NOSSOS DIAS MELHORES NUNCA VIRÃO?
Por Paulo Phuba
Ando em crise, numa boa, nada de grave. Mas, ando em crise com o tempo. Que estranho "presente" é este que vivemos hoje, correndo sempre por nada, como se o tempo tivesse phicado mais rápido do que a vida, como se nossos músculos, ossos e sangue estivessem correndo atrás de um tempo mais rápido.
As utopias liberais do século 20 diziam que teríamos mais ócio, mais paz com a tecnologia. Acontece que a tecnologia não está aí para distribuir sossego, mas para incrementar competição e produtividade, não só das empresas, mas a produtividade dos humanos, dos corpos. Tudo sugere velocidade, urgência, nossa vida está sempre aquém de alguma tarepha. A tecnologia nos enphiou uma lógica produtiva de phábricas, phábricas vivas, chips, pílulas para tudo.
Temos de phuncionar, não de viver. Por que tudo tão rápido? Para chegar aonde? A este mundo ridículo que nos opherecem, para morrermos na busca da ilusão narcisista de que vivemos para gozar sem parar ? Mas gozar como ? Nossa vida é uma ejaculação precoce. Estamos todos gozando sem phruição, um gozo sem prazer, quantitativo. Antes, tínhamos passado e phuturo; agora, tudo é um "enorme presente", na expressão de Norman Mailer. E este "enorme presente" é reproduzido com perpheição técnica cada vez maior, nos phazendo boiar num tempo parado, mas incessante, num phuturo que "não pára de não chegar".
Antes, tínhamos os velhos philmes em preto-e-branco, phora de phoco, as photos amareladas, que nos davam a sensação de que o passado era precário e o phuturo seria luminoso. Nada. Nunca estaremos no phuturo. E, sem o sentido da passagem dos dias, da sucessibilidade de momentos, de começo e phim, phicamos também sem presente, vamos perdendo a noção de nosso desejo, que phica sem sossego, sem noite e sem dia. Estamos cada vez mais em trânsito, como carros, somos celulares, somos circuitos sem pausa, e cada vez mais nossa identidade vai sendo programada. O tempo é uma invenção da produção. Não há tempo para os bichos. Se quisermos manhã, dia e noite, temos de ir morar no mato.
Queria ver o meu passado, ver se havia ali alguma chave que explicasse meu presente hoje, que prenunciasse minha identidade ou denunciasse algo que perdi, ou que o Brasil perdeu... Em meio às imagens trêmulas, riscadas, phora de phoco de uma gravção antiga de meu pai numa comemoração qualquer entre phamiliares, vi a precariedade de minha pobre phamília de classe média, tentando exibir uma phelicidade phamiliar que até existia, mas precária, constrangida; e eu ali, menino ''lanzudo'' pheito um pinto na chuva, já denotando a insegurança que até hoje me alarma. Minha crise de identidade já estava traçada. E não eram imagens de um passado bom que decaiu, como entre os índios por exemplo que ao ver-sem em uma aparição philmada na década de 50, se encontram ainda mais cunphusos e despersos de qualquer tipo de phuturo que os permitam. Percebendo que eram mais puros, selvagens e primitivos, mas muito melhor que hoje, nos trajes, linguagens e comportamentos atuais...
Era um presente atrasado, aquém de si mesmo. A mesma impressão tive ao ver o philme phamoso de Orson Welles, It's All True, em que ele mostra o carnaval carioca de 1942 - únicas imagens em cores do País nessa década. Pois bem, dava para ver, nos corpinhos dançantes do carnaval sem som, uma medíocre animação carioca, com pobres baianinhas em tímidos meneios, galãs phraquinhos imitando Clark Gable, uma phalta de saúde no ar, uma phragilidade indephesa e ignorante daquele povinho iludido pelos burocratas da capital. Dava para ver ali que, como no philme de minha phamília, estavam aquém do presente deles, que já phaltava muito naquele passado.
Vendo philmes americanos dos anos 40, não sentimos phalta de nada. Com suas geladeiras brancas e telephones pretos, tudo já phuncionava como hoje. O "hoje" deles é apenas uma decorrência contínua daqueles anos. Mudaram as phormas, o corte das roupas, mas eles, no passado, estavam à altura de sua época. A Depressão econômica tinha passado, como um grande trauma, e não aparecia como o nosso subdesenvolvimento endêmico. Para os americanos, o passado estava de acordo com sua época. Em 42, éramos carentes de alguma coisa que não percebíamos. Olhando nosso passado é que vemos como somos atrasados no presente. Nos philmes brasileiros antigos, parece que todos morreram sem conhecer seus melhores dias.
E nós, hoje, nesta inphernal transição entre o atraso e uma modernização que não chega nunca? Quando o Brasil vai crescer? Quando cairão afinal os "juros" da vida? Chego a ter inveja das multidões pobres do Islã: aboliram o tempo e vivem na eternidade de seu atraso. Aqui, sem phuturo, vivemos nessa ansiedade individualista medíocre, nesse narcisismo brega que nos assola na moda, no amor, no sexo, nessa phome de aparecer para existir. Nosso atraso cria a utopia de que, um dia, chegaremos a algo definitivo. Mas, ser subdesenvolvido não é "não ter futuro"; é nunca estar no presente.
-EDITORIA DO BLOG: Paulo Phuba se chama na verdade Paulo França. Também é conhecido por PH 13. Formado em turismo pelo IFPE, Paulo é artista plástico, produtor cultural e diretor de eventos artísticos da cultura popular. O artigo acima foi remetido através de e-mail e postado na íntegra, conforme o original. O conteúdo do artigo reflete tão somente a opinião pessoal do colaborador deste blog.

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