Como trabalhador da saúde e da educação
durante mais de 30 anos aprendi a analisar o jogo político que domina a
administração pública. Greve em hospital público não é contra o governo, mas
contra a população mais pobre, que só depende dessa instituição para
diagnóstico e tratamento. Há outras formas de protestos, que poderiam atingir o
governo no seu ponto mais nevrálgico: a receita. Mas uma ação interna, que
puniria o governo, não interessa a determinados segmentos de servidores, que
preferem uma mobilização ostensiva que só penaliza os mais pobres. Seria importante que nessa luta as lideranças da greve incluissem um chamamento para impedir que as universidades se transformem em cabides de empregos nem em trampolim político.
Partido político é tudo igual. Partido bom é
aquele que ainda não chegou ao poder. O Brasil é um País relativamente novo
como identidade institucional. Estamos vivendo um período de afirmação das
nossas instituições, uma transformação social ainda não vivenciada pelo povo
brasileiro. O que deveria estar preocupando as lideranças sindicais dos
professores e administrativos das IES, entre outras coisas, é a manobra do ministro da Previdência
Social, que altera os valores que serão pagos aos futuros funcionários públicos
quando se aposentarem; com a aprovação dessa nova política salarial, haverá
sim, um esvasiamento das universidades e de outras repartições federais. A
discussão hoje não deve se limitar aos interesses dos atuais servidores, e sim
prever a implantação de um plano de cargos e salários e de uma política de investimentos que torne viável e
sustentável a universidade brasileira.
A adoção do novo modelo administrativo dos
Hospitais Universitários desenhado pelo Governo Federal para uma reforma
administrativa dessas instituições não no parece uma privataria. Contempla-se
ali a privatização da gestão dos hospitais. Os serviços de ambulatório,
diagnóstico por imagem ou procedimentos via patologia clínica, bem como internação, cirurgias
e tratamento das doenças continuarão gratuitos para os usuários desses
hospitais. O plano de reformas prever inclusive uma política de distribuição
gratuita de medicamentos para os pacientes atendidos pelo SUS. A sociedade
brasileira já está suficientemente madura para identificar e rechaçar qualquer desvio de
conduta a esse respeito. Esse modelo, aliás, já existe com sucesso em
Pernambuco, no plano gestor das UPAs. Claro que precisa ser aperfeiçoado; ainda
estamos tateando nessa experiência.
O eleitor brasileiro está cada vez mais se
conscientizando do seu papel de agente transformador da sociedade. Ele
aprenderá com a prática democrática a escolher os melhores candidatos aos
diversos cargos eletivos, majoritários e proporcionais. Ainda não temos tradição
democrática para termos partidos fortes e com programas identificados com as
aspirações da sociedade como um todo. Essa será uma meta a alcançar com o
exercício da democracia. Votando. Assim, não é importante que votemos em partidos inócuos
(nenhum deles é sustentável), mas nos candidatos mais confiáveis. Os quadros partidários brasileiros serão forjados na luta diária contra as injustiças sociais; por uma educação de qualidade e em tempo integral começando pelo ensino fundamental; por reformas do modelo institucional que privilegia os membros e servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário em detrimento do pessoal do Poder Executivo; que limite ao mínimo tolerável a violência urbana e rural; que pugne por investimentos nos setores produtivos que trabalham com capital, mão-de-obra e tecnologia nacionais, criando emprego e gerando renda para os trabalhadores. Esses quadros políticos deverão surgir a partir das comunidades, operando de baixo para cima, ou seja: revertendo o atual quadro político brasileiro. Atenção
especial para as manobras partidárias contrárias a essas aspirações populares; tramita no Congresso propostas visando aprovar o voto distrital e as
listas fechadas. Isso seria uma cassação dos direitos do eleitor escolher seus
candidatos; o partido é que os indicará. É bom lembrar que muitos dos agentes
públicos de todos os partidos políticos atualmente existentes que gritam contra
as gestões atualmente no poder nas cidades da Região Metropolitana do Recife,
pertencem a uma casta que nos últimos 90/80 anos (idade ponderal da verdadeira identidade brasileira) passou 65 anos no poder, e nada
fez em termos de planejamento urbano, como mobilidade e transporte público de
qualidade. Esse conceito pode ser ampliado à economia, à saúde, à educação e
outras áreas nos níveis federal e Estaduais.
-NOTA DA MODERAÇÃO: essa matéria, agora ampliada, foi inicialmente postada no Facebook em função do nome do moderador ter sido citado em matéria que defendia a greve e tratava de política e partidos, o que de certo modo comprometia ou identificava o mesmo com o movimento grevista.
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