NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

terça-feira, 23 de abril de 2013


SOU CARETA, IDIOTA, ULTRAPASSADO
Sou do tempo em que curtir era levar os couros das rezes abatidas para a indústria  de curtição onde as peles eram desodorizadas, polidas e transformadas em sola de sapato. Tempo em que família era algo sagrado, e embora algumas poucas divergências, sorria ou chorava unida. Época em que compartilhar  significava viver de fato as alegrias  ou as dores dos parentes e amigos. Sou de um tempo em homem era homem, mulher era mulher; tempo em que opções de vida, principalmente as sexuais, eram coisas de foro íntimo, exercitada para satisfação dos optantes de forma reservada, resguardadas as liberdades de escolha dos não optantes, como bem frisou  recentemente em seu mural meu amigo e ex-colega de trabalho o médico Paulo Camelo.
Sou de um tempo em que festa se celebrava no âmbito da família, quando o uso da bebida era regulado pelo anfitrião, as pessoas se divertiam sem os incômodos da ressaca do dia seguinte. Época em que nessas festas havia fartura de comida, dança ao som da sanfona, respeito entre os convivas e a atenção devida ao anfitrião. Sou de um tempo em que bebida era um aperitivo ou um digestivo; quando nos encontros de amigos a conversa era sadia, respeitosa, varava a noite, entrava pela madrugada  regada a boas xícaras de café com biscoitos. Fumar era um hábito cultivado pela maioria das pessoas, mas  praticado com moderação nesses momentos, e fora das residências, com o devido aval do chefe de família. Sou desse tempo em que droga era palavra que se usava para questionar um momento ruim ou uma insatisfação diante de imprevistos desagradáveis. Nesse tempo, crianças e jovens, pobres ou ricas e de ambos os sexos, não se prostituíam na  concupiscência de uma sociedade cruel que abandonou todos os princípios éticos de uma cultura construída ao longo de décadas; a família, pilar da sociedade, patrocinava suas próprias festas, longe da influência nefasta dos apelos quase irrecusáveis de uma capitalismo selvagem que sobrevive do lucro a qualquer preço.
Sou de um tempo em que cocaína, heroína, crack, LSD e outras drogas sequer eram verbetes registrados nos dicionários. Maconha existia, mas seu uso limitado a grupos artísticos e pessoas de posses não era esse flagelo que hoje envenena a sociedade ocidental, vitimando principalmente os mais pobres. Tempo em que a prostituição camuflada não dilacerava os esteios da família e da sociedade. Época em que lingerie era apenas peça do vestuário íntimo da mulher, e não esse símbolo de exacerbação sexual explorado pela mídia, e que leva ao descaminho meninas pré-adolescentes embevecidas por um padrão de beleza induzida pelo marketing que mistura num só balaio roupas, bebida, fumo, sexo, drogas, tudo em função do lucro fácil. Sou de um tempo que não imaginava que um dia as pessoas terminassem rastejando na lama da degradação como vermes e procurando os porões da corrosão moral que as levará a autodestruição.

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