O RELÓGIO NA PAREDE
-Seu Emilio, que hora
está marcando esse relógio na parede?
Dona Esmeraldina me olhava com aquele ar sarcástico. Eu
olhei aquele relógio na parede da sala de aula, olhei, olhei, e não consegui entender aquele amontoado de letras em lugar dos números que costumava
ver nos mostradores dos relógios. Confesso que tinha medo de mulher. E aquela morena bonita, bem penteada, braços longos e
pernas grossas ali na minha frente me assustava. A professora de seus 28 anos
se deslocava com leveza em minha volta. E eu não olhava mais o relógio, muito
menos as pernas grossas da mestra. A régua
longa e pesada segura pela mão direita batia forte na mão esquerda de
dona Esmeraldina. Os castigos já haviam sido abolidos, mas aquele instrumento
coercitivo era aterrador.
-Quem sabe que hora é que marca o relógio?, pergunto, já
postada à frente da mesa, a professora
para uma turma de uns vinte alunos. João Batista, baixinho, cor branca e olhos
azuis levantou o braço. “Ora vejam, o João sabe ver a hora”, gracejou dona
Esmeraldina. “Pois bem, João, diga que hora é”, vaticinou a professora sem
esquecer de bater a régua na mão
esquerda. João Gaguejou, e a classe riu
com as trapalhadas do corajoso aluno. Alzira, 11 anos, também levantou a mão.
Mas se limitou a perguntar porque os números daquele relógio eram diferentes. Risos. Voltando-se para mim,
dona Esmeraldina viu uma porção de números em reta horizontal que eu havia
escrito no caderno. Entre cada algarismo, escrevi o numeral 5. A professora me
mandou ir ao quando com aquelas anotações. Quadro negro era a coisa que eu mais
temia, depois das mulheres. E a mestra
me fez repetir no quadro o que eu tinha feito no caderno. A turma riu
com a garatujeira quase ilegível que
escrevi no quadro negro.
Meu pai já me havia ensinado ler as horas. A diferença era
que eu nunca tinha visto um relógio cujas horas não fossem marcadas com
algarismos arábicos. Conhecia os algarismos romanos, mas nunca me disseram que
eles também figuravam no mostrador de um
relógio. E com dona Esmeraldina me
dizendo que eu estava indo no caminho certo e a classe toda rindo de mim, me
chamando de matuto ou curau foi difícil
não pedir para ir ao banheiro. “Ele é mijão”, disse o Gerson; “se demorar vai
mijar a calça”, falou o Antônio Carlos. Quase acontece, se não tivesse chegado
logo ao banheiro. De volta à sala, vi dona Esmeraldina risonha, me olhando
batendo a régua na outra mão. “Você já escreveu os algarismo arábicos entre os
romanos, agora multiplique os números que escreveu”. Ao efetuar a operação
encontrei 35. “Então, que hora é, Emílio? João disse que era pra botar uma
vírgula entre o 3 e 5, assim eram três e meia.
Dona Esmeraldina perguntou se “ da tarde ou da madrugada”. João viu a besteira que disse, e ficou amuado
apupado pela classe inteira. “Então, Emílio, que hora é?” --Nove e meia,
professora. A classe inteira riu, mas dona Esmeraldina aplaudiu.
O relógio fora doado à classe por um comerciante do bairro
que diziam paquerar dona Esmeraldina. Todos os alunos sabiam ler as horas,
mas não em mostrador com algarismos
romanos. Era o 1º ano do curso primário. A turma tinha entre nove e onze anos;
eu estava com dez. Todos os alunos já sabiam ler, escrever e fazer divisão e multiplicação
com um algarismo de referência. No ano
seguinte aprenderíamos as operações com qualquer multiplicador ou divisor. No
terceiro ano aprenderíamos frações e outras peculiaridades básicas da
matemática. No quarto ano, já devíamos
dominar a leitura e descrever uma paisagem ou um quadro do livro. Precisávamos
desses recursos para, concluído o primária, saber fazer uma redação, importante
item do exame de admissão ao ginásio. Exceto eu, recém-chegado do interior e que tive de
responder um questionário na sala da diretora,
todos os alunos haviam saído do pré, a fase de alfabetização de hoje. Se
aprendessem a ler prosseguiam; caso contrário, estavam fora da escola. Poucos alunos chegavam ao fim do primário;
português e matemática tinham peso dobrado em relação as demais matérias
estudadas em bloco. O certificado habilitava o concluinte a exercer algum tipo
de profissão. Muitos estacionavam por ai. A maioria ia ficando pelo caminho. Tempos
de ensino de qualidade numa escola pública excludente.
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