O COTIDIANO DE UM ENGENHO
O dia amanhece, o rei Sol ainda não se elevou acima das
montanhas outrora cobertas de matas. Mas a luz é forte e o calor já se
pronuncia malgrado o vento frio que vem pelo vale e açoita a folhagem de algumas fruteiras que ocupam o lugar
outrora coberto pelo tapete verde da mata. Cheiro de mato queimando. A poeira
sobe na estrada ao passar da boiada. Homens e mulheres, velhos e crianças, enxadas às costas ou facões às mãos se dirigem
para o trabalho no eito. O cabo já mediu as terras e definiu com marcas de toco
de pau as “contas” destinadas a cada
trabalhador. Maior porção para homens, menores porções para mulheres e
dimensões ainda menores para crianças. O capim e o mato rasteiro precisa ser removido com a
enxada para não competir com a cana- de -açúcar. Quando o mato já está
crescido, com pequenos galhos, entra em cena o facão.
Um pouco antes, no resto de mata de Catuama, as guaribas emitem
gritos assustadores como a mandarem as pessoas irem embora dali, daquele
pedaço de mata que é seu habitat. Na beira do rio, ali naquela descida distante
da estrada, as capivaras saem da água e correm lá para os lagos nas bordas da
mata que cobre as montanhas. Trilha natural das onças, a mata dá seus últimos
suspiros ante o avanço do canavial. No engenho Couceiro, entroncamento de
estradas de barro que levam a muitos outros engenhos e municípios vizinhos, o
coqueiral tão antigo que já não tem copa, restando apenas os troncos como dedos
apontando para o céu. Acima, um pouco à esquerda, o cemitério mostra suas torres.
No caminho, e em porções de terra em meio ao canavial, crianças sambudas e
mulheres em pele e osso padecem de fome,
embora o rio esteja bem ali perto, jerimum cresce nas terras inservíveis para a
cana e cachos de bananas já vingadas ficam abandonados nas encostas.
Na casa grande, como num acinte àquela pobreza disseminada, a
mesa farta de bolo de milho, bolo de mandioca, cuscuz e peixe assado. No
almoço, feijão de caldo engrossado com muitas verduras cultivadas na própria
horta, peixe de coco e carnes de caças. À tardinha, no jantar, repete-se o
feijão recém- cozido pela segunda vez no
dia. Frutas de época na enorme fruteira de barro; tranças de cebola e alho
penduradas na dispensa, sem falar que também há cachos de banana pendendo de
estribos. Peixes secam no varal alto por causa dos gatos do mato. No meio do
canavial, deitado no girau da miséria
protegido apenas por paredes e teto de
palhas trançadas, pobre homem arde em febre e aguarda seus últimos suspiros. O
usineiro, que é médico, diz que “não tem mais jeito” e proíbe que se aproximem
do moribundo. É doença contagiosa. Cheiro de mel de furo vem dos fundos da casa
grande. Meninos do engenho e dos sítios chupam manga. O boi muge no cercado. O
homem geme na choupana. O vento açoita as árvores. O Sol já desce no horizonte,
e os pássaros voam depressa para a mata. Dali a alguns minutos, a casa grande
celebra o jantar farto e a escuridão levará todos para a cama. Só seu Sida
permanece acordado, candeeiro aceso e
cadernetas a anotar e conferir em cima da mesa. Daqui a algumas horas o galo
canta, o Sol volta a brilhar e o lufa-lufa será reiniciado.
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