NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

domingo, 14 de novembro de 2010

                                                                  A MARCA DO PODER


                                                                    Emílio J. Moura



Chuvas torrenciais maltratavam a face quase nua daquelas terras. Os córregos pareciam correntezas, cada trilha escavada na descendência pelos pés dos matutos virava um rio. O rio propriamente dito, este carregava um volume de água há muito tempo não visto por aquelas bandas. O lamaçal tomava conta das partes mais altas, e as estradas de barro não permitiam passagem. Os açudes já arrebentaram há vários dias e a terra ficava cada vez mais desprotegida nas partes mais planas e nas pequenas encostas de vegetação rasteira e escassa. Água demais – e má distribuída – para uma região pouco produtiva e de topografia tão desigual.

Aliança, Machado, Goiana e adjacências possuíam áreas marcadas pela pobreza do solo. Essas áreas ainda hoje integram um polígono de seca. As chuvas são escassas e a seca castiga periodicamente aquela região. A fúria das águas que escavava aquela vasta área castigada pela irregularidade do solo e pela pobreza de nutrientes deste solo era um acontecimento raro. E o uso irracional das terras só complicou a situação de proprietários, posseiros e agricultores sem terra que tiveram a infelicidade de nascer ou viver nessas terras. Assim, quando era época de pouca, ou nenhuma chuva, as culturas não progrediam por não haver nutrientes nas terras onde foram plantadas. Mas, quando havia chuvas intensas, o espetáculo narrado no início tornava aquela situação ainda mais insustentável. Um rio de águas salobras alimentadas por minerais encontrados em todo seu percurso ainda hoje faz padecer boa parte da população desses lugares, por falta de água apropriada para o consumo humano. De nada vale a estação de tratamento instalado pela empresa pública encarregada do serviço, se ela não foi projetada para dessalinizar a água servida a essa população.

Mas essas terras já tiveram outra função. Já foram usadas para o cultivo da cana e de raízes densas como inhame e macaxeira. Já foram campos de produção de cereais, como o feijão, o milho e outros mais. Não eram, essas terras, o que se pode chamar um celeiro, mas o que se produzia ali deu para fazer a fortuna de muitos patrões que compraram títulos de oficiais da guarda nacional. Foi o caso do coronel Zuza. Homem desletrado, mas experiente e destemido, o coronel Zuza adquiriu dos pais por herança um pequeno sítio. Seu arrojo empreendedor transformou a gleba num rico e próspero engenho produtor de cana-de-açúcar. As terras mais em declive ele aproveitou para cultivar inhame. Depois de algum tempo, já vendia toneladas do produto, além de fornecer a cana para as usinas locais. Amealhou riquezas, construiu casa grande que mais parecia um palácio. Impôs-se como senhor de terras e de gente, embora não existisse mais o regime da escravidão.

Coronel Zuza montava os cavalos mais bonitos e fortes que podia encontrar. Suas selas eram especialmente confeccionadas, sob encomenda. Detalhes dourados nas margens, com encraves de pedras que reluziam à luz do sol. Coxim de veludo e estribos brilhantes; arreios de material trançado. Tudo dele era especial. Mas o coronel não gostou de ver um concorrente desfilando perto de suas terras num carro de passeio. Foi até à capital, e numa agência de automóveis escolheu o modelo mais bonito, que era também o mais caro. Acertou os pormenores da compra do veículo, o prazo da entrega. Com aquelas exigências todas, o carro só chegaria muitos meses depois. Topou! Pagou tudo à vista. Quase oito meses depois, a agência informa ao coronel Zuza da chegada do carro e foi entregá-lo na porta da casa grande do engenho. O coronel admirou as linhas do veículo, gostou das cores listradas na porta do carro e da placa anunciando o nome do proprietário. Tudo estava quase ultimado, quando o coronel franziu o sobrolho. Fechou a cara e abanou a cabeça em sinal de desagrado.

-Falta uma coisa nesse carro sem a qual eu não o aceito!, sentenciou o coronel.

-Diga o que é, coronel, e nós providenciaremos de imediato, afirmou o gerente da agência presente no engenho. O coronel escreveu alguma coisa num papel e o entregou ao homem da agência. Outros oito meses se passaram, e o carro finalmente voltou ao engenho. E o coronel encheu-se de orgulho, concluindo o negócio. Tudo ficou claro naquele momento. Qualquer bem do coronel Zuza teria de ser diferenciado. Ninguém poderia opor-lhe qualquer tipo de concorrência, porque ele era o homem mais rico de todas aquelas redondezas. E isso deveria ficar bem explicitado em tudo que era seu. Que exigência era essa que o coronel fazia para aceitar o carro pago há já quase dois anos? Afinal, carro era carro, e o entregue ao oficial da guarda nacional possuía requisitos e equipamentos jamais vistos em qualquer outro carro no Brasil inteiro. Tudo ficou devidamente esclarecido, quando viajando pelas estradas de barro da região, os pneus do luxuoso carro deixavam gravado no barro: Coronel Zuza, senhor de engenho do Riachão.

                                                                                                            01.05.1983





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