SOU CARETA, IDIOTA,
ULTRAPASSADO
Sou do tempo em que curtir era levar os couros das rezes
abatidas para a indústria de curtição
onde as peles eram desodorizadas, polidas e transformadas em sola de sapato. Tempo
em que família era algo sagrado, e embora algumas poucas divergências, sorria
ou chorava unida. Época em que compartilhar
significava viver de fato as
alegrias ou as dores dos parentes e
amigos. Sou de um tempo em homem era homem, mulher era mulher; tempo em que
opções de vida, principalmente as sexuais, eram coisas de foro íntimo,
exercitada para satisfação dos optantes de forma reservada, resguardadas as
liberdades de escolha dos não optantes, como bem frisou recentemente em seu mural meu amigo e
ex-colega de trabalho o médico Paulo Camelo.
Sou de um tempo em que festa se
celebrava no âmbito da família, quando o uso da bebida era regulado pelo
anfitrião, as pessoas se divertiam sem os incômodos da ressaca do dia seguinte.
Época em que nessas festas havia fartura de comida, dança ao som da sanfona,
respeito entre os convivas e a atenção devida ao anfitrião. Sou de um tempo em
que bebida era um aperitivo ou um digestivo; quando nos encontros de amigos a
conversa era sadia, respeitosa, varava a noite, entrava pela madrugada regada a boas xícaras de café com biscoitos. Fumar
era um hábito cultivado pela maioria das pessoas, mas praticado com moderação nesses momentos, e
fora das residências, com o devido aval do chefe de família. Sou desse tempo em
que droga era palavra que se usava
para questionar um momento ruim ou uma insatisfação diante de imprevistos
desagradáveis. Nesse tempo, crianças e jovens, pobres ou ricas e de ambos os
sexos, não se prostituíam na concupiscência
de uma sociedade cruel que abandonou todos os princípios éticos de uma cultura
construída ao longo de décadas; a família, pilar da sociedade, patrocinava suas
próprias festas, longe da influência nefasta dos apelos quase irrecusáveis de
uma capitalismo selvagem que sobrevive do lucro a qualquer preço.
Sou de um tempo em que cocaína, heroína,
crack, LSD e outras drogas sequer eram verbetes registrados nos dicionários.
Maconha existia, mas seu uso limitado a grupos artísticos e pessoas de posses não
era esse flagelo que hoje envenena a sociedade ocidental, vitimando
principalmente os mais pobres. Tempo em que a prostituição camuflada não
dilacerava os esteios da família e da sociedade. Época em que lingerie era apenas
peça do vestuário íntimo da mulher, e não esse símbolo de exacerbação sexual explorado
pela mídia, e que leva ao descaminho meninas pré-adolescentes embevecidas por
um padrão de beleza induzida pelo marketing que mistura num só balaio roupas,
bebida, fumo, sexo, drogas, tudo em função do lucro fácil. Sou de um tempo que
não imaginava que um dia as pessoas terminassem rastejando na lama da degradação
como vermes e procurando os porões da corrosão moral que as levará a autodestruição.
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