MAIS UMA P E C
EMREGADOS DOMÉSTICOS E SEUS DIREITOS
O Congresso acaba de aprovar mais
uma PEC. Desta feita estende aos empregados domésticos os direitos trabalhistas
dos demais trabalhadores. São alguns direitos básicos assegurados por lei, como FGTS, contribuição
previdenciária, aposentadoria, auxílio-creche, salário-doença, salário-desemprego,
entre outros. Ninguém pode negar aos trabalhadores domésticos os mesmos direitos
dos demais trabalhadores urbanos. O problema é que os legisladores, no afã de
mostrarem serviço, confundiram uma família com uma empresa. E é exatamente
nesse ponto que o caso exige um pouco de reflexão. A família brasileira de
classe média é hoje o conjunto de pessoas mais endividadas deste País. Saúde (planos
de saúde), educação, lazer, supermercado; o carro, quando pode possuir um,
combustível, manutenção técnica; os eletrodomésticos, o computador, a internet,
a televisão fechada, o celular e outros requisitos da vida moderna tornaram a vida dessas famílias muito cara e esse peso veio se juntar às
contas de água, luz, telefone, aluguel ou prestação da casa própria, IPTU. E
por ai vai. A composição média de uma
família assim tipificada é de cinco pessoas. Na nova classe média o casal
trabalha, mas há situações em que devido ao fato da esposa não ter qualificação
profissional adequada, e fica fora do mercado, e neste caso só o homem
trabalha. É o único provedor da família. A nova classe média é diferente da
classe média tradicional. Essa nova composição familiar formou-se a partir da
melhoria do nível de educação e melhoria salarial do trabalhador e vive
exclusivamente da renda do trabalho da família,
se é que se pode chamar salário
de renda. A classe média antiga, ao contrário, é oriunda das elites
canavieiras, comerciais, industriais, fazendeiras, em uma palavra: empresários.
Têm seu pé-de-meia firmado e garantidor de eventuais situações de emergência.
Nessas condições, que se
generalizam para o conjunto da nova classe média, fica difícil atender aos
legítimos direitos dos empregados domésticos. Veja a carga extra salarial
colocada sobre os ombros da família brasileira: recolhimentos mensais de FGTS,
contribuição patronal, só para citar
dois dos inúmeros itens da nova legislação. Tudo bem, o trabalhador doméstico
merece esses benefícios. Mas, quanto ganha o casal, agora tipificado como
patrões? Governo e Congresso são pródigos em
taxar com alíquotas escorchantes
o trabalhador formal, Mas são extremamente parcimoniosos quando se trata de reajustar os
salários desses trabalhadores. E a cada instante criam mecanismos que estreitam
as margens de manobra orçamentária visando aliviar a conta da família. Incrível
é como os legisladores se esquecem de estender aos trabalhadores rurais os
benefícios dos trabalhadores urbanos. É que eles são os patrões nessa área
produtiva, e legislam sempre de modo a se beneficiarem com sonegações de
direitos dos pobres agricultores sem terra. Conceder direitos aos trabalhadores
domésticos é muito simples para os senhores parlamentares. Num reunião noturna,
dessas que os parlamentares realizam ate altas horas da madrugada, saíram
coisas que explicam a facilidade com que eles legislam sobre direitos
trabalhistas de empregados domésticos. Num momento em que não imaginava que
estava sendo observado com vídeo e áudio, um deputado disse que as contas com
os trabalhadores domésticos deles “iam para a folha de pagamento da casa”.
Fora dessa orla política, as
famílias brasileiras estão se reprogramando. As mais abastadas continuam com
aquela empregada indispensável ao serviço doméstico e à segurança da casa. As
demais, buscam caminhos que atendam aos seus parcos orçamentos domésticos,
contratando diaristas para dois dias por semana cuidarem do que é extremamente
necessário, inclusive a faxina. Outras – a maioria, dispensam a empregada e
procuram se ajustar a essa nova realidade. Mas a grande realidade desse novo
momento das relações entre família e serviçais será a informalidade que vai
crescer em proporções gigantescas. A família precisa da empregada, mas não pode
pagar a ela os novos salários e os compromissos fiscais; a empregada,
acostumada a conviver com a família, muitas vezes criada pela família, não quer
perder a relação nem o emprego, e chegam a acordo que não é exatamente o que
diz a lei. Claro que acabou o tempo dos criados, hoje são todos empregados
domésticos. Bom lembrar que na Europa as famílias já se desfizeram de
trabalhadores domésticos, e nos Estados Unidos, a tendência é o desaparecimento
dessa figura de trabalhador. Pena que no Brasil se criem leis beneficiando uma
categoria merecedora do maior respeito pelas famílias, mas não se proporcione a
essas famílias as condições de honrar os direitos de uma legislação justa, mas
incompatível com a renda familiar da nova classe média brasileira.
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