MAR VASTO E ASSUSTADOR
Emílio J. moura
Informada do ocorrido, a marinha destacou barcos para fazer uma varredura de muitas léguas em torno do local onde eles costumavam pescar. As buscas foram em vão. Uma semana depois, notícias não confiáveis falavam de restos de uma embarcação encontrados em praia da Paraíba. Mas nada que identificasse a jangada perdida. Nenhum corpo chegou a qualquer praia. Nenhum sinal das pessoas que trabalhavam com aquela jangada; nem vestígios desta. Na segunda-feira, transportados por um jipe, oficiais da marinha estiveram na sede da colônia. Ouviram pescadores, fizeram perguntas aos parentes dos desaparecidos; observaram as jangadas na areia; anotações em uma caderneta, e outros procedimentos oficiais. Época de guerra, as batalhas eram travadas em terra, mar e ar. Na Europa e no pacífico, no atlântico e na África.
Quatro horas da manhã. O Sol já começa a aparecer lá no horizonte. Os ventos são ainda bem fortes. Jangadas rolam em troncos de coqueiros sobre a areia branca da praia. Confere-se o material: água, arpões, facão, porretes, bolsa de lona, peixeiras... Nada podia faltar. Mas quanto menos peso, melhor! Jogadas à água, as jangadas são empurradas pela equipe de dois ou três pescadores. Num movimento rápido, estes sobem ao lenho. Um homem pega a vara e vai empurrando o barco para adiante. A maré fica funda, e lemes são usados para impulsionar à frente aquela arrumação de paus leves. Um outro homem desenrola a vela e a iça aos ventos. Em pouco tempo a frágil jangada ganha velocidade. Atravessa o porto onde trabalhadores descarregam no escuro navios atracados ao cais. Entram na barra e com aquele tosco lenho penetram a profundeza do mar vasto e assustador.
Uns trinta pescadores profissionais, devidamente habilitados pela marinha estão cadastrados na colônia. Os pescadores que não precisam de habilitação para trabalhar- mas se filiam à colônia em busca de proteção ao seu trabalho - se contam às dezenas e mais dezenas. Dez ou doze jangadas estão sediadas na colônia Z-1. Existem outros tipos de embarcações de pesca também sediadas ali. Canoas, para a coleta de ostras e para a pesca do camarão. Botes, usados em pescarias menos arriscadas. No período de chuvas intensas e ventos fortes, há uma maneirada na pescaria em alto mar. Aquilo ali se transforma num canto perigoso e quase inacessível até mesmo para os mais experientes daqueles homens incansáveis. Mas a vida não pára; não há espaço para férias. Procede-se, então, a pesca com redes estendidas ao longo da bacia do Pina. O resultado não é tão auspicioso quanto ao da pesca no mar profundo. Depende de uma série de variáveis. Quando dá certo, o lucro está assegurado. Grandes arraias caem na rede e é preciso ir tirá-las de lá, antes que rasguem as malhas. Tubarão faminto arrebenta a rede com suas mandíbulas possantes. Peixes de tamanhos diversos ficam presos às malhas. Ai a festa está assegurada. É só deixar a maré vazar um pouco e colher os frutos do trabalho paciente.
Em pontos já conhecidos, manobram a jangada, reduzem a velocidade; dobram a vela, descem a pequena âncora e o barco "estaciona" ao sabor de fortes ondas. Tem início a peleja metódica contra o ambiente a um só tempo hostil e promissor. É bom ficar atento aos tubarões. Linhas com isca apropriada são lançadas ao mar. O peixe belisca a isca e fica preso ao anzol. Lentamente é puxado até à jangada; se é de bom tamanho, uma porretada na cabeça o amortece e o bicho é içado. Essas cenas se repetem durante várias horas. Os pescadores falam em voz alta para ser ouvidos em meio ao rugido do mar. Para repor a energia, água levada num cantil e um pedaço de pão com doce. O trabalho é árduo e penoso. O lugar, ermo e ameaçador. Estar ali é desafiar a morte. Mas aquilo ali é a única coisa que eles aprenderam a fazer. Desde a infância. Com boa pescaria, ou não, duas horas, duas e meia da tarde, é tempo de regressar. Sobe a âncora; novamente se desenrola e se iça a vela; uma breve manobra com o remo, e o barco está na posição de partida. Aqueles heróis sem nome não levam relógios nem bússola; o Sol, em sua rotação no céu igualmente vasto e profundo, era a única referência para a volta; era a estrela-guia daquela gente intrépida.
A Rua de Jangada era uma aldeia pobre. Como de resto pobres eram - e são - todas as aldeias de pescadores. Casas de palha (paredes e coberta), piso de areia, sem banheiro; sequer uma fossa. As famílias eram numerosas. A aldeia avançava desde a linha do trem até perto da maré. Ruas curtas e sinuosas. A sede da colônia Z-1 era um monumento no meio daquele vilarejo sem qualquer planejamento. Duas salas amplas; uma para festas e outra voltada à educação, bem mobiliada e arejada pelo vento forte que entrava pelas grandes janelas laterais. Nessa época não havia naquele lugar viaduto nem avenida. Muito menos o Iate Clube. Contrastes eram, entretanto, visíveis naquele espaço: em meio à favela de palha, algumas construções antigas; da época do império. E no centro desse núcleo de alvenaria, uma casa grande lembrava residência de gente nobre.
