NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

EM TODAS AS COISAS, COMPREENSÃO.

domingo, 31 de agosto de 2014

             
                          CHÁ DA  MEIA-NOITE 
Nos tempos da Santa Casa de Misericórdia as freira-enfermeiras  se recolhiam aos seus aposentos a partir das vinte horas. Os pacientes internados nos hospitais por elas administrados - quase todos, ficavam sem a vigilância e assistência devidas até o início do expediente do dia seguinte. Época dos remédios manipulados em farmácias  dentro do próprio hospital, de pouca eficácia e de difícil deglutição. Quando havia uma ocorrência noturna, pessoas improvisadas de enfermeiros - geralmente antigos internos do hospital que por não terem para onde ir ao receberem alta, cuidavam de mitigar o sofrimentos dos doentes. A madrugada era - e continua sendo - o horário do dia em que as dores dos pobres pacientes se intensificam com o frio e a sensação de abandono.


Mas nos hospitais filantrópicos "destinados à caridade" era difícil um enfermeiro à noite, imaginem um médico. E apesar do sofrimento, muitos pacientes resistiam aos remédios oferecidos pelos "práticos" ou "curiosos". Havia a amplamente divulgada e temida cultura da teoria da conspiração contra a vida dos pobres internados nos hospitais "de caridade".  E essa cultura tinha nome e sobrenome: "Chá da meia-noite". Por isso, os pacientes recusavam os remédios oferecidos depois que as freiras se recolhiam. As meisinhas, geralmente em forma líquida - infusões também chamadas de chás. Esse horário noturno era conhecido como a "hora do "uiuiui". No Hospital Pedro II, começos da década de cincoenta, ainda era possível ver os efeitos dessa "medicina dos pobres". Algumas vezes, ao se iniciar o expediente, cadáveres em macas jaziam pelo corredor térreo junto ao necrotério. A área da "geladeira, escura e de acesso íngreme, não tinha cobertura e nas noites chuvosas crescia o número de óbitos. Já integrado à enfermagem, assisti cenas assim. E nessa época já havia um pequeno quadro de pessoa que trabalhava à noite. Fui testemunha da cultura do "chá da meia-noite", pois vi pacientes, geralmente pessoas idosas gemendo com dores crônicas recusavam as gotinhas de dipirona que o médico de plantão prescrevia e eu as preparava. Muitas pessoas idosas, ainda hoje, ficam com um pé atrás quando lhe oferecem alguma meisinha depois da hora "0". 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Sou do tempo em que no Recife não havia aeroporto, não existiam ônibus nem essas avenidas que hoje cortam a cidade. O transporte urbano era o bom, lento mas seguro  bonde  e o interurbano era feito por trem. Televisão não existia e aparelho de rádio era para poucas pessoas. Praia pela manhã, futebol à tarde e cinema à noite (havia matinê sim). Inexistiam os  espigões de concreto e vidro. A orla marítima era ensombrada de coqueiros, mangueiras e mangabeiras, numa estreita faixa de terra  entre o mar e o mangue. De Barra de Jangada até o Pina, nada de bairros, edifícios, avenidas... Dias  difíceis, mas  em que o cidadão se sentia seguro, atravessava a cidade de uma extremo a outro sem ser importunado por assaltantes, baderneiros  ou vândalos. Tudo mudou! Hoje se vive a era digital, tempos do jato que transporta centenas de passageiros  e do foguete que leva o homem ao espaço ou transporta uma bomba atômica que pode destruir toda uma região, ceifando milhares de vida. Saudosismo? Talvez!

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

        O TÚNEL DAS ÁGUAS  ENSOMBRADAS
O rio corria sonoro dentro  de  um túnel longo e escuro formado pela copa espessa dos ingazeiros. Aquela escuridão assustava até quem ja estava acostumado a eventualmente percorrer aquele trajeto onde o ruído das águas e a escuridão instigavam a imaginação. Só uma réstia de luz, aqui,  ali ou acolá, furando o teto da densa folhagem quebrava a monotonia do ambiente a um só tempo estranho e perigoso. Não era possível enxergar as pedras do leito do rio dentro daquele canal. O rio era piscoso, fundo e largo. A  travessia de um lado para outro do rio só era possível através de balsa ou jangada presa a correntes amarradas em postes fincados  às  margens opostas do mesmo. Poucos pontos permitiam passagem  perigosa sobre pedras escorregadias  e separadas umas das outras. O curto túnel atraia a curiosidade de viajantes aventureiros  munidos de suas lamparinas a gás. E de artistas locais que reproduziam a ponta de grafite aquela cena difícil de descrever com palavras.

(Trecho do meu livro Sonhos e Desilusões...)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

               CULTURA BRASILEIRA
Alegorias dos desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro, carnaval de Pernambuco, Festa do Divino, Boi Parintins no Norte do País, cavalgada em diferentes estados, maracatu, bumba-meu-boi, caboclinhos, caboclos de lança, apresentações de grupos de batuques e dança nas ruas de Salvador, laursa, congado, reisado,  xaxado, baião, ciranda, dança de roda, roda de coco, tamancada, lobisomem, papafigo, saci-Pererê, mãe -d'água e uma diversidade de eventos marcantes em todas as regiões do País fazem parte do extenso calendário folclórico brasileiro. Preferimos substituir a palavra inglesa Folclore, cujo dia comemorativo é hoje, 22 de agosto. por Manifestações Culturais  da Alma do Povo Brasileiro.

O Brasil é rico em cultura. De norte a sul, de leste a oeste, comunidades diversas comemoram  as suas datas mais marcantes. O povo brasileiro é um formidável mosaico cultural de cores, feitios, vestes, falar, divertir-se. Brancos e pretos, índios e mulatos, nordestinos ou sulistas, na variedade da cor da pele, da conformação do rosto, da forma de se expressar, dançar e cantar, todos se misturam nesse caldeirão  fervilhante de cultural para formar uma só raça: a Raça Brasileira. Um povo ainda em formação, o brasileiro  ainda não se libertou totalmente dos grilhões da escravidão e de suas consequências: o preconceito. São várias as  suas  origens, diferentes os modos de vida dos ancestrais de cada grupo que o forma. Mas há pontos essenciais que une cada grupo étnico, misturando-os nesse caldeirão  de multiplicidade racial unificada sob um hino e uma bandeira. Dai, sermos uma Raça de muitas manifestações que se fundem numa Alma Só.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

      UMA ASCENSÃO CATAPULTADA

A morte de Eduardo Campos revolucionou a corrida ao Palácio do Planalto. O fato catapultou ao cenário eleitoral  do País a ex-senadora Marina Silva, que se apresenta agora como alternativa ao eleitor que busca mudanças estruturais e rejeita a forma de governar do PSDB. O quadro é de transição político-ideológica e merece algumas reflexões da parte dos eleitorais mais esclarecidos. O Brasil, além da ampliação de suas bases econômicas,  cresceu no cenário político e diplomático mundial graças às suas posições de equilíbrio e ao seu reconhecido potencial  negociador. E é hoje uma das vozes da Organização das Nações Unidas (ONU) para mediar conflitos e prestar ajuda humanitária às áreas de maior carência em virtude de guerras ou disputas tribais mundo afora. Esse respeito que o Brasil amealhou em décadas de trabalho pode de repente estar ameaçado por uma eventual reviravolta política em virtude de uma possível vitória de Mariana Silva nas próximas eleições. É conhecida a posição radical da fundadora da Rede Sustentabilidade  que só está no PSB porque seu partido não recebeu aval  da Justiça Eleitoral. Suas posições são diametralmente opostas ao discurso liberal do partido do mito Miguel Arraes e portanto contrárias  aos compromissos assumidos diante da Nação por Eduardo Campos.

Marina é militante de tendências extremistas de direita de correntes  evangélica e eco-econômica. É também de forte posição contrária aos grupos de diversidade social com grande influência  no País. Não é difícil afirmar que Marina defende opta por um fundamentalismo social que não é bom para a democracia, não tem dado certo em parte alguma do Planeta e é responsável por divisões e conflitos que caracterizam o violento e complicado mundo de hoje. Uma abrupta  re-arrumação do quadro social, religioso e ideológico traria consequências  políticas internas adversas e com certeza complicações diplomáticas externas para o Brasil. Os pronunciamentos de Marina Silva diante de questões dessa natureza, ou seu silêncio diante das mesmas quando lhe é conveniente deixa o observador mais astuto com um pé atrás diante dessa ameaça real de convulsão social interna e sanções externas, que podem lançar por terra todo um trabalho de conscientização e harmonização da consciência política brasileira. A terceira via capaz de realinhar de forma positiva o processo político interno do País ainda não é visível no atual quadro político. Vamos aguarda o posicionamento dos partidos da composição que apoiava Eduardo e tirar novas conclusões.
                               O  UNIVERSO É AQUI
Você já se imaginou viajando por ares nunca dantes visitados?. Já pensou como são de fato as pirâmides do Vale dos Reis? Sabe como viveram os Faraós e o poder que eles tinham sobre as terras dos seus domínios? Você gostaria de retroceder no tempo e conhecer os primeiros povos a conquistar os oceanos? Olha, Roma fica bem ali. Quem tem boca chega lá. Difícil seria atravessar as fileiras militares do exército que conquistou países e povos. A Mesopotâmia instiga sua imaginação? Então, vá ver os jardins suspensos da Babilônia, a biblioteca de Alexandria e o palácio da que criava cobras como se guarda um biscui. Imagina como é a travessia de um deserto de milhares de quilômetros! Não tem água, frutos, nem caça. Talvez uns escorpiões e serpentes em busca de improváveis presas. Talvez você não gostasse de encontrar os exércitos de Napoleão, que era mestre em manejar a pena ou mirar sua cabeça com as armas de fogo que possuía.


Dando asas à imaginação o cavaleiro andante transforma sua montaria num balão ou num foguete. Se quer apenas apreciar as belezas da paisagem natural de um bosque, um rio a serpentear através de vales e se derramar no oceano. É só penetrar na selva, subir montanhas e descer precipícios, abrir trilhas e vencer a face oculta do desconhecido ambiente das florestas e savanas. Ver e encantar-se com os pássaros coloridos, as árvores multidiversificadas, os arbustos, os cipós entrançados, as águas da cor das raízes correndo sob os pés, os peixes. Os mamíferos, principalmente os macacos. O vento açoita as árvores, e como numa sinfonia ruídos de cascatas, vozes animais  e o estalo do mato seco pisado harmoniza a diversidade do todo. Mas, se o que você quer é aventura perigosa, monte num rabo de foguete e vá perscrutar a escuridão dos espaços longínquos, o som estridente das galáxias e as profundezas sem fim desse Universo infinito. Quer uma sugestão? Vá àquela estrela que brilha forte lá na constelação recém-descoberta fora da influencia da Via Láctea, e depois tente voltar. Vai encarar? Boa sorte.

sábado, 16 de agosto de 2014

E O RIACHO SECOU
Brotando da fonte a borbulhar
A água corre mansa pelo campo
E um riacho escuro vai formar...
Sarapós, camarão, como encanto

Naquele estranho meio de bambuzal
Alimentam peixes, cachorro e gatos
Que espantam os roedores do milharal:
Preás, coelhos, aves agrestes e  ratos.

Paisagem antiga, a fonte já se foi
E com ela também  o  riacho
Os peixes, cana, roedor, boi.

A terra seca, cortada, esturricada
Como se tocada  por um facho
-Cena  real de campina arrasada.




quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Começos da década de  quarenta, século passado. Avião que deveria pousar na bacia da Cabanga tem problemas e voa baixo encurvando-se para a esquerda. O piloto tenta pousar no Capibaribe, entre a ponte velha e imediações do Pedro II; o avião  perde altura, bate na rede de alta tensão e explode perto da lâmina d'água. Menino ainda, morando na Rua de Jangada, cheguei à zona do desastre, já isolada pelas autoridades. Vi comovido os bombeiros retirando do fundo do rio os restos mortais de passageiros e piloto. Braços, pernas, partes do tronco,  cabeças...  Vi tudo aquilo! Imagino como  está sendo difícil para as autoridades  localizar, identificar e entregar os restos mortais  das vítimas do desastre aéreo de Santos. E imagino como será ainda  mais  comovente para as famílias saberem que os corpos dos seus entes queridos estão ali...  fragmentados. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

             LIBERDADE COM RESPONSABILIDADE
Os  meios corporativos  da área de comunicação (televisão, rádio, jornal, etc) chiam quando alguma coisa  rebate nos profissionais de imprensa. O caso recente de "alteração de perfil" da jornalista Miriam Leitão e Carlos Sandenberg foi muito repisado pelos telejornais, principalmente da Rede Globo de Televisão. Esses jornalistas , bem como outros de língua afiada e agressiva- caso do Arnaldo Jabor,  são  conhecidos do público brasileiro mais esclarecido. Não é segredo para ninguém o alinhamento desses e outros  profissionais  de imprensa  brasileiros com o modelo conservador  de países  ricos da Europa e América do Norte. Eles sabem que as diferenças culturais entre o Brasil - um painel de raças e costumes - e países europeus  são fundamentais para absorção de modelos estrangeiros. E que a metodologia usada por lá nem sempre se ajusta a realidade brasileira. Igualmente não desconhecem que  em termos institucionais o Brasil é um adolescente tateando no marasmo do sistema econômico ocidental. Diferente dos europeus, muitos deles com milênios de história. Ainda assim, enquanto no Brasil, apesar do espírito conservador das elites pressionadas por uma crescente conscientização popular se tem um crescimento  pífio, nos países do velho continente e até nos Estados Unidos, esse crescimento vem sendo nao raro negativo.

Impressionante é a empáfia dessa categoria de trabalhadores. Todos os demais  profissionais liberais têm suas Ordens, seus conselhos reguladores. Os jornalistas, não. Eles são intocáveis.Precisam preservar seu direito de falar, de expor suas idéias. A liberdade de imprensa é algo que o mundo civilizado necessita; tudo bem. Mas essa liberdade deve vir acompanhada de responsabilidade. Não se diz qualquer asneira nem se faz referências veladas a ninguém sem que se possa provar o que foi dito. Essa liberdade de imprensa é muito boa para a integridade da democracia. Porém os jornalistas precisam ser mais sinceros e menos alinhados aos interesses políticos das elites. O que nos parece bastante difícil de acontecer. Enquanto isso, espera-se um pouco de bom senso desses profissionais ao exporem suas idéias. 

sábado, 9 de agosto de 2014

                      QUIRINO, O ERMITÃO

Uma casinha de barro, coberta de sapé. Um quarto e uma sala, uma latrina um pouco distante. externa  também ficava  a cozinha de fogão de lenha; panelas de barro. Feijão cultivado na horta ao redor, quiabo, maxixe, jerimum, tomate, pimentão, repolho; no pomar, manga, sapoti, melancia, melão,  tudo de folhagem furadinha  na condição orgânica do cultivo. Farinha fabricada ali mesmo, com muito trabalho e dedicação e  em meio ao beiju  feito da mesma massa de mandioca. Peixe e camarão pescados no pequeno lago perene de águas claras e serenas ali pertinho. A cabra de leite, o  pai-de-chiqueiro, uns porquinhos vermelhos  para garantir uma renda mínima ao aldeião; Galinhas soltas na capoeira e o cão farejador de raposas e onças a respaldar o sono do homem solitário de setenta anos, forte, corado e acostumado a dormir com os pássaros e acordar com o galo. Saiu da urbe ainda criança, andou por engenhos e sítios, e já aos vinte anos, cansado do vozerio dos aglomerados humanos encontrou refúgio naquele paraíso distante das contendas urbanas. Nunca ouviu falar em televisão, cinema, computador. Tecnologia pra ele era pescar um maior quinhão de peixe ou camarões. A longa trilha que atravessa a mata só era  usada por ele  para ir à feira comprar querosene, sal  e outras pequenas coisinhas de uso doméstico. Seu Quirino era um homem feliz!

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

                  INCLUSÃO  E  CIDADANIA
Duas palavras  frequentemente  usadas por  políticos, sociólogos e demais profissionais ou amantes de estudos sociais. Inclusão e cidadania soam como palavras  miraculosas  que podem solucionar num toque de mágica todos os problemas de sociedades pobres e injustas, como a brasileira por exemplo.  Mas a verdade é que mesmos as sociedades ricas  necessitam de inclusão e cidadania. Nos Estados Unidos, por exemplo, o presidente  Barack  Obama  enfrenta dificuldades para aprovar no Congresso a universalização da saúde. As elites sabem que não há milagres, e que qualquer  "ajuda" aos pobres significa transferência de renda. Isto é, os ricos  americanos não querem perder migalhas dos seus patrimônios em benefício dos mais pobres.
No Brasil, principalmente nas regiões menos ricas como o Nordeste, essas duas palavras têm gosto de piada. Incluir significa levar os problemas dos mais pobres  para o centro das discussões  e encontrar soluções efetivas, práticas, duradouras. Quando isso ocorre, se ocorre de fato, o cidadão verá os seus problemas resolvidos; passa a viver em outro patamar social. E adquire status de cidadania. Ou seja: produzir inclusão é fazer de um pária um cidadão, dando a ele boas condições de moradia, acesso aos serviços básicos de saúde, abrindo-lhe as portas para uma educação de qualidade, permitindo-lhe transporte seguro, confortável, rápido e permanente. Não esquecer de proporcionar à pessoa trabalho com renda que lhe permita manter a si e à sua família. Segurança  em casa e na rua. Condições de lazer, com viagens pessoais e familiares, acessíveis à economia do cidadão. Inclusão, enfim, é a pessoa  ter acesso direto a todos os bens conquistados pela sociedade, através da tecnologia, da saúde e da educação.
Essas aspirações, tão apregoadas e prometidas por políticos,  são em todas as regiões do País, meras quimeras, miragens num deserto de mentiras, enganações  e desrespeito às pessoas carentes. Habitação! Constroem-se "conjuntos habitacionais" em periferias, para onde se empurra a população mais pobres. Depois, isolam essas populações, deixando-as entregues a sistemas  de transportes falidos, com integrações de estrutura vergonhosa (Tancredo Neves, Joana Bezerra, etc.), com péssimos serviços de água encanada, energia elétrica, ruas íngremes e  escorregadias, postos de saúde que não funcionam, escolas mal equipadas, abastecimento de alimentos precários e demais deficiências que dificultam a vida das pessoas. Parte considerável da população vive entocada como ratos em  barreiras escadas nos morros, e nesses casos é uma provocação falar em cidadania. O bem maior de uma sociedade é a educação, mas educação de qualidade, com escolas bem equipadas e professores qualificados e motivados por bons salários. Nesse item, estamos ainda bem distante dos benefícios da inclusão social e mais ainda da cidadania plena.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

    
 CIDADANIA E REJEIÇÃO
A QUEM A CIDADE PERTENCE?
A história se repete. As elites quererem empurrar  os seguimentos mais pobres da cidade do Recife para a periferia. Primeiro foi  a expulsão desses seguimentos da pouca conhecida Rua de Jangada. Há mais ou menos 70 anos. Erradicou-se naquela época  todo um conjunto de casas de diversos feitios, como a vila dos pescadores da Colônia Z 1, a rua das calçadas altas e um resíduo de sítio histórico onde provavelmente existiu um baronato. Uma população heterogênea que vivia da pesca direta ou a intermediando. Em poucos meses, centenas de caminhões de barro  foram colocados sobre a areia sobre a qual a vila se assentava. E centenas de pessoas foram forçadas a deixar o lugar onde muitas delas  nasceram e cresceram. As elites que implantavam o  Cabanga Iate Clube não aceitavam conviver com integrantes de uma comunidade cujas casas não tinham saneamento básico, sequer uma fossa, e cujos excrementos eram de ordinário jogados na maré. Uma população de pescadores, comerciantes, industriários e biscateiros que vivia feliz perto do centro da cidade, que era acessada a pé através do areal do Chupa. Antes, já haviam expulsado os habitantes da Gameleira, um denso  povoado que existia nas imediações do atual batalhão do exército, ali na Cabanga. A "cidadela" de lona e palha de coqueiro incomodava a elite que morava na Av. Saturnino de Brito, cuja artéria dava passagem para o bonde ir até ao Pina. Já haviam expulsado pessoas que moravam no mangue entre a Rua de Jangada e o Cais de Santa Rita. A área foi aterrada por dragagem; milhões de metros cúbicos de areia foram retirados da bacia do Pina e formaram o areal chamado Chupa. Décadas depois é que foram construídos armazéns  de açúcar e tancagem na área.

O projeto do bairro que se chamará Novo Recife, é mais uma repetição do nojo que as elites nutrem pelas classes menos favorecidas. Serão construídos prédios de apartamentos para a classe A. E alguns otários - trabalhadores de atividades primárias das periferias das imediações louvam a iniciativa de grupos empresariais que planejaram o no Novo Recife. Não vêm que mais cedo ou mais tarde virá o seu deslocamento das áreas onde residem perto do centro da cidade. Os autores do projeto Novo Recife, na sua visão elitista, entendem que pobre está muito bem sendo porteiro, babá, arrumadeira, zelador, cozinheiro doméstico ou assemelhados; só serviriam para isso! E pessoas assim devem morar bem distante das "áreas nobres". Afinal, elas foram contempladas com benefícios como o BRT, os TI de Integração do tipo Tancredo Neves e outras novidades que bem lembram um cenário da Índia, além de disporem de um serviço de "metrô" como o do Recife e de postos de saúde e hospitais como os da RMR. Sabemos que o Novo Recife, passando ou não por mudanças no projeto original, veio para ficar. Afinal, essa coisa de cidadania, muito apregoada por intelectuais ou teóricos sociais, é algo tão fugaz como o salário-mínimo pago ao trabalhador brasileiro. O que é permanente é esse espírito de rejeição dos mas pobres pelas elites.