A MARCA DO
PODER
Emílio
J. Moura
Chuvas torrenciais maltratavam a
face quase nua daquelas terras. Os córregos pareciam correntezas, cada trilha
escavada na descendência pelos pés dos matutos
virava um rio. O rio propriamente dito, este carregava um volume de água
há muito tempo não visto por aquelas bandas. O lamaçal tomava conta das partes
mais altas, e as estradas de barro não permitiam passagem. Os açudes já
arrebentaram há vários dias e a terra ficava cada vez mais desprotegida nas
partes mais planas e nas pequenas encostas de vegetação rasteira e escassa.
Água demais – e má distribuída – para uma região pouco produtiva e de
topografia tão desigual.
Aliança, Machado, Goiana e
adjacências possuíam áreas marcadas pela pobreza do solo. Essas áreas ainda
hoje integram um polígono de seca. As chuvas são escassas e a seca castiga
periodicamente aquela região. A fúria das águas que escavava aquela vasta área
castigada pela irregularidade do solo e pela pobreza de nutrientes deste solo
era um acontecimento raro. E o uso irracional das terras só complicou a
situação de proprietários, posseiros e agricultores sem terra que tiveram a
infelicidade de nascer ou viver nessas terras. Assim, quando era época de
pouca, ou nenhuma chuva, as culturas não progrediam por não haver nutrientes nas
terras onde foram plantadas. Mas, quando havia chuvas intensas, o espetáculo
narrado no início tornava aquela situação ainda mais insustentável. Um rio de
águas salobras alimentadas por minerais encontrados em todo seu percurso ainda
hoje faz padecer boa parte da população desses lugares, por falta de água
apropriada para o consumo humano. De nada vale a estação de tratamento
instalado pela empresa pública encarregada do serviço, se ela não foi projetada
para dessalinizar a água servida a essa população.
Mas essas terras já tiveram outra
função. Já foram usadas para o cultivo da cana e de raízes densas como inhame e
macaxeira. Já foram campos de produção de cereais, como o feijão, o milho e
outros mais. Não eram, essas terras, o que se pode chamar um celeiro, mas o que
se produzia ali deu para fazer a fortuna de muitos patrões que compraram
títulos de oficiais da guarda nacional. Foi o caso do coronel Zuza. Homem
desletrado, mas experiente e destemido, o coronel Zuza adquiriu dos pais por
herança um pequeno sítio. Seu arrojo empreendedor transformou a gleba num rico
e próspero engenho produtor de cana-de-açúcar. As terras mais em declive ele
aproveitou para cultivar inhame. Depois de algum tempo, já vendia toneladas do
produto, além de fornecer a cana para as usinas locais. Amealhou riquezas,
construiu casa grande que mais parecia um palácio. Impôs-se como senhor de terras e de gente,
embora não existisse mais o regime da escravidão.
Coronel Zuza montava os cavalos mais
bonitos e fortes que podia encontrar. Suas selas eram especialmente
confeccionadas, sob encomenda. Detalhes dourados nas margens, com encraves de
pedras que reluziam à luz do sol. Coxim de veludo e estribos brilhantes;
arreios de material trançado. Tudo dele era especial. Mas o coronel não gostou
de ver um concorrente desfilando perto de suas terras num carro de passeio. Foi
até à capital, e numa agência de automóveis escolheu o modelo mais bonito, que
era também o mais caro. Acertou os pormenores da compra do veículo, o prazo da
entrega. Com aquelas exigências todas, o carro só chegaria muitos meses depois.
Topou! Pagou tudo à vista. Quase oito meses depois, a agência informa ao
coronel Zuza da chegada do carro e foi entregá-lo na porta da casa grande do
engenho. O coronel admirou as linhas do veículo, gostou das cores listradas na
porta do carro e da placa anunciando o nome do proprietário. Tudo estava quase
ultimado, quando o coronel franziu o sobrolho. Fechou a cara e abanou a cabeça
em sinal de desagrado.
-Falta uma coisa nesse carro
sem a qual eu não o aceito!, sentenciou o coronel.
-Diga o que é, coronel, e nós
providenciaremos de imediato, afirmou o gerente da agência presente no engenho.
O coronel escreveu alguma coisa num papel e o entregou ao homem da agência.
Outros oito meses se passaram, e o carro finalmente voltou ao engenho. E o
coronel encheu-se de orgulho, concluindo o negócio. Tudo ficou claro naquele
momento. Qualquer bem do coronel Zuza teria de ser diferenciado. Ninguém
poderia opor-lhe qualquer tipo de concorrência, porque ele era o homem mais
rico de todas aquelas redondezas. E isso deveria ficar bem explicitado em tudo
que era seu. Que exigência era essa que o coronel fazia para aceitar o carro
pago há já quase dois anos? Afinal, carro era carro, e o entregue ao oficial da
guarda nacional possuía requisitos e equipamentos jamais vistos em qualquer
outro carro no Brasil inteiro. Tudo ficou devidamente esclarecido, quando
viajando pelas estradas de barro da região, os pneus do luxuoso carro deixavam
gravado no chão: Coronel Zuza, senhor de engenho do Riachão.
01.05.1983
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