Três horas; três e meia, as jangadas vão chegando à praia. A movimentação em terra do pessoal da colônia já é intensa. Os companheiros acenam de terra. Os pescadores respondem com movimentos codificados. O remo funciona como leme, e a jangada faz uma curva, e se dirige à areia. A vela já foi dobrada e amarrada. A vara tem seu papel num empurrãozinho ao barco. Homens já estão na água e ajudam na atracação. Alegria e abraços. Trabalho solidário. Balaios e caixas são levados para terra. E aqueles peixes maiores, carregados para a areia. Pode acontecer pegarem siris. Em dia de pouca sorte, qualquer coisa é lucro. O cansaço é evidente na fisionomia daqueles homens de calças curtas, chapéu de palha e pele bronzeada. Mas eles ainda vão assistir a partilha da pesca e a destinação do produto. Depois, é partir para o descanso, porque no dia seguinte tudo vai começar de novo. Aquela rotina de segunda a sábado. Aliás, no sábado a pescaria dura menos tempo. Meio dia, uma hora, já estão chegando. Agora é ir pra casa, comer aquele feijão com peixe assado, relaxar e tomar "uma".
Além do peixe, crustáceos e moluscos forneciam renda aos pescadores do lugar. Canoas e botes, num movimento incessante, deslizavam sobre as águas tranqüilas daquele braço de mar. Umas iam, outras vinham. Desde as seis horas da manha até escurecer, transportavam ostras, mariscos, siris, unha de velho, camarões... e alguns peixes. A movimentação maior era para as ostras. Uma família de nove irmãos ( três mulheres e seis homens), além de dois primos e uma sobrinha da matriarca, vivia a intensidade daquele trabalho de coletar as ostras, trazê-las na canoa; desembarcar e leva-las até a casa; coloca-las em latas a ferver no fogo à lenha; retirar a carne e descartar as conchas, que eram depositadas a pequena distância da casa longa, com entradas laterais. Com o tempo, formaram-se montanhas de material calcáreo compacto. Três montanhas; duas já saturadas e uma em via disso. Para acessar esta, uma plataforma de taboas pela qual passava o carrinho de mão levando as conchas recém descartadas.
Naquele sábado primaveril a equipe de Joca não retornou à base até uma hora da tarde. O tempo foi passando, e a jangada não chegava. Duas horas, três horas, e nada. Uma multidão começa a se espremer ao longo da pequena praia. Toda a colônia de pescadores estava ali, ansiosa. A notícia já correra a outros lugares, e mais gente ia chegando. Os mais religiosos oravam à beira da maré. As beatas se ajoelhavam e acendiam velas a são Sebastião, padroeiro dos pescadores. A comoção dominava corações e mentes. Três horas, e aquele friozinho na barriga das pessoas. Aquela esperança de que tudo acabaria bem. E mais gente chegando. Quatro horas, e nada. Zé Bolachinha, um dos intermediários da venda do peixe, continuava ali com seu austin do começo dos anos trinta. Calango, outro empresário de barco, também se postava inquieto. A festa programada para a noite na sede da colônia foi cancelada. Mesmo que os pescadores chegassem, estariam machucados, não haveria clima para festas.
Seu Lula, velhinho, fechou a porta do gabinete da presidência, e foi se juntar ao pessoal. Zé Rosa, um dos diretores da administração local da pesca, chega com ar espantado e logo se associa aos anseios de toda aquela gente. Seu Viriço, pescador mais antigo - já aposentado - acalmava os colegas ainda na ativa. Dona Helena, uma mulher assararazada e reconchuda, idiota e falastrona, indo de um canto a outro da praia, dizia as suas costumeiras bobagens. A multidão, agora engrossada por moradores da rua imperial e adjacências, mergulhada naquele silêncio medonho. As casas da aldeia estavam vazias. Também as do povoado das calçadas altas. Toda aquela gente ansiosa já estava na praia, e tinha os olhos voltados para a boca da barra. Quatro e meia. Nada. A respiração das pessoas aumentava. Alguém teria de fazer alguma coisa. Mas quem? O quê? Como?
Cinco horas. Nenhum sinal. Num canto, seu Lula dissertava para os pescadores mais jovens sobre as correntes marinhas e o movimento dos ventos. Seu Viriço, sentado no areia, ouvia em silêncio as palavras do velho mestre, que nunca pilotou uma jangada, mas "tinha estudo". Zé Doidinho, sempre com uma varinha à mão, dizia as besteiras de sempre. E Cão, na sua postura quase símia devido a um acidente que rompeu um músculo da perna quando ainda criança, era uma tristeza só. As horas passavam, e a multidão aumentando. Ninguém queria ir embora antes de um desfecho feliz. Cinco e meia. Os raios do sol mudavam sua coloração de vermelho-rosa para cinza. Os ventos já estavam muito fracos e dentro em breve inverteriam a direção. Já era difícil perceber alguma coisa mais distante no horizonte. Cinco e quarenta. Quase noite. Seu Viriço se ergue do chão; bate com as mãos a areia no fundo das calças e vai até aos companheiros, calados e tristes, sentados na areia. O decano dos pescadores, na sua experiência de muitas décadas no manejo da jangada e na sua vivência com o mar grande e bravio, pára diante dos colegas; baixa a cabeça, e com voz embargada, vaticina:
-"Eles não vêm mais; o peixe comeu".
* Texto escrito em fins da década de 70 e digitado em 10.01.2008