NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

UM PINGO DE HISTÓRIA
Estudou demais ficou doido. Era o que se ouvia dizer nos meus tempos de criança. Mas nem todo "doido" é louco de fato. Assim, é que me lembro de Zé da Lua, um homem  velho rústico que vivia quase nu, apenas uma calça que só trocava quando não podia mais usar. Filho de ex-escravos, jamais conheceu os pais. Ainda criança foi expulso da senzala onde nascera, pois falava muito, dizia coisas imperceptíveis para os iguais de infortúnio, mas bem entendidas pelo senhor de engenho. Quando chegamos ao engenho, ele já lá morava desde a infância. Não tinha tarefa fixa, pois ninguém confiava que fizesse alguma coisa. Todos os tomavam por louco. Morava numa choupana lá dentro do mato. Em seu barraco não faltava  alimentos levados por pessoas que o procuravam para ouvir preleções e previsões sobre o futuro. Nunca recebera um tostão como pagamento. Aliás, achava que dinheiro "era coisa do diabo". Quando em época de escassez, de seca, a comida dele ia da casa-grande. A ordem do administrador-geral, seu Sida - meu pai, era para que o negro velho, de dentes fortes e longos, tivesse a proteção e o respeito de todos. Zé da Lua, diziam os mais antigos, sempre se recusou a executar qualquer trabalho que lhe fosse imposto.
Diferentemente das histórias de zés da lua que tenho ouvido falar - puro conto da carochinha, o personagem que conheci  na minha infância era real, tinha funções fisiológicas e aptidões mentais e psicológicas. Sem nunca ter frequentado escola alguma, riscava no chão desenhos que só depois se veio a saber serem mapas de chuvas. Zé da Lua verberava contra o coronel - usineiro, os senhores de engenhos, os antigos capitães de campo, os controvertidos capitães do mato e até contra os administradores de engenhos. "É uma laia só", repetia sempre. Pois o homem analfabeto, negro e paupérrimo era mais do que um visionário, era um sábio. Advertiu que ia ter "uma tarde de escuro", e ninguém se ligou nele quando um eclipse total do sol em fins dos anos 30 transformou a tarde numa noite  profundamente escura, espantando os passarinhos que voavam às pressas para a mata., fez repicarem os sinos da matriz e levou as mulheres mais idosas a se ajoelharem e rezarem em altos brados esperando o fim do mundo. O Dr. Leopoldo, proprietário das terras onde meu pai trabalhava, apesar dos ataques de Zé da Lua aos poderosos da época, costumava  parar para ouvir Zé da Lua dissertar sobre a vida. Zé da Lua falava que "até 1900 viverás, mas não chegarás aos 2000". Zé da Lua Também afirmava, como numa  aparente contradição, que quando "os números se cruzarem será o fim de tudo". Só recentemente é que se pode avaliar a sabedoria do negro que costumava ficar sentado no lagedo observando o luar. O início desse século trouxe muitas dúvidas sobre o futuro da humanidade e em dezembro de 2012, só se falava no fim do mundo no dia 21. Na verdade, nessa data, os Maias comemoravam o fim de um ciclo de 5.200 anos de sua história. Comemorações que não se limitaram à América do Sul, mas também foram vistas na Austrália e outros países da Oceania, na  África  e Ásia. Uma catarse coletiva da Humanidade?


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