais prático e menos exposto à sanha criminosa de muita gente que desfilava diariamente nas crônicas policiais dos jornais e da televisão. Portava tudo que era cartão de crédito. Deixava o carro importado estacionado na orla perto de sua casa e a pouca distância do centro comercial e da área social do seu luxuoso bairro. Assim ela podia ser vista desfilando sua beleza e sua vida mansa por toda aquela gente que se punha a perguntar como era que Karla conseguia manter aquele padrão de vida que levava. Família de classe média alta, todos os seus familiares viviam de salários e de alguma renda proveniente de pequenos negócios. O pai era despachante; cuidava de questões ligadas à exportação e importação de minérios. A mãe, uma senhora de fino trato, era professora de dança numa academia de sua propriedade. Uma irmã gerenciava um hotel e o irmão trabalhava como representante comercial de uma linha de produtos de beleza.

Karla tirara uma licença para fazer um curso em São Paulo, com despesas pagas pelo governo. Passagens, estada em hotéis, diárias, tudo bancado com recursos das viúvas. Só que Karla nunca fora vista em parte alguma de São Paulo. O avião em que viajara era um jatinho pertencente a um rapaz filho de diretor de uma estatal com ramificações internacionais e sua trajetória não obedecia carta de viagem mapeando o Sudeste do País. Muito pelo contrário, o vôo contemplava paradisíacas ilhas do Caribe, com direito a uma visitinha à Nova Iorque. Noventa dias de licença, três meses se deleitando com as delicias de cenários de águas tépidas, comidas exóticas e acomodações que eram um sonho. Quando viajara Karla já apresentava sinais de estafa. Algo enjoada, mas a vontade de se divertir superava qualquer adversidade. Foi assim que o namorado de Karla começara a desconfiar das mudanças ocorridas no corpo da moça. Submetida a exames médicos de alta resolutibilidade cujas despesas foram debitadas ao serviço diplomático brasileiro num paraíso distante ficou constatada uma gravidez. Pior ainda: o produto da concepção não tinha nada a ver com o jovem que se fazia acompanhar de Karla.

O imbróglio ficou pesado. O moço foi embora e deixou Karla no estrangeiro. Marcando passagem para uma viagem de retorno ao Brasil, sem haver registro de chegada à cidade em vôo normal, a coisa despertou as atenções das autoridades da imigração e do combate às drogas. Karla teve que se explicar a policia local e às autoridades consulares brasileiras. Tudo ficou arranjado para que a garota voltasse silenciosamente ao País, mas não foi possível impedir que o controle de despesas da repartição tomasse conhecimento da farra com o dinheiro público. Desembarcando numa madrugada chuvosa no Brasil, Karla foi recepcionada pela Polícia Federal em cuja sede passou três dias dando explicações. E dormindo numa sela onde não havia o conforto ao qual a moça era afeiçoada. Para piorar as coisas, quando saiu da sede do DPF Karla teve o desprazer de confrontar exames feitos a pedido da família do homem a quem ela atribuía a paternidade do seu filho. Os exames deram negativos.

01.04.2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário