CIDADANIA E REJEIÇÃO
A QUEM A CIDADE
PERTENCE?
A história se repete. As elites quererem empurrar os seguimentos mais pobres da cidade do
Recife para a periferia. Primeiro foi a
expulsão desses seguimentos da pouca conhecida Rua de Jangada. Há mais ou menos
70 anos. Erradicou-se naquela época todo
um conjunto de casas de diversos feitios, como a vila dos pescadores da Colônia
Z 1, a rua das calçadas altas e um resíduo de sítio histórico onde
provavelmente existiu um baronato. Uma população heterogênea que vivia da pesca
direta ou a intermediando. Em poucos meses, centenas de caminhões de barro foram colocados sobre a areia sobre a qual a
vila se assentava. E centenas de pessoas foram forçadas a deixar o lugar onde
muitas delas nasceram e cresceram. As
elites que implantavam o Cabanga Iate
Clube não aceitavam conviver com integrantes de uma comunidade cujas casas não
tinham saneamento básico, sequer uma fossa, e cujos excrementos eram de
ordinário jogados na maré. Uma população de pescadores, comerciantes,
industriários e biscateiros que vivia feliz perto do centro da cidade, que era
acessada a pé através do areal do Chupa. Antes, já haviam expulsado os
habitantes da Gameleira, um denso povoado que existia nas imediações do atual
batalhão do exército, ali na Cabanga. A "cidadela" de lona e palha de
coqueiro incomodava a elite que morava na Av. Saturnino de Brito, cuja artéria
dava passagem para o bonde ir até ao Pina. Já haviam expulsado pessoas que
moravam no mangue entre a Rua de Jangada e o Cais de Santa Rita. A área foi
aterrada por dragagem; milhões de metros cúbicos de areia foram retirados da
bacia do Pina e formaram o areal chamado Chupa. Décadas depois é que foram
construídos armazéns de açúcar e
tancagem na área.
O projeto do bairro que se chamará Novo Recife, é mais uma
repetição do nojo que as elites nutrem pelas classes menos favorecidas. Serão
construídos prédios de apartamentos para a classe A. E alguns otários -
trabalhadores de atividades primárias das periferias das imediações louvam a
iniciativa de grupos empresariais que planejaram o no Novo Recife. Não vêm que
mais cedo ou mais tarde virá o seu deslocamento das áreas onde residem perto do
centro da cidade. Os autores do projeto Novo Recife, na sua visão elitista,
entendem que pobre está muito bem sendo porteiro, babá, arrumadeira, zelador, cozinheiro
doméstico ou assemelhados; só serviriam para isso! E pessoas assim devem morar
bem distante das "áreas nobres". Afinal, elas foram contempladas com
benefícios como o BRT, os TI de Integração do tipo Tancredo Neves e outras
novidades que bem lembram um cenário da Índia, além de disporem de um serviço
de "metrô" como o do Recife e de postos de saúde e hospitais como os
da RMR. Sabemos que o Novo Recife, passando ou não por mudanças no projeto
original, veio para ficar. Afinal, essa coisa de cidadania, muito apregoada por
intelectuais ou teóricos sociais, é algo tão fugaz como o salário-mínimo pago
ao trabalhador brasileiro. O que é permanente é esse espírito de rejeição dos
mas pobres pelas elites.
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