NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

segunda-feira, 15 de abril de 2013


               O  RELÓGIO NA PAREDE
-Seu Emilio,  que hora está marcando  esse relógio na parede?
Dona Esmeraldina me olhava com aquele ar sarcástico. Eu olhei aquele relógio na parede da sala de aula, olhei, olhei,  e não consegui entender aquele amontoado  de letras em lugar dos números que costumava ver nos mostradores dos relógios. Confesso que tinha medo de mulher. E aquela  morena bonita, bem penteada, braços longos e pernas grossas ali na minha frente me assustava. A professora de seus 28 anos se deslocava com leveza em minha volta. E eu não olhava mais o relógio, muito menos as pernas grossas da mestra. A  régua  longa e pesada segura pela  mão direita batia forte na mão esquerda de dona Esmeraldina. Os castigos já haviam sido abolidos, mas aquele instrumento coercitivo era aterrador.
-Quem sabe que hora é que marca o relógio?, pergunto, já postada à frente da mesa,  a professora para uma turma de uns vinte alunos. João Batista, baixinho, cor branca e olhos azuis levantou o braço. “Ora vejam, o João sabe ver a hora”, gracejou dona Esmeraldina. “Pois bem, João, diga que hora é”, vaticinou a professora sem esquecer  de bater a régua na mão esquerda. João Gaguejou,  e a classe riu com as trapalhadas do corajoso aluno. Alzira, 11 anos, também levantou a mão. Mas se limitou a perguntar porque os números daquele relógio  eram diferentes. Risos. Voltando-se para mim, dona Esmeraldina viu uma porção de números em reta horizontal que eu havia escrito no caderno. Entre cada algarismo, escrevi o numeral 5. A professora me mandou ir ao quando com aquelas anotações. Quadro negro era a coisa que eu mais temia, depois das mulheres. E a mestra  me fez repetir no quadro o que eu tinha feito no caderno. A turma riu com a garatujeira  quase ilegível que escrevi no quadro negro.
Meu pai já me havia ensinado ler as horas. A diferença era que eu nunca tinha visto um relógio cujas horas não fossem marcadas com algarismos arábicos. Conhecia os algarismos romanos, mas nunca me disseram que eles também  figuravam no mostrador de um relógio.  E com dona Esmeraldina me dizendo que eu estava indo no caminho certo e a classe toda rindo de mim, me chamando de matuto ou curau  foi difícil não pedir para ir ao banheiro. “Ele é mijão”, disse o Gerson; “se demorar vai mijar a calça”, falou o Antônio Carlos. Quase acontece, se não tivesse chegado logo ao banheiro. De volta à sala, vi dona Esmeraldina risonha, me olhando batendo a régua na outra mão. “Você já escreveu os algarismo arábicos entre os romanos, agora multiplique os números que escreveu”. Ao efetuar a operação encontrei 35. “Então, que hora é, Emílio? João disse que era pra botar uma vírgula entre o 3 e 5, assim eram três e meia.  Dona Esmeraldina perguntou se “ da tarde ou da madrugada”.  João viu a besteira que disse, e ficou amuado apupado pela classe inteira. “Então, Emílio, que hora é?” --Nove e meia, professora. A classe inteira riu, mas dona Esmeraldina aplaudiu.
O relógio fora doado à classe por um comerciante do bairro que diziam paquerar dona Esmeraldina. Todos os alunos sabiam ler as horas, mas  não em mostrador com algarismos romanos. Era o 1º ano do curso primário. A turma tinha entre nove e onze anos; eu estava com dez. Todos os alunos já sabiam ler, escrever e fazer divisão e multiplicação com um algarismo  de referência. No ano seguinte aprenderíamos as operações com qualquer multiplicador ou divisor. No terceiro ano aprenderíamos frações e outras peculiaridades básicas da matemática.  No quarto ano, já devíamos dominar a leitura e descrever uma paisagem ou um quadro do livro. Precisávamos desses recursos para, concluído o primária, saber fazer uma redação, importante item  do  exame de admissão ao ginásio. Exceto eu,  recém-chegado do interior e que tive de responder um questionário na sala da diretora,  todos os alunos haviam saído do pré, a fase de alfabetização de hoje. Se aprendessem a ler prosseguiam; caso contrário, estavam fora da escola.  Poucos alunos chegavam ao fim do primário; português e matemática tinham peso dobrado em relação as demais matérias estudadas em bloco. O certificado habilitava o concluinte a exercer algum tipo de profissão. Muitos estacionavam por ai. A maioria ia ficando pelo caminho. Tempos de ensino de qualidade numa escola pública excludente.


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