NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

sábado, 20 de novembro de 2010

                                                              BELEZA MORENA


                                                               Emílio J. Moura

Sempre que aguardava transporte para voltar para casa naquela parada, ela aparecia. Vestindo modelitos, ao que parece exclusivos, tinha a silhueta típica da mulher brasileira padrão internacional de beleza. Morena, cabelos pretos longos a escorregarem busto esquerdo até a linha dos seios discretamente ostensivos, a moça preenchia todos os requisitos do belo. Altura média, nariz pequeno em consonância com a boca miúda de lábios vermelhos e delicados. Os olhos castanhos com nuances cinzas, de cílios curtos e sempre realçados por rime escuro. Um queixinho moldado, como uma bonequinha de massa. Ela aguardava um ônibus que fazia retorno naquela parada, e partia não sei para que destino. Só que ela estava lá sempre que eu chegava para pegar minha condução. Particularmente, eu admirava aquela beleza sem exagero que se impunha pela simplicidade de gestos, pelo andar faceiro, mas acima de tudo por aquela energia que prendia, a mim e a todos que a viam. Embora o vestuário sempre renovado, com calças justas e abaixo do joelho, de tecidos finos de lycra e blusas de jeans de alta qualidade denotasse certa classe, distinguindo a moça das demais garotas que por acaso por ali passassem, sua simplicidade era a tônica dominante. Nunca a vi em companhia de outras pessoas. Não sei se esse espírito solitário tinha alguma coisa a ver com idéias exóticas que povoavam a cabeça da moça. Ou era mera afetação.

Depois de aposentado, deixei de freqüentar aquela parada de ônibus. Passei a palmilhar outros caminhos. A menina, de modelitos bem cortados e andar dolente, que aparecia quase do nada desapareceu como de repente da minha memória. Não que eu quisesse me esquecer dela, mas porque a minha ausência ali naquele ponto acabou por apagá-la da minha mente. Mas naquela quarta-feira, anos depois, quando fui forçado a trocar de coletivo porque o em que eu viajava quebrou, eis que atravesso a pista, me posiciono sobre a calçada e ao levantar a vista, lá vem a moça. Toda a lembrança de seu perfil e de sua moda me veio à mente, quando ela atravessava a avenida para pegar o ônibus que fazia retorno ali.

Depois de alguns anos, nada havia mudado naquela garota. Mas pela primeira vez tive oportunidade de vê-la falar com alguém. Um cidadão que passava de carro, parou o veículo perto do meio-fio e a chamou de “professora”. Lembrou a ajuda por ela prometida num projeto pedagógico a ser implementado no colégio onde ensinavam. Foi quando pude ouvir sua voz doce, culta e metálica concordando com o colega professor. Só assim pude saber quem era aquela beleza morena que durante alguns meses me enchia de contentamento ao vê-la atravessar a avenida e se posicionar soberana para esperar seu transporte. Ensinava português num colégio particular bem ali perto do ponto de ônibus. Na verdade, era filha de família importante da cidade. E, ao que me foi dado saber depois, não era nada solitária. Era casada com um professor de matemática; tinha uma filhinha. Mais coisas a respeito daquela garota linda me foram contadas por amigos residentes no bairro dela. Poetisa, ativista de movimentos de arte, participava de maracatu, costumava se vestir de caboclinha para contar histórias e divertir a garotada de comunidades carentes. Aquela menina bonita, que parecia se afastar das pessoas era ao contrário, uma pessoa ao mesmo tempo rica e despretensiosa. Rica de predicados morais, artísticos e espirituais; despretensiosa, porque, apesar de se revelar bela na configuração física e no jeito esmerado de se vestir, era de uma simplicidade e de uma interação social difícil de se encontrar numa pessoa nos dias de hoje. 07.09.2008

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