NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

sábado, 29 de novembro de 2014

AINDA O CAIS JOSÉ ESTELITA
A história da Rua de Jangada e da Gameleira não se encontra descrita em nenhum compêndio de história. Consultamos historiadores, sociólogos e urbanistas do Recife e constatamos que só alguns  deles "ouviram falar". Quase todos ignoram que existiram esses povoados bem ali  pertinho do centro do Recife. Vivia-se na década de quarenta o fantasma da II Guerra Mundial. A preocupação das autoridades era a preparação para a defesa da cidade; todo esforço da região estava concentrado no estado de guerra. Faltavam alimentos, combustíveis, transportes, vida noturna. A cidade vivia às escuras pois se temia um ataque aéreo alemão a qualquer hora da noite ou pela madrugada. O carnaval  era realizado  durante o dia, pois não havia iluminação. Nada disso foi registrado, não havia liberdade para descrever o que acontecia na cidade. Não há registros dos grandes incêndios que destruíram parte da Rua de Jangada nem dos planos maquiavélicos para erradicar a Gameleira, onde vivia Cícero Brabo, uma das figuras mais importantes do mundo da marginalidade da cidade na época.

A pretexto de se instalar ali um matadouro, aproveitou-se um incêndio que dizimou a cidadela da Gameleira, se expulsou do local quem ali morava. Havia sim um matadouro ali na Cabanga. Ficava no terreno hoje ocupado pelo quartel do Exército que ali funciona. Mas o matadouro durou pouco. Fora mero pretexto para aterrar a área, dragando a maré. A terra foi depois entregue ao grupo Othon Bezerra  de Melo, que construiu um conjunto habitacional para seus trabalhadores.  Se você não leu nada a esse respeito, então não conhece a história da Colônia Z1 de Pescadores, cuja sede - um prédio de várias salas onde os pescadores se reuniam para discutirem seus problemas,  se divertirem em seus programas dançantes, fazerem a partilha do dinheiro da pesca oficial, já que a pesca informal, de maior porte, era patrocinada por ricos proprietários de barcos e grupos de jangadas  que controlavam a  distribuição do pescado pagando ali mesmo na praiinha o que cabia a cada pescador. A política social de Agamenon Magalhães, através do Serviço Social Contra o Mocambo (SSCM) criado pelo interventor para impedir a presença de moradias de pessoas pobres nas imediações da Cidade, funcionava como um funil. Só alguns tiveram acesso às casas construídas pelo SSCM, a maioria foi empurrada para os morros. A intenção de Agamenon era empurrar os retirantes da seca de volta para o interior, mas como fazer isso, se lá não existia alimentos, sequer água? Milhares de pessoas foram se abrigar em mangues do Pina, criando as favelas do Bode e do Jangadeiro. Ou se instalaram no areal onde hoje fica Brasília Teimosa ou no Coque, que era na verdade três ou quatros favelas diferentes. Essa política de exclusão está implícita no programa Novo Recife. Voltaremos ao assunto.

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