CHÁ DA MEIA-NOITE
Nos tempos da Santa Casa de
Misericórdia as freira-enfermeiras se
recolhiam aos seus aposentos a partir das vinte horas. Os pacientes internados
nos hospitais por elas administrados - quase todos, ficavam sem a vigilância e
assistência devidas até o início do expediente do dia seguinte. Época dos
remédios manipulados em farmácias dentro
do próprio hospital, de pouca eficácia e de difícil deglutição. Quando havia
uma ocorrência noturna, pessoas improvisadas de enfermeiros - geralmente
antigos internos do hospital que por não terem para onde ir ao receberem alta,
cuidavam de mitigar o sofrimentos dos doentes. A madrugada era - e continua
sendo - o horário do dia em que as dores dos pobres pacientes se intensificam com
o frio e a sensação de abandono.
Mas nos hospitais filantrópicos
"destinados à caridade" era difícil um enfermeiro à noite, imaginem
um médico. E apesar do sofrimento, muitos pacientes resistiam aos remédios
oferecidos pelos "práticos" ou "curiosos". Havia a
amplamente divulgada e temida cultura da teoria da conspiração contra a vida
dos pobres internados nos hospitais "de caridade". E essa cultura tinha nome e sobrenome:
"Chá da meia-noite". Por isso, os pacientes recusavam os remédios
oferecidos depois que as freiras se recolhiam. As meisinhas, geralmente em
forma líquida - infusões também chamadas de chás. Esse horário noturno era conhecido
como a "hora do "uiuiui".
No Hospital Pedro II, começos da década de cincoenta, ainda era possível ver os
efeitos dessa "medicina dos pobres". Algumas vezes, ao se iniciar o
expediente, cadáveres em macas jaziam pelo corredor térreo junto ao necrotério.
A área da "geladeira, escura e de acesso íngreme, não tinha cobertura e
nas noites chuvosas crescia o número de óbitos. Já integrado à enfermagem,
assisti cenas assim. E nessa época já havia um pequeno quadro de pessoa que
trabalhava à noite. Fui testemunha da cultura do "chá da meia-noite",
pois vi pacientes, geralmente pessoas idosas gemendo com dores crônicas
recusavam as gotinhas de dipirona que o médico de plantão prescrevia e eu as
preparava. Muitas pessoas idosas, ainda hoje, ficam com um pé atrás quando lhe
oferecem alguma meisinha depois da hora "0".