DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA
Você têm os olhos azuis
ou verdes? Seus cabelos são loiros? Então, você é da raça branca, aquela que
aportou aqui no Brasil vindo da Europa. Não tenha tanta certeza disso! Algum
ancestral seu foi um negro. Na senzala, os donos de escravos escolhiam as
negras mais bonitas e as levavam para a cama. Os filhos dos senhores de engenho
e homens de negócios com negras escravas ficavam na senzala. As índias não escaparam ao apetite dos
poderosos da época. E negras, índios e brancos se entregaram numa sucessão interminável de cruzamentos que resultaram na formatação de uma raça mista
a se espalhar pelo Brasil afora. Mas, essa história não teve nada romântica,
como pretendeu insinuar mestre Gilberto Freyre em sua vasta e admirável obra. Houve, com forte conotação perversa, a tentativa de demonstração do
pretenso espírito de superioridade de uma raça. O estigma da escravidão perdura até aos
nossos dias, quando a mulher negra é vista como símbolo de evocação sexual, é
discriminada no trabalho e nas ruas. O homem negro também continua discriminado
por uma sociedade pretensamente superior. Embora legalmente haja igualdade de
condições para brancos e pretos, não é isso que acontece na prática. Há, há na
verdade, dois brasis, um dos
"brancos" e outro dos pretos. As elites brasileiras têm uma enorme
dívida moral, social e econômica para com a parte da sociedade de pele
pigmentada de escuro.
A discriminação contra
os negros foi veladamente ferrenha a partir do fim da escravatura. Hoje, há um
clima de hipocrisia reinando nas relações de grupos sociais que têm que
conviver por força da sociedade que se formou com a miscigenação. Felizmente,
grupos sociais reconhecem que fazem parte desse contexto racial e por conta
desse reconhecimento procuram criar condições para a ascensão social dos afro-descendentes. Mas isso, no
âmbito geral, não foi dado por gentileza.
Foi conseguido com muita luta, sofrimento, derramamento de sangue e
sacrificio da própria vida de lideres daqueles que se rebelaram contra o
trabalho escravo ou contra a perseguição imposta aos negros e seus descendentes
pelos donos do poder. Quando dissemos que os brasileiros de olhos azuis ou verdes
não tenham tanta certeza de que são
brancos, é porque nas veias de cada um deles corre o sangue que veio das
senzalas, numa miscigenação ampla e irretorquível. Somos, todos os brasileiros,
filhos dessa miscigenação que forma esse enorme e multicolorido painel da Raça Brasileira.
Neste dia,
referenciemos a figura de Zumbi dos Palmares, símbolo da luta contra a opressão dos escravos e lembremos nomes de
brasileiros que deram continuidade a essa luta. Mais do que isso, relembremos
nossos laços com a África e respeitemos os costumes dos nossos ancestrais, dando
espaço para a manifestação de sua cultura ampla e difusa, não esquecendo que esse
é um movimento em ascensão continua. Discriminação de raça, preconceito de cor ou concepções religiosas já são timbrados na lei como crime.
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