SOCIEDADE CONFORMADA
Emílio J. Moura
O desfecho do ruidoso processo do chamado Caso Serrambi deixou muita gente perplexa. Se não foram os irmãos Lira que mataram as adolescentes Maria Eduarda e Tarsila Gusmão, quem foi? Houve dois crimes, dois cadáveres foram identificados e um inquérito policial seguido de um processo judicial levou o Júri Popular a tomar uma decisão apertada (4X3), expondo desta forma a dúvida que pairava na cabeça dos jurados.
Várias versões para o crime foram colocadas para a sociedade. Escolhamos três destas versões, pela natureza instigante de cada uma. A primeira, naturalmente, foi que os irmãos kombeiros apanharam as adolescentes em sua kombi numa praia, e deveriam transportá-las à casa onde estavam hospedadas. Desviaram o trajeto da viagem e em lugar ermo tentaram estuprá-las. Enfrentando resistência, assassinaram as jovens. A segunda versão é a de que o pai de Tarsila Gusmão seria amante de Maria Eduarda, e num acesso de ciúme matou a amante; como queima de arquivo, marcou também a filha que presenciara o crime, levando os cadáveres para o canavial onde "fingiu ter encontrado os corpos" dez dias depois dos crimes. Outra versão, a terceira, diz que as garotas morreram de overdose num bacanal numa mansão pertencente a filho de figurão pernambucano. Ali teria rolado muito bebida, sexo desvairado com as meninas e muita droga. As vítimas, voluptuosas e usuárias insaciáveis no tocante às drogas, se exauriram e teriam morrido de overdose.
Comentemos primeiro a última hipótese. Se as garotas morreram de overdose, não existiria crime. Mas a perícia revelou que elas foram alvejadas por balas, embora a tendência seja acreditar que os tiros foram dados após as adolescentes terem sido assassinadas. Ai entra o fato criminoso. A hipótese do duplo assassinato ter sido perpetrado pelo pai de Tarsila parece algo monstruoso, se não fosse fantasioso e com certeza inverossímil. Se considerarmos a hipótese de os kombeiros terem assassinado as moças, eles teriam revelado muita coragem, pouca inteligência e a ousadia de massacrarem moças que sabiam serem de classe econômica alta, ricas. Aliás, eles deveriam já conhecer as garotas, pois elas costumavam andar pelas praias e ocuparem pousadas da região.
Em qualquer das hipóteses consideradas, há uma questão crucial. Onde, realmente, Maria Eduarda e Tarsila Gusmão foram assassinadas? Onde e por quem os corpos das vítimas foram escondidos por vários dias? Com certeza foram colocados em alguma frizer, de onde foram retirados alguns dias depois e levados para serem jogados no canavial. De outra forma, os corpos teriam sido descobertos bem antes, pois por aquele lugar passam toda manhã dezenas de trabalhadores rurais. Esta indagação tem sua razão de ser. O estado em que se encontravam os corpos mostrava que o início da decomposição era mais ou menos recente, ente três e cinco dias. Então, onde estavam os corpos até aquele momento? Como a perícia não procurou desvendar essa questão? Por maior que seja a boa vontade em acreditar na polícia, fica difícil acreditar que a perícia tenha utilizado os procedimentos rotineiros, uma metodologia científica, para analisar as peças do caso e desvendar essa onda de fumaça que envolve o assassinato das moças. Prevalece na sociedade a dúvida de que os peritos que examinaram o caso em busca de indícios que pudessem apontar os autores dos crimes foram "induzidos" a não identificar as bases criminológicas que apontariam os culpados. Ou seja: houve uma operação abafa, que se prendeu a questiúnculas como pentes, papel de bombons e coisas semelhantes, em detrimento da busca de respostas para o aparecimento repentino dos corpos num canavial, a maneira como os corpos chegaram ali e de onde foram trazidos. Fica, pois, evidente, a manipulação dos dados periciais. Por que será que aconteceu assim? Havia interesse em não se identificar os verdadeiros assassinos ou mandantes dos crimes? Por quê? A resposta já foi dada: os crimes foram praticados por gente da alta sociedade, e os kombeiros tiveram participação talvez escondendo ou conduzindo os corpos até o canavial.
O Caso Serrambi põe em alerta todas as famílias do Estado. E essas famílias, que compõem a sociedade pernambucana, não podem ficar alheias ao perigo que representa a impunidade dos criminosos desse triste acontecimento. Suas filhas, adolescentes, jovens ou crianças, estão à mercê de facínoras de colarinho branco que impunemente as atraem para bacanais regados a bebidas, sexo e drogas. Se não houver uma reação da sociedade, ainda que tardia, esses casos vão se multiplicar. E já se multiplicaram. Pena que as vítimas quase sempre são meninas (ou meninos) de origem humilde e suas mortes sequer chegam a ser noticiadas pela imprensa. É hora de a OAB-PE, Associação Pernambucana de Imprensa, Clubes de Serviços, sindicatos, grupos de defesa dos direitos humanos e outras instituições da sociedade organizada do Estado saírem do seu imobilismo conformista e exigirem do Ministério Público a reabertura do processo do Caso Serrambi. Não para condenar mais uma vez os kombeiros, mas para apurar os fatos numa nova linha de investigação que busque elucidar o que realmente aconteceu e possa intimidar esses celerados que fazem pouco caso desse fenômeno admirável que é a vida. É inaceitável que a sociedade fique de braços cruzados diante do clima de violência que afeta a segurança das famílias, ameaça o patrimônio público ou privado e põe em risco a vida do cidadão comum. Para onde estamos caminhando? Ou sendo levados? Não podemos ficar conformados com a injustiça, a manipulação da ordem pública, a banalização da justiça e a impunidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário