NAS COISAS SUPÉRFLUAS, LIBERDADE;

NAS COISAS NECESSÁRIAS, ORDEM;

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

                                       ECOS DE MINHA MENTE ESTÉTICA


                                                     Emílio J. Moura

Provavelmente é uma das mulheres mais bonitas que conheci. Tudo nela soma com beleza. A voz doce e carinhosa suavizando os tímpanos de quem a escute dando conselhos e repassando orientação. O corpo esbelto, de cintura bem proporcionada ao quadril perfeito. Pernas longas e bonitas, com as coxas roliças e anatomicamente proporcionais aos joelhos burilados e panturrilhas musculosas. Busto delicado, com os seios salientes, mas sem adiposidade. Rosto lindo de pele esticada, lisa e úmida onde um nariz como que esculpido realça uma boca de lábios finos, naturalmente avermelhados como se cobertos de carmim. Olhos azulados se mexendo lentamente numa órbita pequena de cílios curtos e negros. Cabelos castanhos, de cor natural, cujo penteado em ondulações induzidas realçava o corte profissional feito por suas próprias mãos. Sua pele morena clara e exuberante expõe um organismo sadio, expurgado de toxinas. O conjunto é como se fosse um quadro de traços perfeitos pintado por algum mestre barroco. E realçado por vestes bem acabadas, de seda ou outros tecidos finos, dentro das quais ela, em cima de saltos altos, simplesmente desliza com a suavidade da leveza do seu corpo.

Quase menina, vinte e um anos. Mas com a cabeça de mulher experiente. Personalidade firme, estribada na formação cristã. Nada de noitadas profanas regadas a álcool ou nicotina. Família estruturada, pai médico, mãe professora, ambos bem sucedidos na profissão. Terminava seu curso de graduação e já se descortinava diante de si um horizonte de possibilidades sonhadas por muitos, mas disponíveis para uns poucos. Casar não estava nos seus planos. No entanto, tinha uma filhinha de um ano e meio. Ainda não tinha completado dezenove anos quando engravidou. Foi um ato consciente; queria um filho para com ele conviver desde jovem. Só com ele. O pai da criança sabia desse seu projeto, e debalde insistia num relacionamento. Desenganado, mudou-se para outra região. Formada, fez especialização na capital, para depois se transferir para o interior dos seus pais. Além do mercado de trabalho garantido pelo prestígio paterno, uma fazenda constituía o futuro do seu patrimônio. Seu jeito reservado se coadunava com uma vida interiorana, distante dos ruídos e badalações da cidade grande. Jamais abandonaria a profissão, mas seu intento era nos fins de semana despojar-se das vestes que caracterizavam seu status social, envergar um macacão e cavalgar pelas Campinas.

Tratava-me com o carinho de uma filha, e em momentos de alguma folga vinha conversar comigo. Dizia admirar minha visão da vida e procurava se aconselhar comigo para aclarar temas mais íntimos cujos reflexos em sua vida de mulher ela ainda não conseguia vislumbrar bem. Particularmente, eu sentia um enorme prazer em conversar com ela. Tinha a oportunidade de aprender com a sinceridade imatura de uma jovem inteligente que se abria perante mim, e ao mesmo tempo me era dado o prazer de ser uma pessoa confiável, sem desconsiderar o ensejo de poder admirar de perto aquela mulher bonita, fina e amável cujo perfume discreto recarregava minhas energias ao me tocar levemente. Invadia-me uma sensação de poder e prazer, mas também me dominava a consciência de que diante de mim estava não apenas uma mulher sedutora, mas acima de tudo uma moça que me tinha como se seu pai eu fora. Seu nome? Que importa! Importa, sim, o fato de na minha memória ter ficado gravado para sempre aquele relacionamento cordial, e a certeza de que posso ser útil ao próximo sem a costumeira desfaçatez de um exercício mental erótico.   13
                                                                                                                                      13.10.2006

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