AINDA O CAIS JOSÉ
ESTELITA
A história da Rua de
Jangada e da Gameleira não se encontra descrita em nenhum compêndio de
história. Consultamos historiadores, sociólogos e urbanistas do Recife e
constatamos que só alguns deles
"ouviram falar". Quase todos ignoram que existiram esses povoados bem
ali pertinho do centro do Recife.
Vivia-se na década de quarenta o fantasma da II Guerra Mundial. A preocupação
das autoridades era a preparação para a defesa da cidade; todo esforço da
região estava concentrado no estado de guerra. Faltavam alimentos,
combustíveis, transportes, vida noturna. A cidade vivia às escuras pois se
temia um ataque aéreo alemão a qualquer hora da noite ou pela madrugada. O
carnaval era realizado durante o dia, pois não havia iluminação. Nada
disso foi registrado, não havia liberdade para descrever o que acontecia na
cidade. Não há registros dos grandes incêndios que destruíram parte da Rua de
Jangada nem dos planos maquiavélicos para erradicar a Gameleira, onde vivia
Cícero Brabo, uma das figuras mais importantes do mundo da marginalidade da
cidade na época.
A pretexto de se
instalar ali um matadouro, aproveitou-se um incêndio que dizimou a cidadela da
Gameleira, se expulsou do local quem ali morava. Havia sim um matadouro ali na
Cabanga. Ficava no terreno hoje ocupado pelo quartel do Exército que ali
funciona. Mas o matadouro durou pouco. Fora mero pretexto para aterrar a área,
dragando a maré. A terra foi depois entregue ao grupo Othon Bezerra de Melo, que construiu um conjunto
habitacional para seus trabalhadores. Se
você não leu nada a esse respeito, então não conhece a história da Colônia Z1 de
Pescadores, cuja sede - um prédio de várias salas onde os pescadores se reuniam
para discutirem seus problemas, se
divertirem em seus programas dançantes, fazerem a partilha do dinheiro da pesca
oficial, já que a pesca informal, de maior porte, era patrocinada por ricos
proprietários de barcos e grupos de jangadas
que controlavam a distribuição do
pescado pagando ali mesmo na praiinha o que cabia a cada pescador. A política
social de Agamenon Magalhães, através do Serviço Social Contra o Mocambo (SSCM)
criado pelo interventor para impedir a presença de moradias de pessoas pobres
nas imediações da Cidade, funcionava como um funil. Só alguns tiveram acesso às
casas construídas pelo SSCM, a maioria foi empurrada para os morros. A intenção de
Agamenon era empurrar os retirantes da seca de volta para o interior, mas como
fazer isso, se lá não existia alimentos, sequer água? Milhares de pessoas foram
se abrigar em mangues do Pina, criando as favelas do Bode e do Jangadeiro. Ou
se instalaram no areal onde hoje fica Brasília Teimosa ou no Coque, que era na
verdade três ou quatros favelas diferentes. Essa política de exclusão está
implícita no programa Novo Recife. Voltaremos ao assunto.