UM PINGO DE HISTÓRIA
Estudou demais ficou
doido. Era o que se ouvia dizer nos meus tempos de criança. Mas nem todo
"doido" é louco de fato. Assim, é que me lembro de Zé da Lua, um
homem velho rústico que vivia quase nu,
apenas uma calça que só trocava quando não podia mais usar. Filho de
ex-escravos, jamais conheceu os pais. Ainda criança foi expulso da senzala onde
nascera, pois falava muito, dizia coisas imperceptíveis para os iguais de
infortúnio, mas bem entendidas pelo senhor de engenho. Quando chegamos ao
engenho, ele já lá morava desde a infância. Não tinha tarefa fixa, pois ninguém
confiava que fizesse alguma coisa. Todos os tomavam por louco. Morava numa
choupana lá dentro do mato. Em seu barraco não faltava alimentos levados por pessoas que o
procuravam para ouvir preleções e previsões sobre o futuro. Nunca recebera um
tostão como pagamento. Aliás, achava que dinheiro "era coisa do
diabo". Quando em época de escassez, de seca, a comida dele ia da
casa-grande. A ordem do administrador-geral, seu Sida - meu pai, era para que o
negro velho, de dentes fortes e longos, tivesse a proteção e o respeito de
todos. Zé da Lua, diziam os mais antigos, sempre se recusou a executar qualquer
trabalho que lhe fosse imposto.
Diferentemente das
histórias de zés da lua que tenho ouvido falar - puro conto da carochinha, o
personagem que conheci na minha infância
era real, tinha funções fisiológicas e aptidões mentais e psicológicas. Sem
nunca ter frequentado escola alguma, riscava no chão desenhos que só depois se
veio a saber serem mapas de chuvas. Zé da Lua verberava contra o coronel -
usineiro, os senhores de engenhos, os antigos capitães de campo, os
controvertidos capitães do mato e até contra os administradores de engenhos.
"É uma laia só", repetia sempre. Pois o homem analfabeto, negro e
paupérrimo era mais do que um visionário, era um sábio. Advertiu que ia ter
"uma tarde de escuro", e ninguém se ligou nele quando um eclipse
total do sol em fins dos anos 30 transformou a tarde numa noite profundamente escura, espantando os passarinhos
que voavam às pressas para a mata., fez repicarem os sinos da matriz e levou as
mulheres mais idosas a se ajoelharem e rezarem em altos brados esperando o fim
do mundo. O Dr. Leopoldo, proprietário das terras onde meu pai trabalhava,
apesar dos ataques de Zé da Lua aos poderosos da época, costumava parar para ouvir Zé da Lua dissertar sobre a
vida. Zé da Lua falava que "até 1900 viverás, mas não chegarás aos
2000". Zé da Lua Também afirmava, como numa aparente contradição, que quando "os
números se cruzarem será o fim de tudo". Só recentemente é que se pode
avaliar a sabedoria do negro que costumava ficar sentado no lagedo observando o
luar. O início desse século trouxe muitas dúvidas sobre o futuro da humanidade
e em dezembro de 2012, só se falava no fim do mundo no dia 21. Na verdade, nessa
data, os Maias comemoravam o fim de um ciclo de 5.200 anos de sua história.
Comemorações que não se limitaram à América do Sul, mas também foram vistas na
Austrália e outros países da Oceania, na África
e Ásia. Uma catarse coletiva da Humanidade?
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